Autores convidados, Literatura, Resenhas
Juliana Gomes
28 de outubro de 2015

Frankenstein

Frankenstein foi o primeiro clássico da literatura de horror. Mas continua tão moderno quanto no inacreditável ano em que foi publicado: 1818! Numa época em que nem se cogitava da existência dos robôs, uma jovem inglesa chamada Mary Shelley escreveu esta fascinante história da criação de um ser artificial — e das apavorantes consequências para o homem que o construiu. De certa forma, Frankenstein foi também o primeiro livro de science fiction [sci fi]. Mary Shelley tinha 19 anos quando o escreveu e 21 quando o livro saiu. Seu personagem, o estudante de química e biologia Victor Frankestein, também tem 19 anos quando constrói em seu laboratório aquele horrendo ser, que, ao despertar para o mundo torna-se consciente de que é um monstro.” — Texto da orelha de Frankenstein, adaptação de Ruy Castro para a história de Mary Shelley.

Em 1815, Mary Shelley, então com 19 anos e ainda com o nome de solteira Mary Wollstonecraft Godwin, e seu noivo, o poeta Percy Bysshe Shelley, foram passar o verão à beira do Lago Léman com o escritor e amigo Lord Byron e o também escritor John Polidori. Confinados por vários dias em ambiente fechado por causa da erupção do Monte Tambora na Indonésia, passavam o tempo lendo uns para os outros historias de horror, principalmente histórias de fantasmas alemãs traduzidas para o francês. Lord Byron sugeriu uma brincadeira: que cada um escrevesse uma história de fantasmas. Byron escreveu um conto que usaria depois para concluir seu poema Mazzepa. Pollidori escreveria o romance O Vampiro — primeira história ocidental com o vampiro que depois inspiraria Bram Stoker a escrever Drácula. Shelley ficou dias sem produzir nada, até que teve uma visão sobre um estudante dando vida a uma criatura. Então ela seguiu para o romance, encorajada por Percy Shelley.

Em 1818, o livro teve sua primeira edição sem o nome da autora — possivelmente pelo teor do livro, e por ter sido escrito por uma mulher. Na segunda versão, seu nome já aparece, com agradecimentos a Percy e ao pai.

O romance tem três vozes. Robert Walton dá o tom da história através de cartas enviadas para sua irmã. Victor Frankenstein conta sua versão dos acontecimentos e como as dores e remorso o consomem por ter criado um “monstro” que provavelmente o levará à ruína. E a última versão — e a mais tocante — é da própria criatura.

As metáforas estão em todo livro, assim como as referências literárias — como na analogia ao Prometeu acorrentado que ela faz no subtítulo O Moderno Prometeu. E esse moderno Prometeu traça a destruição física e moral de Victor Frankstein com citações do Paraíso Perdido, de John Milton. A humanidade subestimando o poder da natureza através da ciência e da tecnologia é o estágio inicial da Revolução Industrial, outro tema marcante na obra.

A falta de empatia para com o diferente transforma a criatura em monstro. Ele não nasceu rancoroso como se mostra em seu discurso. Foram os humanos com sua violência, preconceito e mesquinharia que o fizeram odiar todos, principalmente o seu criador. A partir desse pressuposto, a criatura se torna o pior pesadelo de Victor e sua família. Praticamente um Inferno de Dante, ou melhor, um inferno de Victor.

No final você já não tem certeza de quem é humano e quem é criatura.

Filha do filósofo William Godwin — um dos percursores das teorias anarquistas — e da pedagoga e escritora Mary Wollstonecraft — que escreveu um dos livros mais importantes para o feminismo: A Vindication of Rights of Woman, no qual ela defende que as mulheres por natureza não são inferiores aos homens, Mary Shelley também foi precursora em um estilo que hoje é majoritariamente masculino (em termos de números de publicações que chegam às livrarias e à grande mídia), mas que foi criado por uma mulher brilhante, talentosa e visionária, em diversos sentidos.

– Nota: Frankestein foi o livro discutido em outubro pelo clube de leitura Leia Mulheres em São Paulo e Belo Horizonte.

– Nota 2: Juliana Gomes criou uma playlist em homenagem ao livro. Você pode escutá-la aqui.

Juliana Gomes é uma das idealizadoras do projeto Leia Mulheres no Brasil. Hoje trabalha como consultora de marketing e comercial para livrarias e editoras. Sonha em ser a velha dos gatos, morar na praia e passar os dias apenas lendo.