Autores convidados, Textos
Mariana Reis
11 de abril de 2013

Receita para comer o homem amado

No meio das batatas, seu número brota no celular. Palhaçada é essa?! Depois de meses de silêncio chega você, batatas escolhidas para sopa, vida organizada em saquinhos transparentes? Deve esquecer o contrato, firmado sem assinatura, de nuncamais mensagem, deusmelivre boa noite, nemnosonho telefonemas de madrugada gritando saudade.

Mas, ai, espera! Fui eu que liguei, dias antes, para dizer que não conseguia dormir. Que não me saíam da cabeça as três pintinhas do seu ombro esquerdo. Não, você não atendeu. É que era carnaval, eu estava longe de casa, a TV não havia mais e preparei aquela abobrinha que você tanto gosta. Para variar, me perdi na conta, fiz um bocado, sobrou lembrar demais você na geladeira. Mentira, ia só dizer que me ofereceram um trabalho novo e demais, que, sim, a vida vai melhorando. É, você tinha razão, eu devia confiar.

Claro, a casa nova é muito mais legal que a antiga e no condomínio tem um coreto e, quando chove, o parquinho vira uma piscina engraçada. Risinhos. Sim, quem sabe você aparece um dia? Mas, não, talvez chore da saudade que vivo daquelas três pintinhas do seu ombro esquerdo.

Ali, de volta à minha segunda-feira de sopa, dou um nó no saco das batatas e apanho duas cenouras. Disco o número que já não existe na agenda e ensaio o ar displicente, cuspindo o tom de “estou aqui ótima, não vê como escolho bem minhas cenouras?”. A voz do outro lado responde, com sarcasmo animado, que não retornou a ligação do carnaval ocupado que estava com uma de suas novas companhias. Sim, muitas, renovadas companhias. Muitas, tantas, louras e ruivas e morenas e todas. Todas novas. Muito ocupado, risinhos, bastante trabalho que elas dão. Risinhos.

Cebola, mandioquinha e chuchu caem com fúria nos sacos transparentes. Dou os nós. Abobrinha, maldita. Nós? Você fala do movimento da sua vida, a casa velha, o trabalho novo, a antiga cama. Risinhos, elas não o deixam em paz, não, não sabe o que acontece. Deve ter sido eu, você diz, devo ter mudado algo nele. Sim, todas olham para ele agora. Ah, muitos amigos estão se casando – bando de malucos. Risinhosrisinhosrisinhos.

Os legumes sofrem rodopiando no carrinho de compras.

– Você bem que poderia me apresentar uma amiga, cuspiu a voz escrota do outro lado da linha.

Acabaram as palavras, o celular desiste do embate. O silêncio do corpo que se arrasta agora no supermercado não matou a fome de sopa. Em casa, a cebola vira minúsculos cubos dourados em azeite e acolhem, ansiosos, cubos agora maiores e tenros de batata, cenoura, mandioquinha, chuchu. É, não me lembrem, de abobrinha também. Agora sal e pimenta do reino, só mais um pouquinho de sal e de pimenta e água borbulhando para abraçar tudo. A tigela fumegante, a fatia grossa de pão italiano, um fio de azeite para perfumar o caldo pronto. No livro que faz companhia à mesa, a página 84 grita o versinho de Ivana Arruda Leite. Diz assim:

Receita para comer o homem amado

Pegue o homem que a maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois, pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro-verde. Quando o refogado exalar o odor daqueles que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.

Estômago cheio, risinhos na cozinha.
Não troco alquimia de sopa de segunda-feira por coisa alguma.

 

 

Maiana Reis é uma dos Autores Convidados da Confeitaria.

Bio: Mari gosta de assar bolos e de contar histórias. Seu blog deve desenrolar em 2013 – o mesmo ano que ela pretende aprender a andar de bicicleta.

Ilustração de Camilla Nuca.

Mariana Reis
Autor(a) convidado(a) da Confeitaria convidado(a).