Autores convidados
Gabrielle Albiero
22 de março de 2015

Gabriel García Márquez e o beijo gay

A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Não sei, nunca soube sequer diferenciá-las. Para mim, literatura e vida andam tão juntas que, várias vezes, não sei se uma coisa de fato aconteceu ou se li em algum livro.

Não é pretensão intelectual, é incapacidade intelectual mesmo, dificuldade em distinguir. Mês passado, por exemplo, quase fui atropelada, passei o resto do dia me sentindo Macabéa. Também não sei dizer ao certo se aquela amiga do colegial, que traía o namorado, de fato se chamava Capitu, ou se foi mais uma de minhas confusões.

Analisando essa semana, eu poderia ter concluído: a diferença entre a vida e a literatura está só entre o feminino e o masculino de um substantivo. Acontece que toda vez que vejo a velhice mais próxima da vida do que da morte, logo, me vem O Amor nos Tempos do Cólera, o primeiro livro que li do Gabriel García Márquez. Talvez, por ler tão nova, seja o que eu menos tenha gostado do autor.

Lembro-me pouco de toda a história. Mas sei que foi nela que descobri que a vida não tem tempo para deixar de oferecer. Nem o amor, tempo para se esvair. Foi o mesmo que senti ao ver o beijo do casal homoafetivo interpretado por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, em Babilônia. Quando li que, no dia seguinte, quatro mulheres, entre 50 e 70 anos, entraram no cartório com pedidos de formalização da união com suas companheiras, confirmei não ser possível apontar diferença entre arte e vida.

Entretanto, no resto da semana o substantivo cólera deixou de ser masculino e passou a ser feminino, passando a significar sentimento de ira e raiva, ao invés da doença. Porque o que vi, depois do amor, foi o ódio de parlamentares, religiosos e conservadores. Ao comentar a cena da novela com pessoas próximas, a definição foi a de nojo. Demorei em entender que, sim, falávamos da mesma cena. “Nojo de amor?”, perguntei. “Não foi assim que Deus nos criou”, ouvi.

Não consegui responder. Tive pena de redescobrir que alguns tinham confusões piores que a minha.

Prefiro a minha confusão. Prefiro acreditar que a relação do sentimento ou da doença (se é que, no contexto, os dois se diferenciam) expressa o mesmo que no título do livro. Já que em O Amor nos Tempos do Cólera, García Márquez sabia, ao deixar o cólera vinculada ao tempo, que a doença seria exterminada com ele, deixada em segundo plano, e o livro terminaria falando só do amor. Prefiro acreditar que não há diferença e que o mesmo acontecerá na vida.

 

 

* Imagem: Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro em cena da novela Babilônia.

Gabrielle Albiero coleciona cores, dores e amores na retina da palavra. Se formou em delicadezas na faculdade da vida, e hoje faz mestrado em poesia como forma de resistência. Sonha com um doutorado em desaprender. É criança de nascença. Acompanhe seu blog aqui.