Autores convidados, Literatura, Resenhas
Stephanie Borges
18 de dezembro de 2015

As Pequenas Virtudes

Quando se deixa o lugar onde nascemos, aprende-se a contar a própria história de forma breve e sincera. A leveza com a qual são resumidos escolhas, afetos, legados familiares e experiências faz tudo parecer linear, quando não é. Falamos com estranhos, pessoas que precisam apenas de algumas informações para nos situar em suas paisagens. É um exercício de concisão tratar de coisas profundas com poucas palavras, ter cuidado ao escolhê-las. A leitura de As Pequenas Virtudes me fez pensar neste aprendizado. Porque a forma como a autora desdobra toda uma visão de mundo em textos curtos cria a ilusão de simplicidade.

Foi numa dessas conversas sobre quem-sou-e-de-onde-vim que me indicaram Nathalia Ginzburg. Há cinco anos, conto como me mudei para São Paulo e até hoje me surpreendem as reações dos ouvintes. Uma vez, ao terminar minha história para Maria Helena Arrigucci, a Lena, uma grande editora com quem tive a sorte de trabalhar, ouvi:

– Mas como você resolveu trabalhar com livros? Como veio parar na Cosac Naify?

Ao ouvir sobre a parte da minha vida me levara até ali, Lena perguntou o que gostava de ler e me recomendou Virginia Woolf, especialmente os contos e a não ficção. Ela tinha acabado de editar Mrs. Dalloway e admiti que era minha terceira tentativa, mas nunca fui além do passeio de Clarissa para comprar flores. Depois do encorajamento para insistir, tinha mais:

– Se você gosta de literatura, tem que ler os italianos. O que você leu?

­– Pouca coisa. Adoro o Calvino. Li o Pinóquio e achei maravilhoso. Li Carlo Ginzburg na faculdade e gostei bastante.

– Você gostou do Ginzburg? Então precisa ler a mãe dele, a Natalia, e o Tabucchi.

Só tive de tempo de agradecer à Lena pessoalmente por me ter feito ler o Tabucchi. Ganhei um sorriso. Cheguei a O Valor do Riso e Outros Ensaios e a Um Teto Todo Seu só depois de sua morte. A curiosidade me levou à Elena Ferrante antes dos compromissos profissionais. Meu encanto com sua prosa enxuta, a construção dos personagens me trazia a lembrança daquela conversa – “você tem que ler os italianos”. Estava terminando The Story of a New Name, segundo livro da Tetralogia Napolitana, quando anunciaram o lançamento de As Pequenas Virtudes. Decidi interpretar como um sinal.

A delicada edição, traduzida por Maurício Santana Dias, reúne onze ensaios publicados em jornais e revistas entre 1944 e 1960. Textos curtos, como Inverno em Abruzzo, Sapatos rotos e O Filho do homem, nos colocam entre a crueza do cotidiano e acontecimentos que redefinem relação do ser humano com a vida. Ser exilada, passar por privações, sobreviver a uma guerra. Escritos após a morte de seu marido, Leone Ginzburg, os ensaios não recaem num tom sentimental, mas há neles a lucidez que quem sofreu, tem seus filhos para cuidar e precisa seguir adiante.

No entanto, se o olhar de Natalia parece desencantado por conhecer as dificuldades pelo caminho, ela extrai delas uma clareza profunda. O ensaio que empresta o título ao livro define uma série de valores que podem orientar uma vida enquanto fala, com simplicidade, da educação dos filhos. Não é apenas uma mãe falando sobre o fundamental e supérfluo, mas uma mulher dividindo o que aprendeu. Suas reflexões vão muito além do que ensinar às crianças, provocam o leitor a repensar as próprias escolhas.

Em uma época em que somos estimulados constantemente a consumir e competir, as reflexões de Ginzburg nos colocam diante do essencial. Não confundir o valor do dinheiro com o bem que ele pode nos proporcionar. Perceber a diferença entre o desempenho na escola e o prazer de aprender, não sacrificar o segundo em função do primeiro. Observar o que é realmente útil para o futuro, quais virtudes ensinam uma pessoa a ser resiliente, enfrentar as dificuldades sem perder o amor à vida.

As Relações Humanas e Meu Ofício discorrem sobre os caminhos que conduzem ao amadurecimento. É curioso, como tanto no exercício da escrita quando vivência dos afetos, Ginzburg ressalta como o aprendizado da compaixão é o demorado e necessário. Talvez seja por ter aprendido sobre a misericórdia com os demais seres humanos que a autora se dirija ao leitor com palavras enxutas e diretas. Natalia não é didática, compartilha com generosidade. Escreve como quem deseja apresentar rapidamente o fundamental aos estranhos. Faz parecer simples, quando não é.

Alguns ensaios são mais cativantes, o que pode causar a sensação de um conjunto irregular. No entanto, essa percepção está muito ligada ao quanto os temas abordados são caros ao leitor. Embora Elogio e Lamento da Inglaterra e La Maison Volpé não tenham se destacado na minha leitura, as críticas de Natalia ao comedimento dos ingleses, a falta do apreço pela comida e o prazer revelam que não apenas a amizade e a generosidade lhes são caras, mas a capacidade de aproveitar a vida é extremamente necessária.

As Pequenas Virtudes é daqueles livros aos quais retornamos ao longo dos anos. Para reencontrar textos que nos tocaram, relembrar lições que possam estar meio esquecidas. O mapa, usado como textura na capa me parece certeiro. É um livro cheio de caminhos a explorar, mas também um bom companheiro de viagem.

 

* Imagem: fotografia de Natalia Ginzburg

Stephanie Borges é uma carioca que veio para São Paulo seguindo seu coração. Uma leitora que não sossegou até trabalhar com livros. Beiras de praia e botecos de esquina são alguns de seus lugares preferidos no mundo.