Autores convidados, Literatura, Resenhas
Nara Vidal
15 de dezembro de 2015

Dias de Abandono

A mais bonita perda

A cada linha, Olga passava pelas minhas mais temidas possibilidades, desde a troca por um corpo mais novo, mais fresco, mais duro, até a resistência e dificuldade em provar um contorno diverso no seu próprio corpo já habituado ao familiar. A capacidade de abandonar os filhos dentro da própria humilhação e rancor insuportáveis que corroem qualquer contexto socialmente aceitável. A aceitação de ser possível viver uma tragédia diária dentro de um casamento.”

Quando terminei de ler o badalado Minha Amiga Genial, quis engatar com outra escrita da Elena Ferrante. Vou tratá-la aqui como se fosse uma mulher, já que minhas chances de acertar são boas.

Por ter vivido no sul da Itália, me atirei sem pudores na história das duas amigas, revivi meu próprio verão em Ischia e, claro, fui atingida em cheio pela qualidade e profundidade da escrita de Ferrante. A composição sem pressa, os detalhes e camadas que fizeram de Minha Amiga Genial um livro tão atraente, tão minucioso. Um livro que, mesmo complexo, me deu muito prazer. Mas essa prévia leitura não me preparava para o que viria. Alguns amigos me avisaram sobre a intensidade e possível desconforto em Dias de Abandono (ainda não publicado no Brasil), mas como eu cultivo um gosto pelo dramático e intenso, duvidei que a história de Olga tivesse, em mim, qualquer maior impacto ainda desconhecido.

Mas eu errei. Felizmente, eu errei. Não demorei dois parágrafos para me agarrar à leitura pesada desde o começo. Engraçado que enquanto leio livros, eles aparecem pra mim envoltos em sombras de cores. Dias de Abandono tinha cores roxas e marrons. Uma coisa doída que só. Mas não apenas. Nunca apenas, com Ferrante. A sua escrita, cheia de ângulos, nuances, superfícies, era nesse livro, como um exercício de natação. Você é atirado nas profundezas, se molha, perde o ar e retorna à superfície com alívio, mas desconforto. Apesar do estranhamento, precisa voltar à leitura, ao profundo.

Terminado o livro, vi imediatamente o filme. O único tom em comum com a obra original, na minha opinião, é a personalidade rasa e inútil de Mario. Engana-se quem puder, apressadamente, imaginar que a previsibilidade de Mario tenha a ver com qualquer limitação da autora enquanto criava seus personagens. Fazer de um homem desprezível e vaidoso um dos principais personagens de um livro demanda requinte e precisão que só uma escrita de mão firme e poderosa como uma Ferrante é capaz.

Desde o início da leitura, pretendo dizer para Olga que Mario não passa de um tolo, que não vale a pena. Sim, o pai dos filhos dela, mas um homem machista amparado pelas piores características da cultura latina.

Ferrante não prepara o leitor para a história de Olga. Ao contrário. A frase que abre o livro é exatamente a frase do “abandono”. Com uma memória feita por detalhes, Olga relata aquela tarde de abril, depois do almoço, enquanto ela limpava a mesa e as crianças brigavam e discutiam como de costume. A rotina usual, na qual nada parece suspeito. Naquela primeira página, a autora nos força a encarar a bela e delicada fragilidade do casamento, com suas fraturas e inúmeras imperfeições quando olhado de perto, com lupa, em detalhe.

Talvez o maior desconforto que o livro tenha me causado tenha sido sobre a relação de Olga com os filhos. Diante da partida de Mario, que ela percebe como “o abandono”, os filhos são capazes de emocionar o leitor com suas infinitas investidas de reavivar a mãe adormecida, anestesiada pela decisão que não dependeu dela. A ambiguidade no significado dos filhos é um triunfo na narrativa. Os filhos com o homem que Olga paulatinamente passa a desprezar são a presença do marido. Gritam a ausência, o vazio. Passam os mesmos filhos a ser, no fim, o reencontro, a conclusão e constatação da vida então modificada, para sempre, de Olga, com eles que apesar de serem de Mario, são dela também.

A turbulência de identidade da personagem principal reflete, em um espelho torto e disforme, a nossa feiura que se revela diante do tabu da maternidade. A constatação do pesar que podem ser os filhos em dias de transtorno.

Aparentemente escondido nesse emaranhado de derrota, desistência e dor, está o músico Carrano. O personagem, que cresce a partir da metade do livro e permanece forte, expõe as inseguranças de Olga. Com quase quarenta anos, habituada ao gosto e ao toque de um homem que virou família, casa, parente, Olga fez com que me contorcesse de inadequação ao bater na porta do músico com um vinho na mão e o pretexto de entregar a carteira de motorista perdida na entrada do prédio. Em completo desespero, a protagonista pede para ser vista, apreciada mesmo que por um estranho, que mora no andar de baixo e por quem nunca nutriu qualquer atenção ou atração. A falta de familiaridade com outros contornos, cheiros, texturas em Olga através de Carrano tornaria a passagem cômica se não escondesse tanta melancolia na angústia, urgência e desespero dos dois abandonados, em momentos e circunstâncias diferentes, mas que se encontram na precariedade de uma tentativa.

Ferrante explora a solidão de Olga através da insegurança com o próprio corpo, com a aparência. Como pode ser Elena Ferrante um homem se ela trata com o dedo na ferida de todas as inseguranças que eu também teria se fosse Olga? A cada linha, a personagem passava a ser minha mais temida possibilidade, desde a troca por um corpo mais novo, mais fresco, mais duro, até a resistência e dificuldade em provar um contorno diverso no seu próprio corpo já habituado ao familiar. A capacidade de abandonar os filhos dentro da própria humilhação e rancor insuportáveis que corroem qualquer contexto socialmente aceitável. O reconhecimento de que sim, é possível viver uma tragédia diária dentro de um casamento. Essa capacidade de negligenciar os filhos e não se importar são uma espécie de luto, de processo inevitável que lida com a rejeição das próprias crias que gritam o semblante do inimigo em cada osso.

Olga não está. Não responde. Não consegue. Vê e ainda não enxerga.

Em tempos que a palavra “empoderamento” salta de bocas e escritas de teor feminista, Ferrante, através de Olga, nos guia para esse tipo de final. Curiosamente, não percebo uma Olga apaixonada por Mario. Ao contrário, encontro uma mulher acostumada com os papéis do marido: matar insetos, falar sobre guerras com os filhos, consertar a fechadura quebrada, cuidar do cachorro. Na minha leitura, Dias de Abandono trata do sacrifício de um talento, no caso de Olga, o da escrita. De tornar-se invisível. Mas trata, com glória, da libertação da tragédia de se morrer a cada dia dentro do hábito.

E mesmo que Aldo Carrano não nos surpreenda, pois já sugere um papel de importância no decorrer da história, a desordem que ele significa me interessa. Olga precisa rejeitá-lo com repulsa, diminuí-lo ao ínfimo pela sua existência tão banal, tão constante, para enfim, reencontrar nele a admiração, a notabilidade que só a distância possibilita. Foi um encontro que começou pelo fim, mas que, exatamente por isso, trouxe Olga e Carrano de volta do lugar longe onde permaneceriam, não fosse todo esse “abandono”. Ele acostumado à sua própria companhia. Ela na sua solidão, apesar do marido, dos filhos.

Assim como em Ana Karenina, obra de Tosltói citada no livro, Dias de Abandono traz trechos de fluxo de consciência: a ideia de Mario e Carla juntos, as referências ao sexo que fazem despudoradamente, o uso de palavrões em dialeto e que foram arrancados de Olga para que cumprisse o papel de esposa, a rejeição à Poverella, todo esse fluxo é errático, vai, volta, transborda, se esvazia para depois explodir novamente. Há rupturas no pensamento. Há também monólogos internos, técnica que exemplifica esse processo de reconhecimento das dificuldades e das distrações. Essas características fazem de Dias de Abandono bastante realista.

É transferível, é pessoal, é de quem lê. O livro é uma mente em grito, em desordem, em constatação, em solidão. É a glória eventual e atrasada. Um corte profundo e de enorme beleza.

 

* Imagem: trecho da capa de Days of Abandonment, edição em inglês do livro (Europa Editions), originalmente publicado em italiano como I Giorni Dell’Abbandono em 2002.

Nara Vidal formou-se em letras pela UFRJ e é mestre em artes pela London met University. Há 14 anos vive na Europa. Autora de vários livros infantis, Nara lançou este ano seu primeiro adulto, Lugar Comum (editora Pasavento).