Autores convidados, Literatura, Resenhas
Maria Clara Drummond
27 de abril de 2015

Primeiro Amor

Não deve ser difícil encontrar na internet, de graça, a versão original do conto Primeiro Amor, que inaugurou a série de textos que Samuel Beckett escreveu em francês (e traduzido por ele próprio para a língua inglesa). Mas, mesmo para os mais resistentes a traduções, vale conhecer a obra através da bela edição da Cosac Naify, com tradução e desenhos de Célia Euvaldo. Com páginas dobradas e costuradas, o texto é comprimido apenas nos números pares, seguido da expressiva ilustração da artista plástica (que muito me lembrou as telas em preto e branco de Amilcar de Castro). Essa concepção gráfica foi fundamental para meu deslumbre com o livro.

Quem é familiarizado com a obra do autor não vai se enganar com o título bonitinho. O conto é narrado por um protagonista misantropo que se apaixona por uma prostituta chamada Lulu, posteriormente rebatizada por ele mesmo como Anne. Ele a conhece pouco depois da morte de seu pai, quando, errante e sem teto, começa a passar as noites dormindo num banco de rua. Ao longo da narrativa, não faltam referências e comparações escatológicas, mui românticas como nos trechos abaixo:

“Foi naquele estábulo, cheio de bostas secas e ocas, que sucumbiam com um suspiro ao serem beliscadas, que pela primeira vez na minha vida, eu diria com prazer a última se tivesse morfina à mão, tive que me defender de um sentimento que se arrogava pouco a pouco, em meu espírito glacial, o horrendo nome de amor”.

(…)

“Que tipo de amor era, exatamente? O amor-paixão? Não creio. Pois o amor-paixão é priápico, não é? Ou será que estou confundindo com outra variedade? Há tantos, não é? Cada um mais bonito que o outro, não é? O amor-platônico, por exemplo, eis um outro que acaba de me ocorrer. É desinteressado. Será que eu a amava com um amor platônico? Difícil de acreditar. Teria eu escrito seu nome em bostas velhas de vaca se a tivesse amado com um amor desinteressado? E com meu dedo, ainda por cima, que eu chupava em seguida? Vejamos, vejamos. Eu pensava em Lulu e, se isso não é tudo, é o suficiente na minha opinião”.

Existem textos demais disponíveis no mundo. Sobretudo, existem muitos textos sobre amor. Por isso, esse deslocamento do discurso amoroso, a partir dessas referências grotescas, é bem-vinda. Ademais, apesar da escatologia, o resultado não é vulgar. O melodrama romântico que vemos diariamente na internet, repleto de frases que se propõem impactantes, esvazia o que deveria ser repleto de sentido e, em seguida, anestesia o leitor. O texto de amor parece estar comumente associado à vontade de “escrever bonito” e “ser literário”. Por mais que tenha sido escrito em 1945*, o efeito que Primeiro Amor tem nos dias atuais é justamente acordar dessa anestesia. Talvez tenha sido por isso que o impacto dessas palavras me tenha sido tão catártico.

Todavia, apesar da linguagem peculiar — e protagonista idem — o resultado permanece universal, como uma boa obra de arte deveria ser. O problema que atormenta o personagem é que seu amor por Lulu ou Anne é mais forte durante sua ausência. Mas não seria esta uma questão presente, ou até fundamental, em todo amor-romântico? Na presença, a realidade se sobrepõe ao sentimento, como se não desse para viver e sentir ao mesmo tempo.

“Eu não me sentia bem ao lado dela, mas pelo menos me sentia livre para pensar em outra coisa que não ela, e isso já era enorme, nas velhas coisas experimentadas, uma depois da outra, e assim pouco a pouco em nada, como que descendo gradualmente em águas profundas. Eu sabia que, abandonando-a, perderia essa liberdade.”

Todas as coisas sobre as quais nós conversamos, ou escrevemos a respeito, podem ser resumidas em apenas dois temas: o amor e a morte. Tudo se deriva a partir daí. Sempre quando aquela pessoa fala “eu te amo” de uma forma diferente soa como se fosse a primeira vez. Ao terminar o livro, ou melhor, ao ler a estupenda última frase do livro, que, sim, nos atravessa como uma faca como se fosse a primeira vez que lemos tais sentimentalidades, percebemos que mesmo desse jeito torto beckettiano trata-se, sim, de uma história de amor, de um primeiro amor.

 

*Embora escrito nesta data, Primeiro Amor só foi publicado em 1970.

** Imagem: Cosac Naify

Maria Clara Drummond é jornalista e escritora. Seu primeiro livro, A festa é minha e eu choro se eu quiser, foi publicado pela editora Guarda Chuva, e o segundo, A realidade devia ser proibida, tem previsão de sair no primeiro semestre de 2015 pela Companhia das Letras.