Autores convidados, Literatura, Resenhas
Michelle Henriques
24 de julho de 2015

Por Lugares Incríveis

Antes de morrer, Cesare Pavese, crente no Grande Manifesto, escreveu: Não nos lembramos de dias, nos lembramos de momentos.”

Meu vício por leitura começou quando eu tinha 11 anos. Naquela época, não havia o que hoje chamamos de literatura Young Adult (YA). Havia a literatura infantojuvenil e a adulta. Nessa idade, eu já me sentia pronta para a literatura adulta e gostava bastante de Agatha Christie, Sidney Sheldon e Stephen King.

Após alguns anos, fui apresentada ao YA e não me animei muito. Até que surgiu a oportunidade de fazer um encontro do clube #leiamulheres em parceria com a Capitolina, revista voltada para garotas adolescentes. O livro sugerido foi Por Lugares Incríveis, romance da escritora norte-americana Jennifer Niven. Com ele, tive a chance de rever meus preconceitos.

Theodore Finch é o típico garoto excêntrico do colegial — aquele que chama a atenção de todos, mas não é bem-vindo. Em meio a uma crise, ele decide subir na torre do sino da escola e pensa em pular. Eis que ele nota a presença de Violet Markey, uma das garotas populares do colégio, ao seu lado.

Depois de uma conversa, Finch consegue dissuadi-la de pular e eles descem juntos da torre. Ao chegar no térreo, há uma inversão de papeis: Finch convence a todos que foi Violet que o salvou. Após essa mentira, um trabalho de geografia para explorar diversos locais de Indiana — os tais lugares incríveis do título — é a desculpa perfeita para que Finch se aproxime de Violet. Assim começa a relação entre os dois.

Cada dia um escolhe um lugar, mas também devemos estar dispostos a ir aonde a estrada nos levar, o que inclui lugares grandiosos, pequenos, bizarros, poéticos, bonitos, feios, surpreendentes. Como a vida. Porém, absolutamente, incondicionalmente e decididamente nenhum lugar comum.”

Tudo soa clichê até então, mas do meio do livro em diante a história ganha novo fôlego. O relacionamento entre os dois personagens se desenvolve melhor e conhecemos um pouco mais sobre cada um deles: Finch tem um pai violento; a irmã mais velha de Violet morreu em um acidente de carro em que ambas estavam. Cada um carrega sua dor, e um acaba ajudando o outro a lidar com seus traumas.

O livro é narrado alternando o ponto de vista dos dois personagens — e repleto de referências literárias, como Cesare Pavese e Virginia Woolf. Violet costumava manter uma revista online junto com a irmã, mas desde que a perdeu, nunca mais escreveu nada. Finch tenta convencê-la a retomar; escrever fazia bem para Violet e ele queria ajudá-la nesse processo de luto e culpa. Apesar de sua obsessão com a morte, é Finch quem ajuda a trazer Violet de volta para a vida.

A família de Finch parece não se importar com os sinais que ele dá, ao longo do enredo, de que não está bem — como por exemplo seus apagões. As pessoas ao seu redor apenas concluem: “Ele é assim mesmo”. Talvez mais atenção e esclarecimento poderiam ter evitado a grande tragédia do livro.

Jennifer Niven aborda assuntos difíceis, que raramente são conversados de maneira aberta entre os jovens — como depressão, transtorno bipolar e suicídio. Ainda há muito preconceito sobre esses temas e o livro procura desmistificá-los. A autora até mesmo traz uma importante nota ao final com uma lista de sites que podem ajudar adolescentes a lidar com essas questões.

Foi anunciado que o livro vai se transformar em filme homônimo — All the Bright Places, no original. Segundo o Internet Movie Database (IMDb), a direção será de Miguel Arteta e Elle Fanning vai interpretar Violet. Ainda não sabemos quem será Finch nas telas.

Por Lugares Incríveis é um livro sensível e bem escrito. Trata de assuntos pesados, mas a leveza da escrita torna a leitura muito acessível. Espero encontrar mais livros tão bons quanto esse dentro do gênero.

Não preciso me preocupar com o fato de Finch e eu não termos filmado nossas andanças. Tudo bem não termos recolhido lembranças nem tido tempo de organizar tudo de um jeito que fizesse sentido pra outra pessoa. O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa.

 

– Nota: Em 2014, a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), que consistia em incentivar a leitura de mais escritoras. O mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem a mesma visibilidade que os autores homens, por isso a importância desse movimento. Decidimos trazer essa ideia para a livraria Blooks e convidar a todos para nos acompanhar em leituras de obras escritas por mulheres, de clássicas a contemporâneas. Por Lugares Incríveis é o livro escolhido para o próximo encontro, que acontecerá dia 28/07, às 19:30h, em São Paulo (Shopping Frei Caneca, 3º Piso).

* Imagem: Jennifer Niven

Michelle Henriques tem 28 anos e  é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é uma das mediadoras do clube de leitura#leiamulheres e uma das organizadoras do Projeto Bastardas.