Autores convidados, Textos
Luiz Durante
25 de outubro de 2012

Redemunho

Quando alguém me conta um sonho, eu vou completando mentalmente. O estranho é que a pessoa sempre vai pelo caminho que estou pensando. É quase como quem mexe os lábios enquanto ouve o que falamos, quando é possível antecipar o que está por vir. Mas eu, não. Eu só completo mentalmente. Ou será que, além disso, também mexo a boca sem perceber? [AFLIÇÃO]

A questão é que venho sonhando com um casebre antigo, velho e sujo, e sempre tenho que procurar uma chave. O casebre é escuro e não acho a chave. Sinto o mau cheiro, sim, sei que é sonho, mas sinto o cheiro! Não, minha casa não é suja, não, não tive um grande trauma de infância, não, nunca sonhei com a minha mãe em trajes ínfimos. Don’t ask, don’t tell.

Agora, no sonho de ontem, apareceu um velho numa cadeira de balanço, com 3 passarinhos no ombro esquerdo. Um bem maior que os outros. Claro que o velho não sou eu. Eu sei porque não tinha a mínima ideia do que o cara pensava. Então, ele se vira para mim, como se nada fosse e, com um tom solene, diz: você nunca morou aqui!

Foi um alívio, mas, ao mesmo tempo, um desaforo. Mesmo sendo um casebre sujo, na hora, não gostei do tom que ele usou. Na hora ou… posso ter construído isso depois.

Eu também sonho com chuveiro. Não, não é um pesadelo como Psicose [cala a boca, mãe].

Eu lembro cada detalhe dos meus sonhos que, se pudesse retransmitir em imagens, seria um filme cult.

Mas acho que devo voltar para o sonho do chuveiro… era o do chuveiro que eu tava contando, não era? Ah, era o sonho do casebre. Porque sonhar com esse mesmo casebre por 3 dias seguidos me faz começar a pensar que pode realmente significar algo.

[PAUSA DRAMÁTICA]

Engraçado eu me lembrar disso, mas na casa da minha avó tinha uns assovios à noite e ela dizia que era o Corpo Seco que vinha puxar nosso pé. Ela dizia que o tal Corpo Seco era tão bruto que tinha arrancado a perna do Saci. No sítio, então, qualquer “redemunho” era o diabo. Sorte que minha avó só lia Monteiro Lobato, Guimarães Rosa ou Cora Coralina, e não assistia à Sexta Feira 13, Jogos Mortais ou Avenida Brasil, porque daí, sim, minha infância teria sido complicada.

Agora, acabo de me dar conta de que uma vez perdi a chave do carro no sítio da minha avó… bem no chiqueiro… Sítio Três Pardais… CASEBRE, CHIQUEIRO, CHAVE, PASSARINHO…

Ah, não quero mais falar por hoje, doutor, tava mais feliz quando nada fazia sentido junguiano, como a política, como as eleições, como a sua mãe… Não, doutor, não estou falando da sua mãe, é meme da internet! Não, não quero mamar na sua mãe, calma doutor… Como assim, calar a boca? Quem é que pode falar aqui?

Esses analistas só sabem fazer drama.

 

Luiz Durante é um dos Autores Convidados da Confeitaria.

Bio: Luiz não leva aforismo pra casa. Redator publicitário e especialista em semiótica psicanalítica, samba com as palavras até virarem cinzas. Neurótico Allenico e fã de Guimarães Rosa.

Foto do projeto Saci Urbano.

Luiz Durante
Autor(a) convidado(a) da Confeitaria convidado(a).