Autores convidados
Alice Félix
11 de novembro de 2014

Como sobrevivi a um pesadelo

Conheci Otávio* através de uma amiga. Não vou contar detalhes que são públicos, pois realmente tenho medo de ser identificada — apesar de ter certeza que algumas pessoas, até mesmo ele, vão reconhecer alguns fatos. A verdade é que até hoje eu tenho medo do que Otávio seria capaz. Medo de apanhar, medo de morrer, porque estatística eu já virei — passei anos com uma pessoa que me agredia tanto emocional quanto fisicamente.

Nos nossos primeiros meses juntos, eu já tinha alguns sinais de que aquilo não iria bem. Não sei dizer exatamente o porquê fiquei, namorei e fui morar junto com uma pessoa que entrou nos meus perfis de redes sociais e e-mails, encontrando mensagens antigas que eu mandei pra outras pessoas antes de conhecê-lo. Por muito tempo, fui atacada com xingamentos como vagabunda, fácil, piranha, “você dá pra todos seus amigos”. Chamada de traidora, pois tinha respondido com educação o convite de um ex ficante que havia me chamado pra sair na minha primeira semana com Otávio. Ele fez da minha vida um inferno.

Mesmo depois disso, fomos morar juntos. Eu não sei bem como isso aconteceu. No começo, apesar desses surtos, eu gostava dele. Mas ele claramente não estava interessado em me admirar. Dizia que as bandas que eu gostava eram ridículas, que os lugares que eu frequentava eram toscos. Otávio sempre foi assim: tudo o que ele acredita, gosta e faz é melhor do que o dos outros — e justamente por esse motivo meus amigos não o curtiram desde o começo.

Eu achava que ia melhorar, que ele ia aprender a gostar das coisas que eu gostava, assim como aos poucos eu aprendi a gostar de coisas que ele gostava. Mas, aos poucos, eu comecei a deixar meu estilo de lado e passei a me vestir como ele queria que eu me vestisse, ouvir o que ele queria que eu ouvisse, frequentar os lugares que ele queria que eu frequentasse.

No nosso primeiro natal juntos, Otávio pediu ajuda pra minha mãe para comprar uma aliança de compromisso. No dia do natal, quando foi me entregar, na frente da minha mãe, ele disse: “Eu acho isso aí uma besteira e nem queria usar a minha, mas toma”. Se havia algo de especial naquele presente, acabou ali e se tornou apenas o símbolo de uma relação violenta. Se minha mãe tinha alguma simpatia por ele, acabou ali também.

Meses depois, no fim de uma festa em que meninas estavam dando atenção pra ele, Otávio começou a me tratar muito mal na frente dos outros. Uma das meninas veio falar com ele e eu estava lá, ao lado, sem falar nada, olhando pra outras coisas — quando, de repente, ele me empurrou. Eu não entendi o motivo, mas começamos a brigar. Ele disse que queria que eu morresse, que eu era ridícula. “Ninguém nunca mais vai querer te comer”.

No dia seguinte, ele terminou comigo pelo chat do Facebook e foi viajar. Voltou segunda-feira como se nada tivesse acontecido.

Ele falava esse tipo de coisas sempre: “Se a gente terminar, ninguém vai querer ficar com você, mas eu vou ficar com outra no mesmo dia”. Era tão tóxico que eu realmente acreditava que se fosse embora, ficaria sozinha pra sempre. Isso criou uma dependência emocional — eu odiava a pessoa que ele era, mas acreditava que isso era o melhor que eu poderia ter, que era o que eu merecia.

Constantemente, ele me chamava de fraca. Quando eu chorava — fiquei em depressão enquanto estávamos juntos e não tive nenhum apoio, ouvindo até que ele não teria filhos comigo porque “isso aí passa de mãe pra filho”,  ele dizia que era por isso que nada dava certo na minha vida. Pois eu era fraca, infeliz e não chegaria a lugar algum.

Uma colega de trabalho me disse que o que ele fazia comigo era violência psicológica. Eu negava. Não queria ver. Essa colega se afastou, meus amigos foram se afastando aos poucos. Ninguém queria frequentar minha casa quando ele estava lá. Eu só tinha os amigos dele, que se revelaram meus “inimigos” e comentavam com outras pessoas que eu mentia sobre o que passava em casa. Eu parei de contar os abusos diários que sofria e aguentava calada, sozinha. No escuro.

Nós éramos um casal conhecido no meio do qual fazemos parte. Nas fotos publicadas por aí, parecíamos um casal feliz e apaixonado. Ele postava declarações, comentava minhas fotos com apelidos carinhosos, comemorava aniversário de namoro. Quando chegávamos em casa, era sempre um inferno. Ele não queria dormir comigo, falava que eu deveria passar o fim de semana na casa dos meus pais porque “casais fazem isso” e me agredia verbalmente todos os dias de alguma forma. Nós nunca ficamos um dia sem brigar. Nunca.

Um dia, em uma comemoração, ele deu em cima de uma menina abertamente. Eu fiquei chateada e discutimos. Fui pra casa e ele, no caminho, começou a fazer com que eu me sentisse culpada. Ao chegarmos, ele já gritava e mandava eu pegar minhas coisas e sair. Eu só queria me trancar no quarto e ficar sozinha. Ele empurrava a porta. Eu tinha medo. Tive certeza que ele ia me bater. Ele conseguiu abrir a porta e me segurou pelos braços. Depois, ligou pra minha mãe e disse pra ela ir me tirar de lá. Então, ligou pra polícia e falou que eles teriam que me tirar dali, que eu não queria sair da casa dele. O contrato estava no nome dos dois — ali também era minha casa, a maior parte dos móveis era minha — e mesmo assim ele chamou a polícia.

A polícia obviamente não fez nada, além de impedir que meu pai batesse em Otávio. E eu estava de volta três dias depois. Meus pais falaram pra eu nunca mais levá-lo em festas de família. Eu fiquei arrasada, pois a família sempre foi importante pra mim, mas ele dizia que não importava, porque nós éramos uma família. Ele conseguiu me tirar dos meus amigos, da minha música, do meu ambiente e dos meus pais. Me isolou do mundo.

Nos fins de semana, saía com os amigos do trabalho e chegava em casa bêbado de madrugada. Se eu saísse sem ele — normalmente porque ele não queria me acompanhar — ficava nervoso e não me cumprimentava quando eu chegava em casa.

Nós não fazíamos sexo. Comecei a anotar a frequência e quando falava que estávamos há meses sem transar, ele dizia que era mentira minha. Ele sempre apagava a luz e nunca olhava pra mim. Um dia, chegou em casa bêbado, me colocou na frente do espelho e disse que não transaria comigo pois eu estava gorda.

Eu sempre encontrava mensagens de outras garotas pra ele. Não tinha certeza se ele me traía ou gostava de ficar flertando e dando esperança. Eu pedia pra ele parar, e ele dizia que era tudo coisa da minha cabeça, que eu era louca e paranóica. Até que um dia eu estava doente e ele ficou em mais uma das festas do trabalho. Chegou às nove da manhã do dia seguinte após ter passado a noite com outra. Eu quebrei todos os espelhos da casa, agredi ele e fui embora. Ele só falou “eu achei que você ia ficar triste, mas não que ia embora”. Fui pra casa dos meus pais.

Doeu. Eu chorei. Uma semana. Duas. Mais pelo choque de realidade do que pela falta de uma pessoa que nunca me deu o menor valor. Até o dia em que eu parei de chorar. E aí também foi um inferno.

Um mês depois que terminamos, eu fiquei com um amigo, um cara que ele conhecia. E aí vieram as ameaças. “Vou ralar sua cara no asfalto” e “vocês dois merecem apanhar”. Eu salvei todas as mensagens, e-mails e conversas e levei na delegacia da mulher pra fazer um B.O. de ameaça.

Quando terminei com Otávio, eu precisei reaprender a viver. Os traumas pelas coisas que ele me fez ainda me afetam muito, tanto no meu novo relacionamento como na minha forma de me enxergar. Minha autoestima ainda é muito baixa, e eu tenho medo de falhar e ser um fracasso como ele me se esforçou em me fazer acreditar que eu era. Eu não me sinto bonita, mesmo que todos digam o contrário. Eu tenho medo de não ser ninguém. O ninguém que ele falava que eu era. E, acima de tudo, eu tenho um medo irracional de ser traída. Eu praticamente acredito que meu namorado pode a qualquer momento encontrar alguém, chegar pra mim e falar “ela é melhor do que você”, como eu ouvi daquela vez. Isso sempre pode acontecer, com qualquer relacionamento, mas meu medo faz com que eu sofra até mesmo em momentos em que meu namorado só está tentando provar que me ama.

Depois do término, eu cortei o cabelo, voltei a usar roupas que combinavam com meu estilo e fui morar sozinha. Trabalho, tenho autonomia, e por mais que eu ainda não tenha chegado onde quero chegar, vejo o quanto melhorei desde que fui embora naquele sábado de manhã. Eu precisei aprender a ter mais confiança, porque no fim eu era tudo que tinha.

Quando me disseram pra escrever esse texto, eu tive medo. Medo de ser reconhecida, agredida, ameaçada, de duvidarem de mim como duvidaram tantas vezes. Mas talvez exista aí do outro lado alguém na mesma situação que eu, presa numa relação abusiva achando que não tem pra onde ir.

Você tem pra onde ir, sim. Você pode. Respira fundo e vai. Vai dar trabalho, vai doer, vai ser incômodo. Mas que zona de conforto é essa em que você só se machuca? Se você está em uma relação desse tipo, procure ajuda. Peça para amigos, parentes, para a polícia. Procure um grupo de apoio. Ninguém pode te dizer se você é boa ou não, se merece ou não. Amor de verdade não é isso. Isso é maldade e doença. Eu nunca vou conseguir entender porque uma pessoa faz isso com outra, mas acontece. Aconteceu comigo.

A maior lição que aprendi no último ano é que quando a gente ama de verdade respeita e quer ver o outro feliz. E o primeiro amor que precisamos encontrar é o amor próprio.

 

 

* Alice Félix é uma dos Autores Convidados da Confeitaria.

Este nome é um pseudônimo, para proteger a identidade da autora, a seu pedido. Otávio também é um nome fictício, mas o depoimento de Alice, não. A autora o escreveu na tentativa de ajudar outras garotas a se libertarem de relações abusivas.

Imagem: still do filme Uma Linda Mulher, com Julia Roberts.

Alice Félix
Autor(a) convidado(a) da Confeitaria convidado(a).