Autores convidados
Tatiana Cavalcanti
29 de junho de 2015

Aquele dia

No dia em que você não disse que me amava, um terço de mim morreu. Lá, bem lá dentro de mim, uma fonte que eu achava ser inesgotável, secou. Sem aviso, sem sintoma, sem alarde. Um terço inteirinho inteirinho. Morri porque o fosco do teu olho me dizia que aquele silêncio era o troço mais honesto que você podia me dar naquele instante.

Aquele dia, eu demorei 45 minutos no banho e cortei a perna com uma gilete velha e cega, sem sentir nem uma pseudo dor, nem aquele ardidinho. Exatamente como pareceu a vida, ressoada no eco que berrava e berrava e berrava sem emitir um ruído sequer. Na verdade, eu já não sentia nada.

Aquele dia, chorei muito esperando que a água misturasse todo o meu líquido com o sabonete de camomila que, ao menos na embalagem, prometia acalmar. Ilusão. É que, de repente, achei que cheirando camomila, a vida podia não perder completamente a direção. A razão. O norte. A via única que fazia tanto sentido por tanto tempo.

Aquele dia, conheci com quantos gritos se fazem um silêncio sepulcral. O barulho do mundo ruindo é alto e assustador.

Aquele dia, quando eu disse que te amava e senti nossa respiração fraquejar e escutei seus cílios fecharem lentamente… Eu senti o aperto da saudade antecipada. Um buraco sangrento e regado a pus abriu inteiro cada centímetro cúbico de mim.

Aquele dia, quanto mais eu desejava um grito, uma lágrima, uma discussão, mais eu via o nada, a ausência, a presença do fim latejando entre nós.

Quando tudo isso aconteceu sem que eu me desse conta?

Aquele dia, senti o vazio do mundo fazer passeata dentro de mim. Tambores rufavam, tremiam, cercavam meu corpo e me expulsavam pra fora de tudo que eu achei que era e acreditava que queria e desenhava para ser.

Aquele dia foi o primeiro dia do resto da gente. O último suspiro do amor. A última vela acesa para tentar clarear as ideias, o último cigarro fumado a dois, a última taça de vinho com as nossas digitais misturadas.

O plano final. O último eu te amo. Puta que pariu. Justo daquele jeito.

Aquele dia, quando você não disse nada, você disse absolutamente tudo.

 

* Imagem: aquarela de Marion Bolognesi

Tatiana Cavalcanti é escritora, roteirista e sócia da Alma, Conteúdo Criativo. Autora do Caóticos de uma Mulher Crônica, mãe do Matheus e da Bia, apaixonada por gatos e doces. Saiba mais aqui.