Autores convidados
Maíra Thomé Marques
29 de abril de 2014

Ilustração:
Thiago Thomé

Os dissidentes

Tenho certo apreço pelos desistentes. Na verdade, tenho muito apreço por eles, mais do que os que ficam lutando pela vida, mais do que os que dizem que a vida é curta. Não acho. Acho a vida longa demais. Os que já desistiram, os que ficam perambulando por aí ou os que se embrulham no edredom, se assim os tem, são mais verdadeiros, não precisam forjar risos nem luta, não precisam dissimular força. Esses sabem que estamos todos condenados de uma forma ou de outra. Eles sabem que estarem aqui é obra do acaso e da imprecisão.

Ela veio me pedir que a deixasse em paz, mas quando eu digo que não, não deixo enquanto ela vier me procurar, ela chora e diz que sente muito medo. Eu digo que estou ali ao lado dela, mesmo que não acredite que isso mude alguma coisa. O que é alguém ao lado de um desistente senão um delírio trêmulo e passageiro? Sei que no momento em que ela ficar sozinha por um tempo, e isso fatalmente acontecerá, pois tenho que ir ao banheiro e alimentar meus pássaros, ela sentirá tudo da mesma forma e intensidade, a mesma tristeza e desespero como se eu nunca tivesse estado ali. Ela voltará a sentir, e talvez com mais força ainda, que não deveria ter nascido e que não deveria ter sobrevivido. E como dizer que ela está errada? Ela sente isso com o próprio corpo, o corpo definha, o corpo é esquelético, os ossos são como pinturas saltadas na pele alvíssima e os olhos ficam cada vez mais grandes que bonitos, mas ficam enormes no rosto que vai diminuindo, no rosto que vai virando um triangulinho feito de pele e osso. Às vezes, ela parece uma estampa da parede contra a qual está sentada. Parece um decalque mal feito e prestes a desaparecer.

Os desistentes merecem meu respeito: eles abriram os olhos ao nascerem. Só os que, avisados ou não, resistiram à tentação de abrir os olhos ao virem à luz é que conseguiram tocar a vida: chorar, balbuciar, pronunciar, andar, pegar, chutar, chorar, arrancar, destruir, penalizar, matar, morrer, acordar, babar, gozar, reproduzir, repetir, repetir e repetir. Esses são os que vivem seus sessenta, setenta, oitenta, quiçá cem anos e poucos. Esses são os feitos de pedra, os que não desistiram por sempre resistirem à tentação de abrir os olhos. Bravos guerreiros. Os que desistiram não, nunca guerrearam, perceberam que a guerra já era comprada, marcada, não quiseram se impor frente um espetáculo tão caracterizado. Não quiseram brigar briga de cachorro grande. Sabem que são pequeníssimos. Sabem que não tem cacife pra enfrentar o tamanho da vida.

Ela ainda volta. Eu me pergunto o porquê. Judiação, ela não consegue abrir mão do fio que a conduz. Terrível essa situação em que estamos presos à vida por pura humanidade, dessas que os desistentes carregam em si como um cancro. Eu digo a ela que vamos repensar passo a passo sua estreia na vida. Ela parece, por um instante, esboçar alegria. Que se esvai assim que ela me diz, e eu respondo doída que nada posso fazer, que sua melhor estreia seria sumir no mapa, seria se transformar em um pontinho no meio das mentiras dos mapas. O que fazer frente alguém que sentiria respeito por si mesma apenas se pudesse conceber sua desaparição? O que eu faço com minha vontade de me desintegrar por inteira? Se eu concordar com essa moça, terei que abrir mão do meio olho que ainda me resta fechado e sumir no mapa com ela.

Os desistentes têm várias formas: dia desses, cruzei com um deitado no frio da manhã da cidade grande sob o cobertor que a prefeitura distribui nos albergues. Achei estranho que ele não estava todo enrodilhado pelo cobertor. Devia estar completamente bêbado pra não sentir o frio enregelante. Estava tentando tirar uma folhinha caída de sua mãe árvore pela vicissitude do mês de outono. Achei surpreendente que deitado ao chão imundo e cuspido da cidade ele estivesse tentando limpar seu cobertor. Fazia um esforço hercúleo pra manter seu tronco levemente arqueado a fim de ter uma das mãos livres para fazer o serviço quando colheu meu olhar. Não titubeou e me enviou um bom dia, pousou a mão no coração e sabendo que tinha minha atenção por aqueles míseros segundos, me agradeceu. Abanei a mão quando o sinal abriu e eu tive que partir. Depois percebi que quem buscava um olhar era eu, fugida do mundo em que ainda não tive coragem de habitar junto dos desistentes. Ele soube que eu pertenço àquele mundo.

Ela sempre chega sorrindo. Pode ser um sorriso de extremo desalento, pode ser um sorriso algo de esperança. Judiação, ela acordou sem sonhos e imagina que pode viver assim, congelada no seu mundo de renúncia que ninguém do mundo dos vivos e saudáveis irá assombrá-la. Mas não resta muito tempo e os vivos a assombram. Os seres animados querem que ela viva, que ela seja feliz e tenha sucesso. Sua paz não durará muito tempo. Ela logo terá que voltar a brigar com sua natureza, que só quer dormir ao relento e chorar sem precisar limpar o nariz que escorre enquanto agoniza. Ela logo terá que dizer a essa parte que ela está errada, ela tem que usufruir da vida, ela tem que apreciar a vida. Que lástima. Como digo a ela que sou uma desistente disfarçada? Mando um ou outro sinal de que sou da mesma família que ela, todavia ela só entende que sou uma desistente curada: uma desistente que passou a amar a vida e seus bens, uma desistente que outrora carcomida pela doença da vida, agora luta com unhas e dentes por cada nesga de existência. Não. Não sou. Sou da mesma linhagem que ela. Eu abri os olhos antes de nascer. Nasci e olhei o que não devia.

Os desistentes costumam ter uma aparência distinta dos que correm soltos pela vida, dos que tem a vida inteira para viajar, amar, criar, transar, ganhar, perder, levantar. Eles podem ser fétidos, eles podem ser molambentos, eles podem não ter dentes, podem ter a cauda arrancada, mas também podem ser bonitos, uma beleza lânguida, uma beleza sangüínea, podem andar por aí entre os vivos e não chamarem a atenção de pronto. Salvo se alguém mais sensível se der conta de que há algo que cheira à madeira, ou à água. Sim, os desistentes cheiram à água. Meu nariz funciona involuntariamente. Ele fareja sem que eu o ordene, por isso acabo encontrando os desistentes. Aliás, ele é bastante desobediente, não pode ver algo, alguém, alguma coisa passar que já começa a funcionar: procura a pele perdida que me abandonou me deixando à mercê da vida. Acabei ficando só, sem a minha origem. Eu me perdi do meu tronco, mas o encontro quando cruzo os olhos com os renunciadores. Eu encontro minha perdição quando visito as ruínas e as ruas dos mortos. Lá está a minha casa.

Ela tem chegado e tenho tido a impressão de que posso acabar sucumbindo aos seus chamados. Talvez eu vá voar com meus pássaros, que desaparecem durante a noite e ressurgem feitos fênix nos primeiros raios do dia. Ela me diz que não serve pra nada. Sim, é verdade. Ela serve pra mais nada. Ela ficaria aqui ao meu lado ou ficaria deitada em um pátio cercada de abutres e dementes que nada mudaria sua condição. Ela só quer não precisar mais interpretar papel algum, só quer ter paz, só quer descansar, precisa descansar. É verdade. Ela está cansada demais. Judiação, não agüenta mais disfarçar que sua mente não lhe pertence e seu corpo está combalido. Quer fixar raízes no concreto da cidade, virar estátua ou poste pros cachorros fazerem xixi. Pra isso, ela pode servir. Eu ainda tento dizer que não, não pode ser verdade, se nascemos é pra vivermos. Mas minha voz sai trêmula, minha voz sai sem força. Limpo a garganta, como se esse fosse o caso, e tento refazer meu resgate: digo que a amo, que eu me importo com ela, que ela tente viver por mim. Que jogo baixo… Mas eu juro que a amo. Não quero deixá-la ir, seria um prova muito contundente de que a vida é nada.

Os meus desistentes são como bolhas no ar, aparecem e desaparecem para mim como personagens de um conto esquecido: são os pombos esmagados por carros das gentes saudáveis que não podem perder um segundo na vida, são os pássaros verdinhos que vêm buscar comida nas árvores e encontram os potinhos vazios pois sua ama ainda dorme, são os mendigos que batem à porta pedindo café só café, são as crianças que pedindo atenção são caladas pela indiferença, são os cães que apanham por não cumprirem a ordem dos seus donos, são as calçadas que recebem lixos de toda sorte espalhadas por seus corpos prostituídos e cansados, são os saquinhos plásticos que atropelados por sapatos e pneus poderiam abrigar algo, alguma coisa ou alguém vivos, são os gatos que têm os rabos cortados e as peles queimadas, são as mulheres violadas por terem um sexo preso no meio das pernas, são os loucos que não tem lugar pra ocupar em terra de semi-deuses, são as árvores que têm seus galhos amputados de forma grotesca pela mão humana, são os doentes que não conseguem se coçar, são os velhos que morrem por negligência, são as dores do jovem que não sabe pra onde ir, são o choro do homem que foi roubado, encurralado e desovado em um lugar qualquer longe da sua pátria, são o abandono que acompanham a mulher traída que acaba de perder seu bichinho de estimação, são a vontade do moço que tentou amar a mulher intolerante com seus desatinos e sucumbiu à realidade da solidão, são a comida dos restaurantes jogadas no lixo ao invés de alimentar quem morre de fome.

São todos eles eu, moram todos eles no meu corpo que queima de febre, na cabeça que lateja de dor, no estômago ferido por qualquer alimento, no coração que palpita, nos olhos que choram, nas mãos que tremem de ódio, na garganta que regurgita de desespero. Eu sou todos eles. Sou quem desistiu, mas por submissão ao fio da vida, ainda persiste. Mas vou perecer. E isso será um bálsamo para as feridas que nunca cicatrizam. Sinto, contudo, que nem o bálsamo sentirei, ocupada que estarei em agonizar as dores da partida.

 

Maíra Thomé Marques é uma dos Autores Convidados da Confeitaria.

Maíra aventura-se por essas bandas há 32 anos e, mesmo tendo por profissão a psicanálise e por paixão o ballet clássico, ama os pássaros, conversa com os cachorros e tenta se comunicar com os humanos.

Ilustração: Thiago Thomé (aka Liquidpig) para a Confeitaria.

Maíra Thomé Marques
Autor(a) convidado(a) da Confeitaria convidado(a).