Autores convidados, Textos
Gica Trierweiler Yabu
15 de Abril de 2015

Para fins de registro

Quando o telefone tocar, é melhor não atender. Deixa ele lá, vibrando, mostrando a minha foto erguendo um drink meramente ilustrativo num fim de tarde em algum destino sugerido pela CVC. Não me atenda, não. Vai ser melhor assim. Prefiro ouvir a mulher que mora na sua caixa postal e desistir suspirando a falar com você. Mentira, prefiro falar com você, mas a gente sabe que seria melhor se eu não falasse com você. Se eu não ligasse. E que, se eu ligasse, seria melhor que você não atendesse. Porque a gente sabe bem pra onde vai essa chamada. É mais uma pedrinha naquela estrada dos tijolos amarelos que, na verdade, dá lá onde não dá. Mas não: eu vou ligar e você vai atender porque é disso que a gente é feito. De um tempo-espaço que se aproveita desses intervalinhos da vida real, nos quais você não é casado há doze anos e pai de três, onde também não sou recém-divorciada, dona de um cachorro pragmático. Me deixa vibrar sozinha embaixo do seu travesseiro porque talvez assim a gente pare de achar que tudo bem. Tudo bem isso de eu falar que vou ao banco na hora do almoço e você anunciar em alto e bom som que os investidores chamaram uma reunião emergencial. Tudo bem isso de a gente se encontrar no menos cinco e eu entrar no seu carro e a gente rir como se fosse duas crianças prestes a serem esquecidas numa loja de brinquedos. Sempre quis ser esquecida numa loja de brinquedos, mas nunca fui. Sempre quis ser esquecida dentro de uma história bonita de amor, mas essa, veja bem, essa eu sequer encontrei. A gente se esbarrou num dia em que a sua mulher não quis transar com você pela quadragésima oitava vez consecutiva e eu não sabia mais se queria continuar existindo. Veja, o nosso enrosco é na sombra. Entre a saída da academia e a chegada no trabalho. Depois da reunião e antes do relatório. É intelectual intercourse, como a Alanis Morissette cantou uma vez. Intellectual intercourse e sexo desesperado. Intenso, exagerado, catártico. Eu acho que te amo e acho que você me ama também, mas acho que é o mesmo amor que um haitiano sentiria por uma promessa de refúgio no Brasil. A gente tem essa relação mútua de resgate, esse salvamento recíproco que eventualmente acaba em duas pessoas sem roupa e suadas, enumerando orgasmos e falando sobre como a sociedade contemporânea está fadada ao fracasso. Deixa esse telefone tocar e deixa a vontade de me ligar passar. Deixa tudo pra lá porque talvez eu tenha mentido pra você. Talvez eu tenha, bem ali entre você tirando minha roupa com urgência e algum olhar desses seus, talvez eu tenha deixado minha cabeça ir um pouco mais longe do que a gente combinou que podia. Talvez eu tenha imaginado como seria se — e o que vem depois dessa condicional são todas aquelas coisas que a gente combinou que não, que não, que não.

Então me ajuda e deixa esse telefone tocar.

 

 

* Imagem: colagem de Eli Craven.

Gica Yabu é inspiração no gerúndio, pra dentro e pra fora e pessoa disposta a mudar por uma boa causa. Acompanhe mais textos da autora aqui.