Autores convidados, Textos
Stephanie Borges
30 de novembro de 2015

Jessica Jones

Há heroísmo em se salvar?

 

Se alguém dissesse, meses atrás, que uma das coisas mais interessantes que veríamos em 2015 seria uma adaptação de história em quadrinhos cheia de metáforas sobre culpa, manipulação e abuso psicológico e sexual, você acreditaria? Se avisassem que você iria torcer por uma heroína bêbada, sarcástica e traumatizada, não soaria estranho? Depois de O Demolidor, parecia improvável que a Marvel e a Netflix pudessem acertar novamente, mas Jessica Jones veio para nos surpreender. Se você ainda não assistiu à série, continue a leitura sabendo que este texto tem spoilers.

O Demolidor explora as origens e motivações que levam um sujeito com poderes a se tornar um herói e como ele e seu maior inimigo podem ser os dois lados de uma mesma moeda. Em Jessica Jones, a protagonista tem uma relação conturbada com seus poderes e trabalha como investigadora particular. Ela se sente responsável pela morte de sua família e sua força extraordinária está relacionada ao acidente no qual perdeu seus pais e o irmão caçula. É sua melhor amiga Trish quem tenta convencê-la a fazer o bem, e a ideia de ajudar as pessoas surge como uma forma de expiação.

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Dois pontos que me chamaram a atenção nos primeiros episódios são o clima de paranóia e a construção dos personagens. No momento em que Jessica tem certeza de que Kilgrave, o mutante controlador de mentes que a manteve sob seu domínio por meses, está vivo, qualquer um pode estar sob as ordens dele. A desconfiança permanente é angustiante.

Várias resenhas já destacaram a protagonista cínica, bêbada e lutando contra o stress pós-traumático. A postura de Jessica me lembrou das críticas da escritora Roxane Gay ao que os americanos chamam de likability: a ideia de que uma mulher, para conquistar seu espaço no mundo, precisa ser querida, agradável.

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No artigo Not here to make friends, Gay questiona os motivos pelos quais personagens que não despertam a simpatia do leitor/espectador são considerados um empecilho para apreciar uma obra de ficção, e aponta que não estranhamos que personagens homens sejam desagradáveis, mas, quando se trata de mulheres, isso ainda causa incômodo.

De acordo com Gay, quando autores criam personagens conflituosos, sem o compromisso de agradar, a ficção ganha mais possibilidades, pois são figuras contraditórias capazes de qualquer coisa. O público ou a crítica tentam justificar os comportamentos menos aceitáveis, como forma de lidar melhor com falhas de caráter, e um exemplo disso é tentarmos compreender o alcoolismo de Jessica como uma das formas dela lidar com seus traumas. Mas se pararmos para pensar, embora torçamos por ela, não gostaríamos de ser como ela, nem de nos relacionarmos com alguém que aja da mesma maneira.

Os personagens são um ponto alto da série por serem cheios de nuances e contradições. A advogada Jeri Hogarth é ambiciosa, pragmática, mais interessada na vitória do que na justiça até que o caos se instale em sua vida. Wendy, a ex de Hogarth, é uma médica altruísta, capaz de destilar toda sua raiva ao ser trocada por uma mulher mais jovem. Hope, a moça que atira nos próprios pais, inspira compaixão, mas revela uma determinação feroz quando se descobre grávida de Kilgrave e decide interromper a gravidez a qualquer custo. Robyn, a vizinha de Jessica, é agressiva, implicante, mas ama seu irmão Ruben profundamente.

Podemos compreender essas mulheres e suas atitudes, mas é difícil gostar delas. Trish é quem desperta os melhores sentimentos. Cresceu com uma mãe abusiva, se tornou uma mulher independente, aprendeu a se defender e é uma boa amiga. Para mim, uma das melhores coisas foi ela não ter mergulhado num idílio romântico clichê com Simpson atrapalhando sua relação com Jessica. Os dois estão se divertindo, mas quando sua amiga está em perigo, a prioridade é ajudá-la.

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Observando o quanto os personagens se desenvolvem ao longo dos episódios, Luke Cage parece o mais simples. Talvez a intenção seja aprofundar sua história na série dedicada a ele, anunciada para 2016. Sabemos que Cage não se conforma com a morte de sua esposa e de sua química com Jessica, e só. Já Malcolm passa do vizinho viciado ao sujeito em busca de uma forma de ajudar os outros. Simpson surge como o policial kilgravizado, é aceito para ajudar a capturar o vilão – tenta assumir o controle do plano, mas não ganha espaço – e por causa de uma estupidez acaba perdendo a sanidade. Até mesmo Kilgrave é humanizado quando a origem de seus poderes é esclarecida. No entanto, logo percebemos que sua sensibilidade só funciona em causa própria. É um psicopata.

A série não caiu no erro de subaproveitar personagens, como é o caso da Viúva Negra na franquia Vingadores. A superespiã Natasha Romanoff é facilmente ofuscada pelas egotrips de Tony Stark, pelo idealismo do Capitão América ou pela fúria do Hulk. Em Vingadores – Era de Ultron é um desperdício vê-la tentando um romance com Bruce Banner. A velha história da mulher que tenta recuperar o homem problemático com o poder do amor, versão Marvel.

Jessica se une à Imperatriz Furiosa de Mad Max – Estrada da Fúria como uma heroína de ação complexa. As duas são capazes de aceitar ajuda, mas se mantém no comando. São fortes e ainda assim admitem suas fragilidades.

Torço para que a boa recepção do filme e da série pelo público abra espaço para vermos mais mulheres prontas para solucionar mistérios, entrar em brigas e participar de perseguições. É bom ver mulheres se salvando, salvando os homens e o dia, para variar.

A fraqueza de Jessica é o medo de perder o controle de sua vontade outra vez. Ela foi violada de várias maneiras. Sua habilidade – o que supostamente a torna especial – foi usada para matar. Seu senso de responsabilidade faz com que seu fardo se torne mais pesado conforme a trilha de corpos pelo caminho de Kilgrave aumenta. Enquanto Jessica se culpa demais, ele se dissocia completamente dos crimes.

É apenas a morte de Hope que libera Jessica para fazer o que ela acha necessário. O curioso é que Hope assume o controle de seu próprio destino em dois momentos trágicos: ao contratar uma surra para interromper sua gravidez e ao cometer suicídio, insistindo para que Jessica mate o vilão. A necessidade de fazer o que é certo parece impedir a investigadora de considerar o tamanho da culpa com a qual Hope teria de conviver por ter puxado o gatilho contra seus pais. Embora Jessica não fale sobre seus traumas “porque sempre haverá alguém com uma história pior do que a sua”, ela não consegue perceber que provar a inocência de Hope não seria o suficiente para lhe dar paz.

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Muito se escreveu sobre como o gaslighting foi retratado de forma explícita e o estupro foi bem contextualizado pelo roteiro. São revoltantes as cenas em que Kilgrave se faz de ofendido a cada vez que Jessica menciona a violência sexual. Ele busca justificativas como “mas você queria” diante da clareza dela sobre não haver consentimento. Não admite ter feito ela se ferir. Tenta desacreditá-la. Incapaz de manipular sua vítima, ele tenta dar outros significados aos acontecimentos. Ao ameaçar levar Trish com ele, Kilgrave se dirige a Jessica como se o mal estivesse na perspectiva dela, não em seus atos. É bom ver esse assunto chegar à cultura pop, provocando catarses e debates.

É irônico como no fim, Jeri faz uso da culpa para justificar o suposto suicídio de Kilgrave e livrar Jessica da prisão. Presente em toda a narrativa, a culpa arremata a história como a moral de uma fábula. Livre, Jessica continua recusando o rótulo de heroína, quando o status não é mais importante. Ela enfrentou seus piores medos, salvou algumas pessoas e resistiu. Talvez sua maior habilidade seja sobreviver, e isso não faz de ninguém super herói. Mas é um bom começo.

Stephanie Borges é uma carioca que veio para São Paulo seguindo seu coração. Uma leitora que não sossegou até trabalhar com livros. Beiras de praia e botecos de esquina são alguns de seus lugares preferidos no mundo.