Autores convidados, Literatura, Resenhas
Emanuela Siqueira
06 de agosto de 2015

Nossa Senhora D’Aqui

Ninguém de Lá entende muito bem como é Aqui. Mas a gente sim.

Nossa Senhora da Luz dos Pinhais foi o primeiro nome da cidade de Curitiba. Assim como em todos os cantos do Brasil, a capital do Paraná recebeu todo tipo de imigrante e migrante que com o passar dos mais de três séculos de existência, ajudaram a formar um lugar heterogêneo, mas com suas característica peculiares. Em Nossa Senhora D’Aqui (Editora Arte & Letra), novo romance da escritora paranaense Luci Collin, as imigrações de europeus no século XX para o sul do Brasil servem como cenário para que emerja a figura de Frau Homera Kortmann e uma série de divagações sobre pessoas e situações corriqueiras que circundam ao redor dela, muitas tão enraizadas em determinado imaginário cotidiano que quando ressaltadas dentro do literário ganham novos significados.

Luci Collin tem uma carreira literária sólida. Publicada desde 1984 — principalmente contos e poesia — esse é o seu segundo romance. Conhecida por ter um estilo peculiar, trabalhando com experimentalismos, referências e polifonia, pode ir da linguagem com jargões acadêmicos — ela é professora universitária e pós-doutoranda — até os limites do discurso popular, do palavreado das ruas, da TV e do cotidiano em geral. Ela está também em 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira (Editora Record) — primeira de duas antologias organizadas por Luiz Ruffato no começo dos anos 2000 — com o conto No Céu com Diamantes, que dá uma boa amostra do trabalho formal e interessante da escritora.

Nossa Senhora D’Aqui poderia ser o relato de algumas fotos amareladas em álbuns na casa de avós, monóculos coloridos com fotos de poses eternizadas, ou pode ser apenas uma brincadeira com as memórias do leitor. Luci Collin é uma ótima contadora de histórias, e para isso arquiteta um belo jogo para deixar o leitor atento. As referências são muitas, tanto para quem conhece as expressões peculiares da região quanto para quem cai de paraquedas na curiosidade da leitura. O livro é costurado como uma colcha de retalhos, onde cada pedaço de tecido é fundamental e nenhum é colocado de forma aleatória.

Homera Emma Ulrika Kortmann dos Santos. Nem tinha o Frau. A tia voltou arrumando o fecho éclair do slack e parou na frente da folhinha pra ver que dia é hoje. Nem tchum. Sangue esquecido, sangue desconsiderado.”

Apesar da Bula de Nossa Senhora D’Aqui ressaltar o significado do genearca — um substantivo masculino que define o progenitor — é a imigrante e matriarca alemã Homera que funciona como figura mitológica nas pequenas narrativas dentro do livro. Ora é Homera, ora são as filhas, os netos, os vizinhos, os conhecidos dessa mulher que tem algo a dizer. A Frau na verdade é silenciosa, são apenas lembranças, é apenas uma foto que alguém aponta dizendo “lembra dela? lembra aquela vez…” para que outra história se inicie e a Frau permaneça eternizada como dispositivo para que narrativa aconteça.

Quando estou aqui nesta cama pensando, quando estou tentando entender através de argumentos planejados com boa semântica boa, através de imagens coloridas e sem cor, quando estou tentando digerir os pontos que saltam, neste exato momento um clic.
E ali estão ao mesmo tempo todas as mãos que trabalham incessantemente, embora àqueles a quem pertencem doa sentirem-se zumbis e às vezes tolos e às vezes esmorecerem, mas nunca em definitivo. Isso é olhar fotografias.”

Luci arquiteta o livro de forma funcional mesmo que o leitor se sinta em vertigem conforme os acontecimentos se apresentam. Não há uma narrativa linear em Nossa Senhora D’Aqui, nem sempre os personagens estarão nas mesmas posições de observação ou será fácil compreender quem está vendo e narrando. Há inclusive uma brincadeira com a visão de uma mosca, que cobre uma grande área e pode estar em qualquer lugar. Quem nunca quis ser uma mosca? Nossa Senhora D’Aqui tem esse efeito de estimular o leitor a permanecer com os olhos atentos na leitura para ver mais de perto esse outro que só existe porque algo ou alguém está escrevendo sobre ele.

Focê non acha extránho aquela mólher?” “Cruzincrédo, deve ser bruxa!

Nesse romance a escritora usa dos elementos de hibridismo, polifonia e metalinguagem de forma diferente dos trabalhos anteriores. Se em outros trabalhos esses elementos dialogavam com referências externas como músicas e outras obras literárias, aqui ela brinca com uma memória afetiva de expressões e hábitos singulares da região em que cresceu e, como diz nessa entrevista, onde a sua família vive há quase três séculos.

Além dos elementos citados, há um tom tragicômico no uso de teorias narrativas e semióticas. Uma situação corriqueira e banal de um personagem é narrada e em seguida surgem metáforas das engrenagens que constituem a ficção. Assim, sem mais nem menos. Em determinado capítulo usa uma epígrafe de Jean-François Lyotard — importante filósofo do pós-moderno — e deixa escancarado para o leitor não esquecer que apesar da proximidade da realidade, isso continua sendo uma ficção, e o caro leitor, uma peça-chave para que ela funcione.

E esta hora tem a mesma luminosidade de todos os finais de tarde que passei aí ou aqui, que vivemos em outros países, os carros, luz baixa. O mesmo brilho de final de tarde e as pessoas com passo apertado querendo chegar logo e casa. Talvez aqui escureça mais cedo no inverno. Talvez as pessoas se levantem mais cedo, sintam mais frio, comam mais pão, andem mais de bicicleta, assistam a mais filmes de madrugada, fumem mais, respirem um ar mais poluído, tenham menos filhos, comam mais gordura saturada, bebam menos refrigerante, talvez façam sexo mais tarde, tomem mais chá pela manhã, beijem seus filhos, deem um telefonema para a mãe, para o chefe, contratem prostitutas, varram a calçada da frente mais cedo, freiem os carros, diminuam a velocidade ao se aproximarem da esquina, peçam uma vodca no bar mais cedo, planejem uma viagem à Patagônia à Penápolis à Putaqueoparil, planejem um novo penteado.”

Apesar do tema proposto, Nossa Senhora D’Aqui nem de longe tenta ser alguma espécie de romance histórico ou tenta limitar leitores familiarizados com expressões ou situações do sul do Brasil. O que poderia causar um certo afastamento acaba sendo uma deliciosa motivação para que a leitura continue. As pequenas peculiaridades do conjunto de pessoas narradas é aquele prazer de descoberta do outro, coisas que a literatura faz tão bem.

Assim como na pentalogia do Inferno Provisório — onde o escritor mineiro Luiz Ruffato tenta recontar a história dos imigrantes sem identidade no interior do estado — a Nossa Senhora D’Aqui de Luci Collin dialoga com a matéria de que somos formados, o tempo e a história, sem didatismos o grandes lições de feitos. As personagens que circulam no romance são banais e podem ser reconfiguradas como um vizinho qualquer, uma dona de mercearia, uma atendente de loja, um médico ou mesmo uma juíza de alto escalão. Todos são denunciados pela sua humanidade. Não há nenhuma novidade em seus comportamentos e justamente por isso eles dialogam tão bem com o leitor.

Aqui e Lá — assim mesmo, como substantivo — são sentidos importantes quando se vive numa cultura onde tudo veio de um lado do oceano Atlântico e se instalou aquu, muitas vezes parecendo que como sinônimo de impermanência. Um dos pontos mais profundos, em meio às tragicomédias do cotidiano dos personagens, é a noção de que se estar Aqui é diferente do que era a vida Lá e que dentro de um mesmo país ainda podemos nos sentir estrangeiros.

[Senhor/a coloquei entre colchetes mas não é segredo: Aqui no sul todos nós temos uma avó estrangeira alemã africana árabe polaca bugra japonesa pode ser espanhola ucraniana italiana russa portuguesa síria holandesa. Aqui no norte é assim e no meio do mapa é assim também e no nordeste para onde quer que esteja apontando aquele ponteirinho da bússola um de nós sempre poderá contar coisas desta avó estrangeira de fala enrolada e que mistura os verbos e cria adjetivos e tem olhos diferentes e tem pele distinta e um dia todas estas avós entraram num navio vindo de Longe vindo de Lá e isso explica nossa vontade de permanecer entre colchetes porque Aqui é aconchegante macio confortável colorido luminoso não importa se Lá fora poucos compreendam e olhem até meio torto. “Isto aí é uma bagunça uma confusão uma pouca vergonha uma epopeia falhada”:

Aqui a gente se entende e se sente em casa Aqui é o contrário de lonjuras de distanciamento de subdivisão Aqui a gente se sente muito bem. Perdão, senhor/a, mas não vou fechar esse colchete.

Aqui está ele:
]
e qualquer um que não saiba o que é nascer Aqui pode usar conforme as desinstruções.”

Mesmo que Nossa Senhora D’Aqui aparentemente pareça dialogar mais de perto com uma cultura de determinada região, o que, claro, causa conforto aos olhos de um leitor familiar, a sua beleza está na forma em que trata das memórias e de nossas culturas, no plural porque são muitas. Para qualquer lugar que formos dentro do nosso país encontraremos resquícios que nos conectam, que mostram que somos muitos e que nossas histórias são entrelaçadas por outras dos que Aqui já estavam e dos que de Lá vieram. Nossa Senhora D’Aqui nos lembra que vale a pena olhar para dentro e que nossas peculiaridades são ricos materiais para a ficção.

Emanuela Siqueira, letras por formação, multitasker por opção. Livreira e social media na Joaquim Livraria, tradutora e redatora nas horas vagas. Mantém o blog Bloco de Notas Aleatórias.