Autores convidados, Literatura, Textos
Juliana Gomes
10 de dezembro de 2015

A via crucis do corpo

“Já tentei olhar bem de perto o rosto de uma pessoa — uma bilheteira de cinema. Para saber do segredo de sua vida. Inútil. A outra pessoa é um enigma. E seus olhos são de estátua: cegos.”

Em 1974, a escritora Clarice Lispector lançou a coletânia de contos A Via Crucis do Corpo, livro encomendado por seu editor, o poeta Álvares Pacheco. No começo, seriam apenas três contos que viraram treze, mas podiam ter sido quatorze, como a própria autora cita no prefácio Explicação. Os jornais da época foram impiedosos e classificaram a obra como menor: “Lixo, sim: lançamento inútil” (Veja); “teria sido melhor não publicar o livro, em vez de ser obrigada a se defender com esse falso desprezo por si própria como escritora” (Jornal do Brasil).

Apesar de Clarice dizer no prefácio que não escrevia por dinheiro, o que se supôs na época foi que esses contos tivessem sido de uma leva de encomendas para a autora que passava por dificuldades financeiras. Clarice retruca que os filhos leram e gostaram; e isso que importa.

A Via Crucis do Corpo traz à tona a “uma personagem-escritora, uma escritora-personagem, uma autora ficcionalizada”. Muitos personagens dos contos parecem ser alter egos da autora: as indagacões de Clarice sobre o que é ser mulher e o feminino posto à prova estão presentes em todos os contos. Segundo a própria autora, o livro é uma fresta no cárcere social que mantém a mulher supostamente distante de seus desejos, fardos e fantasias.

O cotidiano é cruel com nuances surreais como no conto Miss Algrave, em que uma mulher experimenta o prazer sexual com um extraterrestre e mais parece uma fábula entre o sagrado e o profano, a mentira e a realidade construída. No conto Ruído de Passos, Clarice aborda temas como velhice e masturbação com as indagações desse mesmo profano, que de tão mau é bom.

Esta, para mim, foi uma leitura muito diferente dos outros livros de Clarice. Talvez tenha me deixado primeiro influenciar pelas duras críticas, o que me fez demorar para ler os contos quase eróticos de A Via Crucis do Corpo. Há um quê de Hilda Hilst, mas também há muito de Clarice. Lê-lo, afinal, foi divertido e acho incrível poder dizer isso de um livro da autora.

São mulheres diferentes em uma só, vontades e sonhos colocados diante de nós, talvez como um espelho de frente para a autora ou de frente para cada um dos leitores que ousem tentar decifrá-la.

Hoje seria seu aniversário: Clarice nasceu em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, e morreu às vésperas de completar 57 anos, em 9 de dezembro de 1977. Em homenagem, o clube #LeiaMulheres vai discutir A Via Crucis do Corpo hoje, às 19:30h, na Livraria Blooks, em São Paulo. Saiba mais aqui.

Juliana Gomes é uma das idealizadoras do projeto Leia Mulheres no Brasil. Hoje trabalha como consultora de marketing e comercial para livrarias e editoras. Sonha em ser a velha dos gatos, morar na praia e passar os dias apenas lendo.