Autores convidados, Literatura, Resenhas
Michelle Henriques
23 de junho de 2015

O Encontro

“Há sempre um bêbado. Sempre alguém que foi molestado em criança. Sempre algum colossal sucesso, com diversas casas em vários países às quais ninguém nunca é convidado. Há uma irmã misteriosa. Isso tudo são só modas, claro, e, como modas, elas mudam. Porque nossas famílias contêm de tudo e, tarde da noite, tudo faz sentido.”

O Encontro, quarto livro da escritora irlandesa Anne Enright, foi vencedor do Man Booker Prize em 2007. O romance conta a história da família Hegarty através da perspectiva e da voz de Veronica, que retorna à casa de infância após a morte do irmão Liam: “A casa me conhece. Sempre menor do que deveria ser; as paredes ficam mais fechadas e mais complicadas que as da lembrança. O lugar é sempre pequeno demais.”

A autora narra a história intercalando passado e presente, de forma a apresentar alguns dos acontecimentos essenciais para que possamos melhor compreendê-la — e outros confusos, reconstruídos de maneira incompleta, equivocada ou imaginada.

Os Hegarty são uma família grande: uma mãe e 12 filhos que são cúmplices e, ao mesmo tempo, estranhos entre si. Há o irmão alcoólatra, a irmã quieta, os gêmeos mais novos. Durante anos, todos dividiram a mesma casa e agora estão reunidos pela morte de um deles — ainda assim, há um grande desconforto entre eles.

Às vezes, é necessário retomar o passado para explicar eventos do futuro ou contextualizar melhor o presente, mas, no caso de O Encontro, são páginas e mais páginas de fluxo de consciência, voltas que chegam à história dos avós da personagem principal: “Eu gostaria de registrar o que aconteceu na casa de minha avó no verão em que eu tinha oito ou nove anos, mas não tenho certeza se realmente aconteceu. Tenho de testemunhar um acontecimento incerto. Que eu sinto rugir dentro de mim, essa coisa que pode nem ter acontecido. Não sei nem que nome dar a isso. Acho que se pode chamar de crime da carne, mas a carne há muito se desfez e não sei bem qual mágoa pode restar nos ossos.”

Talvez minhas questões tenham mais relação com a edição brasileira da obra (ed. Alfaguara) do que propriamente com a trama ou com o estilo de Enright. Muito pode ter se perdido na tradução e há trechos, por exemplo, em que a escolha das palavras é de gosto duvidoso, mesmo revestidas de ironia, como “flor de carne” ou “sexo de anjinhos”.

Ao longo das 242 páginas, não consegui sentir uma conexão mais profunda com os Hegartys. Nem mesmo foi o caso daqueles que “amamos odiar” — um vilão ou alguém detestável, mas que desperta interesse e cumplicidade no leitor. Apesar dos elogios da crítica, O Encontro não despertou em mim a empatia necessária para que a história funcionasse

De outro lado, a jornalista Melissa Pantaliou, do blog Leitura Sabática, tem uma perspectiva diferente:

“Duas histórias coexistem na Dublin de tempo chuvoso. Veronica resgata lembranças da relação com seu irmão mais querido: as brincadeiras na casa sempre cheia de gente, as encrencas da adolescência e as primeiras mágoas. A tentativa de fuga do cotidiano acontece com voltas noturnas de carro, quase os únicos momentos de sossego que consegue. Ela aprende que nem sempre gostamos das pessoas que amamos, ou que temos que amar. Sua crise matrimonial e a falta de carinho pelas filhas deixam-na em um buraco de solidão que só poderá ser superado com o enfrentamento.

Paralelamente, memórias – algumas não vividas por ela, mas contadas entre os Hegartys – reconstroem o encontro de Ada Merriman, sua avó, com o futuro marido Charlie. O passado, já enterrado há muito, e o presente, dolorido e sufocante, estão ligados inevitavelmente. O casamento de Ada, a presença sempre constante do amigo do casal, Lambert Nugent, e as férias com os netos em Brodstone são chave para entender o desfecho de Liam.

As duas histórias, ambas permeadas por cenas frias e escuras, se juntam para explicar a tragédia de uma família já cheia de desgraças. A presença da morte e a perda das pessoas amadas vêm nos lembrar que as tarefas cotidianas não são tão importantes como imaginamos. Em certa medida, Veronica invejava o irmão. Liam conseguiu uma liberdade que ela não parece capaz de reclamar para si. A vida do jovem longe da família superpopulosa, entretanto, não foi sua salvação.

Os personagens são comuns, quase estereótipos, mas sem o serem de maneira alguma. Os sentimentos são compartilhados, as mágoas são banais. Enright nos propõe uma história sobre sentimentos sem cair no melodrama. Ao contrário, traz a tona o que pensamos, mas não temos coragem de pronunciar, uma realidade tão crua que chega a ser irônica. Sobretudo, O Encontro é uma história simples. Uma história provocadora sobre Veronica, Ada, ou sobre qualquer um de nós.”

 

– Nota da autora: Em 2014, a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), que consistia em incentivar a leitura de mais escritoras. O mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem a mesma visibilidade que os autores homens, por isso a importância desse movimento. Decidimos trazer essa ideia para a livraria Blooks e convidar a todos para nos acompanhar em leituras de obras escritas por mulheres, de clássicas a contemporâneas. O Encontro foi o quarto livro escolhido e o encontro acontecerá hoje em São Paulo, às 19:30h (Shopping Frei Caneca, 3º Piso).

Nota da Confeitaria: Recomendamos também a leitura da resenha publicada no New York Times em 2007, ano em que foi premiado com o Man Booker Prize, e do texto escrito pelo crítico literário Rafael Dixklay, no qual estabelece um interessante paralelo entre a protagonista de O Encontro — Veronica Hegarty — com a de outro romance escrito pela autora, A Valsa Esquecida — Gina Moynihan — publicado em 2011.

* Imagem: Anne Enright por Dominick Walsh

 

Michelle Henriques tem 28 anos e  é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é uma das mediadoras do clube de leitura#leiamulheres e uma das organizadoras do Projeto Bastardas.