Autores convidados, Textos
Diana Assennato
02 de dezembro de 2015

Ilustração:
Alessandra Lemos

Essa tempestade é você

Algumas pessoas têm almas mais melancólicas do que outras. Eu sou uma delas e acho que já nasci assim. Lembro de sentir o primeiro “vazio” quando eu tinha oito anos de idade, durante um processo de mudança de escola. Dali em diante continuei lidando com essa coisa sem nome e sem forma. Não era tristeza, não era pena, dor. Era só um vazio. Uma janela aberta no inverno. Nunca foi muito constante, inclusive durante anos foi até esporádico, mas sempre voltava. E cada vez que voltava eu me sentia indefesa. Não tinha onde me esconder e não tinha por onde fugir. Não dava nem para explicar para alguém. Só esperar passar.

Continuei sentindo esses vazios esporadicamente por muitos anos, até que eles começaram a ficar mais frequentes e fortes. Começaram a me paralisar. Dizem que um dos sintomas mais claros da depressão é quando até os afazeres domésticos e pessoais básicos se tornam tarefas hercúleas. Em 2008, passei cinco dias seguidos sem tomar banho. Simplesmente não conseguia levantar do sofá, o que dirá sair de casa e ir trabalhar. Estava na hora de buscar ajuda.

Ao todo, de 2008 até hoje foram quatro psiquiatras e três terapeutas. Com todos eles aprendi um pouco mais sobre o meu cérebro e entendi que esses “vazios” são, na verdade, uma doença. Relutei muito para aceitar o tal diagnóstico: “depressão crônica bipolar”. Bipolar porque ela é cíclica, e funciona com altos estratosféricos e baixos profundos. Crônica porque não tem cura. Pronto, agora a medicina tinha uma gaveta para me guardar.

Sempre hesitei em tomar remédio porque acompanhei uma luta muito próxima dentro de casa e vi como era perigoso, difícil, mas eu não tive escolha. Cymbalta, Prolift, Carbolitium, Citalopram, Escitalopram, Lexapro, Melatonina, Lamotrogina… todos passaram pela minha farmacinha. A psiquiatria é um clube de alquimistas fanfarrões que ficam pingando uma gota aqui e outra ali na poção mágica de cada cérebro. Ninguém parece ter total certeza do que está fazendo e eu ainda acho os diagnósticos tão categóricos que viram fardos pra vida.

Tá ruim pra dormir? Toma um desse. Tá difícil acordar? 25mg desse outro. Cheguei a tomar três remédios ao mesmo tempo durante um bom período. O antidepressivo era para tirar o vazio, o modulador de humor para evitar os altos e baixos, o Litium para a concentração. Equalizei os picos, achei um caminho seguro e virei uma pessoa produtiva de novo, mas é óbvio que nessa configuração eu não era mais EU. Já não estava mais em controle do mesmo jeito que não estava durante as crises, com a diferença da dor que não existia mais. Por medo, mantive esse esquema por anos, até que comecei a achar o preço muito alto. Perdi a criatividade, os insights, a intimidade com os sentidos, a minha amada libido, as epifanias, minha conexão com o sagrado. Me sentia flutuando dentro de um colchão de ar com paredes de plumas. Nada poderia me machucar ali, nem o que eu quisesse.

Você alcança uma espécie de platô supostamente seguro, até perceber que o está construindo na verdade são raízes fracas num terreno super movediço. Ao longo dos anos os remédios vão perdendo efeito, as doses precisam aumentar e, conforme isso acontece, outros cantos do seu cérebro passam a entrar no piloto automático. Eu estava tão longe do meu cérebro “real” que tinha dificuldade de me conectar comigo mesma. Parecia que tinha feito uma grande faxina na casa e que todas os demônios tinham ido parar num porão cheio de aberrações trancado a sete chaves. Era só não voltar lá nunca mais. Só que tudo aquilo também era meu e não adiantava fingir que não.

De uns tempos pra cá, comecei a me perguntar como eu lidaria com X ou Y situações sem os remédios e tracei um plano de “desmame” (é feio, mas esse é o termo oficial). No dia em que eu tomei a decisão de parar de tomar, reli esse trecho de um dos meus autores preferidos, o Haruki Murakami, e me entendi naquelas palavras:

“Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. Essa tempestade é você. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o que resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito.”

Não tem sido exatamente fácil, mas 2015 foi o meu ano de atravessar essa tempestade metafísica e violenta a seco. Foram meses intensos: é claro que as crises voltaram, mas eu tenho tentado acolhê-las sem medo, do jeito que eu posso (com muita ajuda da Ciça, minha terapeuta, da Thais , minha educadora física, e do Paulo, meu porto seguro). Mas além das crises, outras coisas incríveis saíram do porão: os meus sentidos estão bem mais aguçados (os cheiros, como são mais intensos!), a minha mente consegue divagar, voltei a ter sonhos bizarros e lindos, desejos reais, insights e o foco das coisas mudou. Parece que as coisas, a cidade, as pessoas estão mais próximas de mim, da minha pele. Eu não lembrava mais como era tudo isso, como era pirar com uma brisa tocando o corpo, pensar em sacanagem na fila do banco (e rir sozinha) ou simplesmente chorar na TPM. Passei de um estado mental amortecido de oito anos para um estado mental hiper-sensível.

Não vou mentir: me sinto numa corda bamba e a instabilidade é sempre assustadora. Algumas crises pegam mais que outras, não tenho sido tão produtiva quanto antes e tenho vários dias de copo-meio-vazio, mas olha… essa sou eu. Durante anos me senti “quebrada”, mas hoje eu pelo menos consigo colar os caquinhos com as minhas próprias mãos e entender a importância do processo. Um baita reencontro comigo mesma.

Obrigada, medicina, mas welcome back, fucked up brain.

 

* Ilustração de Alessandra Lemos (Lole) para a Confeitaria

Diana Assennato é jornalista especializada em tecnologia, emprendedora em série e mestre em Mídias Digitais pela University of London. Trabalha há mais de 10 anos com comunicação em diferentes plataformas, mas foi na internet que descobriu sua paixão por usar a tecnologia para criar e contar boas histórias.