Autores convidados, Literatura, Resenhas
Carol Almeida
06 de outubro de 2015

O outro lado do lado de lá

Vamos começar de onde falo, dessa primeira pessoa vestida de tantos pressupostos que não costumam ser evidenciados em textos críticos. Posto que, a rigor, quem escreve não tem absolutamente nada a ver com o recorte sobre o que se escreve. Mas a História tem muito mais a nos dizer.

Sendo assim, esclareçamos que eu sou uma mulher brancaclassemédia. São duas identidades em conflito no que diz respeito às questões de representação. Sendo mulher, sei que parto de um lugar onde não me vejo tão protagonista com a frequência com que vejo personagens masculinos na ficção. Sei também que tenho uma voz ainda muito achatada no espaço circunscrito da crítica cultural que, seja na literatura, no cinema, na música ou nas artes plásticas, é quase sempre construída por homens. Mas enquanto brancaclassemédia, posso afirmar que por aqui está tudo bem, zero conflito entre eu e esse mundo de representações hegemônicas. Os personagens que circulam pelos livros que leio entram e saem de elevadores muito parecidos com os que me cabem.

Portanto, ler Amada, de Toni Morrison e Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus é, para mim, um exercício vertiginoso de deslocamento e realocamento de identidade. Falo de duas escritoras negras. Toni Morrison, pasmem, não escreveu para mim, essa pessoa brancaclassemédia. E Carolina Maria de Jesus, de forma inconsciente, queria ser lida por gentebranca somente porque, naquele primeiro momento de uma escrita no fluxo de consciência da fome, era gentebranca no seu lugar de poder que legitimaria a sua fala. De forma que, seguir com a primeira pessoa aqui é tentar me colocar protagonista de uma história que não é minha, mas que tem muito a dizer sobre como o sistema nos molda, como o desconforto de uns representa com frequência a libertação de outros. Sobre o que então essas mulheres estão falando?

Sobre raiva. Não é rancor, algo que se somatiza ali dentro, que se tranca com os cadeados mais pesados. É raiva mesmo, pra fora, no exercício poético de transformar parágrafos em mísseis. Porque elas, sendo mulheres e negras, sentem nos ombros o peso da palavra guerra, não aquela que rende medalhas e patentes, mas a da consciência de possuírem peles que nasceram alvos. A trincheira não é um lugar distante de seus cotidianos, é experiência vivida e lembrada. Seria mais fácil e brancamente correto tecer comentários sobre tópicos como autorrepresentação, abolicionismo e feminismo presentes tanto em Amada quanto em Quarto de despejo. Mas falar de raiva gera um atrito que me parece, senão mais interessante, ao menos mais sincero.

Os dois livros falam de corpos que, após serem subjugados e escravizados, se erguem porque essa força vital da raiva os mantém vivos. Em Amada, publicado em 1987, é pelo corpo que entendemos a dor de Sethe, a mãe que num acesso de ódio por quem queria escravizar e machucar o corpo de seus filhos como fizeram com ela própria, termina por matar sua bebê de dois anos de idade. A dor de Amada, a filha morta, cuja materialização de seu corpo é a manifestação palpável dessa raiva indomada. A dor de Denver, a filha que sobreviveu e no reencontro com a irmã fantasma entende que o afeto em sua família será sempre mediado pela memória de cicatrizes, numa garganta cortada, em costas tatuadas pelo chicote ou, e aí sim a concretude do corpo feminino não poderia ser mais demarcada, no peito cujo leite foi forçadamente retirado em um estupro coletivo.

Toni Morrison vai e vem no tempo fragmentando tudo, deixando suas leitoras e leitores tão partidos quanto seus personagens, vários deles parecem mais vultos que passam pelas páginas. Capturamos o etéreo em torno deles, a essência daquilo que nunca é, de fato, mostrado. A escritora usa a voz de mulheres e homens para dar ritmo distintos à identidade tão particular de cada uma dessas pessoas. Há uma musicalidade em seu texto que, por si só, diz respeito a essa linguagem que gentebranca dificilmente conseguiria desenvolver (mérito também do tradutor José Rubens Siqueira, que imprime esse ritmo na versão em português do livro). Só uma voz negra tem poder sobre esse som que escutamos em Amada. E quando, já perto do fim do livro, é a própria Amada quem toma para si a primeira pessoa, o que se lê é algo que foge completamente às regras da gramática ocidental de sujeitos e objetos definidos. A tradição oral das culturas africanas transborda para fora das páginas e não se espantem se notarem que, neste momento da leitura, barulhos estranhos ranjam pela casa. Abrir esse livro e aceitar caminhar com ele até o fim é lidar com uma força imperiosa. E não falo aqui daquela coisa toda de bruxaria tão frequentemente usada para deslegitimar o lugar de fala da mulher na literatura. Falo de uma consciência da escrita que é, em Toni Morrison, divina, no sentido mais terreno da palavra.

Na outra ponta temos Quarto de despejo, de 1960. Um livro que, antes de ser publicado, foi várias vezes negado. Ao contrário de Toni Morrison, Carolina Maria de Jesus não teve acesso à educação superior, mal pôde, na verdade, frequentar a escola. Sua escrita é, dessa forma, a mais crua possível, com palavras que se escrevem como se falam. Seu relato da vida na favela é uma forma de sobrevivência. Carolina o faz para se manter de pé e, nesse exercício de expurgos em que a palavra mais recorrente atende pelo nome de fome, é ela quem pela primeira vez, na literatura brasileira, nos dá a perspectiva daquele “outro lado” do lado de lá. E no país do “homem cordial”, da tal “democracia racial”, ela também tem a falar sobre raiva. Uma raiva cotidiana de não ter dinheiro para comprar sapatos para a filha ou, pior, de não conseguir alimentar suas duas crianças. Tal como Sethe, de Amada, a sua primeira pessoa articula também a possibilidade de dar fim a tudo em um movimento kamikaze, mas se detém: “Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me, será que ele ficou de mal comigo?”

O nervosismo da escritora-personagem é uma constante no livro, assim como são recorrentes a ideia de que ela não precisa de homem nenhum ao seu lado (cria sozinha os filhos), de que os homens batem nas mulheres, de que políticos são dissimulados, de que ela vive numa sociedade urbana que tem a cidade, em seus mais diversos centros, como a sala de visitas e a favela como o objeto sem uso da casa, o quarto de despejo. E, claro, de que a fome a persegue todos os dias. A repetição dos temas acontece porque a raiva é um sentimento reincidente, mesmo quando vai embora ainda está dentro. Não deixa de ser um elemento que faz da leitura desse diário um objeto asfixiante, no qual não se vislumbram saídas, redenções. O Ano Novo vem chegando, promessas de recomeços, as datas que antecedem suas anotações sempre nos lembram do tempo que passa (e se repete). E nos primeiros dias de janeiro ela e seus filhos seguem famintos. A página vira, a fome segue.

Os corpos, suas dores, desejos e marcas, guiam tanto Toni Morrison quanto Carolina Maria de Jesus. Os dois livros em questão não poderiam ser tão diferentes e, simultaneamente, tão parecidos. Falam de mulheres, seus filhos e a dor que existe entre eles. E fazem isso de um ponto de vista que é estranho ao que se convencionou chamar de cultura ocidental, esse lugar onde, como diria um dos personagens cruéis de Amada, “as definições pertencem aos definidores – não aos definidos”. Atravessar e virar pelo avesso esse lugar de onde nos habituamos a observar o mundo vai nos desequilibrar. E não há melhor literatura que aquela que te faz cair.

 

Nota: Amada e Quarto de Despejo serão discutidos na edição especial do clube Leia Mulheres durante a Bienal de Recife, Pernambuco, no dia 8 de outubro (quinta-feira), às 17h, no Espaço Paulo Freire.

Uma das editoras do suplemento literário Pernambuco, se dedica também a escrever sobre cinema no blog Foradequadro. Fez mestrado em mídia ativista e tem como religião o feminismo.