Autores convidados, Textos
Fernanda Couto-Rothgiesser
15 de novembro de 2013

Carta para Júlia

Julia,

Abri o jornal hoje e li a notícia da sua morte. Fiquei chocada com a situação. Piorei quando li os comentários sobre a matéria. Vi suas fotos. Tão jovem. Vi o que fizeram com você, com o seu vídeo, com a sua intimidade. Vi o que você fez com você. Tão jovem.

Lamento que ninguém tenha ouvido o seu grito por socorro. Lamento você ter passado por isso numa idade na qual devemos sim errar, e errando, aprender para depois errar mais -e aprender de novo. Lamento que você tenha vivido numa sociedade machista e moralista, na qual as pessoas julgam você pela aparência e por quantos ou com quem decide manter relação sexual. Uma sociedade que julga você por viver sua juventude. Não sei se você sabe, Julia, mas temos sexualidade e afetividade desde que nascemos. Desde pequenos fazemos nossas escolhas objetais, experimentamos o corpo como fonte de prazer. Isso é normal, Julia. É normal viver a sua sexualidade com homens e mulheres. É normal ter orgasmos. É normal se divertir. É normal errar.

Eu li hoje no jornal que você tirou a sua vida. Que você pediu desculpas aos seus pais por não ser a filha perfeita. Ah, Julia. Eu queria ter falado com você. Você tinha apenas 17 anos. Eu queria te contar que ninguém é perfeita. Eu queria te falar que, com quase o dobro da sua idade, muitas vezes me sinto alguém de cinco anos esperando ganhar um doce após a consulta com o pediatra, por bom comportamento. E o doce por vezes vem, amada, e às vezes não. Criar expectativas é algo normal, é saudável, mas nunca devemos nos condenar ou condenar alguém por conta delas. Sabe, Julia, até hoje, em muitas situações, eu me vejo regredida, querendo colo. Querendo meu pai e minha mãe. Muitas vezes eles estão lá, outras não. Isso porque, Julia, leva um tempo para descobrir, mas nem os nossos pais são perfeitos. Antes de tudo eles são humanos. Antes de tudo, antes do seu vídeo, da vergonha que você passou, você é humana.

Leva um tempo para descobrir, Julia, mas algumas situações você vai ter que enfrentar sozinha, com a cabeça erguida, contando apenas com você. Ah, Julia, você não sabia disso. Ninguém contou para você.

Ninguém contou para você que quando temos 17 anos, somos tomados por essa urgência de viver. Tudo parece ser a primeira e a última vez. Tudo tem uma dimensão alargada, enorme. E assim é com o prazer e a dor. Pena que você não teve ninguém para te dar colo e falar que sim, tudo passa, e que sim, você deveria ter enfrentado a polêmica do seu vídeo com o peito aberto, pois somos responsáveis pelas consequências dos nossos atos.

Eu já tive 17 anos, Julia. Eu entendo você. Com 17 anos as coisas têm um peso que os adultos não conseguem lembrar. Eles preferem criticar, julgar e apontar os dedos, fazendo você se sentir mais culpada. Você não é culpada, menina. Você é jovem. Você tem todo o direito de errar. Todos nós temos, Julia. Adultos, crianças, adolescentes e idosos. Alguns esquecem disso e apontam os dedos, julgam, condenam. Você ainda precisava aprender a ignorar esses falsos pilares da nossa sociedade, Julia. Eu, aos 31 anos,ainda estou aprendendo.

Sabe, Julia, eu fiquei muito triste. Fiquei triste porque já tive 17 anos e como a memória ainda está fresca (porque me recuso a ficar acomodada como esses que te apontaram os dedos), sei como você se sentiu. Eu sei como você se sentiu traída por ter sua intimidade debatida por terceiros. Eu sei que você ficou com vergonha, sei que você ficou com medo.

Eu lamento o fato de você ter nascido num país moralista, no qual as pessoas são corretas quando todos estão olhando, no qual as pessoas escolhem uma religião por medo, no qual todos fazem o que você fez, minha jovem, mas sob as luzes, todos negam de pés juntos e ainda apontam os dedos.

Escuta, Julia, não há nada de errado em transar a dois, três, quatro, cinco, mil. Se é isso que te dá prazer, faça. Faça com segurança e aproveite o momento. Você não está roubando, matando, subornando nem outros tantos “andos” tão graves, e agora tão aceitos pela nossa sociedade. Não prendemos políticos que roubam o nosso país diariamente, mas massacramos você, amada, por ter uma vida sexual ativa. Massacramos você por conta de um vídeo. Que atire a primeira pedra quem nunca gravou um, quem nunca tirou uma foto erótica. Ah, Julia, muitos vão dizer, – eu nunca!. Não acredite, amada. Todo mundo é perfeito até que as luzes se apaguem e até que ninguém esteja olhando.

Sabe, Julia, o que mais lamento é que você tenha passado por esse mundo e tirado a sua vida para justamente matar o Outro, para tirar do seu peito e mente aqueles que te apontaram o dedo. Me desculpe a visão lacaniana sobre o suicídio, mas fica difícil pensar o contrário quando vejo suas fotos tão bonitas, cheias de vida, publicadas na matéria. Você com certeza não quis matar essa jovem enérgica. Você quis matar o Outro, o Grande Outro Fantasmagórico que aponta os dedos. E por ser jovem, fragilizada e com medo diante da vergonha, você tirou sua vida. Enquanto isso, o Grande Outro vai seguir impune.

Ah, Julia, você era tão jovem. Sua morte me partiu o coração. Sua morte me ensinou algo. Vou deixar bem claro para os meus filhos que não importa a opção sexual, se eles gravam vídeos ou não, se eles transam a três ou não, ou o que eles fazem entre quatro paredes -vou amá-los incondicionalmente. E se um dia eles tiverem a intimidade publicada, como aconteceu com você, eu vou dar a mão, o colo, o meu coração. Eu vou estar ao lado deles para que enfrentem de peito aberto e cabeça erguida.

Eu lamento por você não ter vivido o resto da sua juventude. Lamento por você não ter vivido mais, ousado mais, transado mais e gravado mais vídeos. Lamento você não ter vivido a sua sexualidade como gostaria. Lamento por todas essas mulheres e homens que debocham de você por conta de um vídeo, que fazem ironias em fotos, assim como aconteceu com a menina Fran.

Entenda, Julia, infelizmente as mulheres ainda precisam trabalhar muito para quebrar certos paradigmas. Vivemos num mundo no qual robôs fazem micro-cirurgias, no qual o homem pisa na Lua, coleta material de Marte, e no qual os homens ainda dividem as mulheres entre para comer e para casar. Num mundo no qual mulher não trepa, não fode, não transa a três, não fica de quatro nem pode curtir ver uma pornografia, um filminho, usar um brinquedinho. Reparou como escrevo, Julia? Tudo no diminutivo, para chocar menos. Viu como essa merda está gravada na gente como tatuagem? E olha que já aprontei todas e mais um pouco, Julia. Lamento do fundo do meu coração que você não possa viver os dias felizes e ousados dos seus anos de juventude.

Você nunca vai ler essa carta. Amanhã, muito provavelmente, você será notícia velha. Os moralistas que te chamaram de vadia provavelmente vão bater uma vendo seu vídeo. Meninas vão postar fotos no Insta debochando de você, assim como fizeram com a Fran.

Sabe o que eu mais lamento, Julia? Você abreviou sua vida por conta de homens e mulheres que gostariam de fazer o que você fez -ousar, trepar, viver- e justamente por isso, amada, te apontaram os dedos. Pena que você era muito jovem para entender isso. Eu nunca conheci você, Julia, mas lamento o seu suicídio porque sou mulher, porque assim como você, eu já quis agradar todos, já quis ser a filha perfeita, a namorada perfeita e sei o quanto isso consome a gente. Porque assim como você, eu já tive atração por homens, por mulheres, pelo amor. Porque assim como você, eu acho sexo algo legal, fonte de prazer, quase um dia de São Cosme e Damião -sem as calorias dos doces. Porque assim como você, eu tenho fotos, tenho vídeos, tenho brinquedos e curto uma pornografia. E não tenho o menor problema em assumir isso porque eu não sou hipócrita. E sei que isso tem um preço, como tudo.

Eu gostaria de ter conversado com você que todo ato tem uma consequência, mas que nada paga a liberdade e a felicidade de poder ser aquilo que se é.

Você era tão jovem.

 

Fernanda Couto-Rothgiesser  é uma dos Autores Convidados da Confeitaria.

Fernanda é psicóloga, nutricionista vegana, triatleta, ativista e mãe do Ulysses, da Uma e da Botinhas. Ela mora no Reino Unido e mantém um blog no qual dá dicas de saúde e compartilha receitas nutritivas e deliciosas.

 

– Nota da Confeitaria: Essa semana nós ouvimos, com pesar e indignação, a história de mais uma jovem que teve a intimidade exposta nas redes sociais, mas dessa vez o desfecho foi irreversível: ela tirou a própria vida. Julia Rebeca tinha apenas 17 anos e uma vida inteira pela frente, mas como tantas adolescentes pelo mundo (infelizmente temos ouvido cada vez mais relatos de casos parecidos), ela não suportou a dor de ter a confiança traída e o apedrejamento emocional que veio em seguida. Após anunciar a sua morte pelo Twitter, e de fazer um pedido público de perdão aos pais, Júlia cometeu suicídio.

Não fomos apenas nós que ficamos arrasados com o caso. A psicóloga Fernanda Couto-Rothgiesser escreveu um desabafo sensível ao se inteirar sobre o ocorrido, e porque acreditamos que a única coisa mais triste do que a morte de Júlia seria o silêncio perante o crime que a vitimou, nós pedimos licença para publica-lo aqui.

 

Imagem: Aleksandra Waliszewska.

 

Fernanda Couto-Rothgiesser
Autor(a) convidado(a) da Confeitaria convidado(a).