Autores convidados, Literatura, Resenhas
Michelle Henriques
17 de abril de 2015

Reze pelas mulheres roubadas

“Se você não falasse sobre uma coisa, então ela nunca tinha acontecido. Alguém com certeza iria escrever uma canção a respeito. Tudo o que você não pode saber, nem falar a respeito, acaba virando uma canção.”

No dia 9 de março de 2015, foi sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff a lei do feminicídio. Dessa forma, providências mais rigorosas serão tomadas em casos de violência contra a mulher. A misoginia caracteriza um desprezo à mulher e o feminicídio significa violência física (pela lei, homicídio qualificado: quando crime for praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino). Há diversos casos de mulheres que foram assassinadas, que sofreram abusos e torturas em razão do gênero. Claramente, esse é um grande avanço para a nossa sociedade, mas pode-se dizer que demorou muito tempo para acontecer e milhares de mulheres foram mortas pelo simples fato de serem mulheres.

E quanto ao resto do mundo? Quando o assunto é violência contra a mulher, impossível não lembrar da Ciudad Juárez, localizada no estado de Chihuahua, ao norte do México. A Rede Mesa de Mujeres aponta que, entre 1987 e 2012, 915 mulheres foram assassinadas. O grande problema é a impunidade: poucos homens são devidamente acusados de seus crimes e, dessa forma, o medo é crescente e as mulheres se calam diante de tanta violência.

A cultura machista contribui para esse tipo de violência. Desde muito tempo, delimitam-se papéis para a mulher: mãe e esposa, beata ou puta. Não há meio termo; uma mulher que saia desses padrões é considerada errada e por vezes merecedora de castigos. Há uma longa estrada a ser seguida para que esses papéis não sejam tidos como únicos.

A escritora Jennifer Clement, nascida em 1960 em Connecticut, nos Estados Unidos, mudou-se junto com a família no ano seguinte para a Cidade do México. Durante dez anos ela entrevistou mulheres de diversas cidades do México e colheu informações a respeito da violência sofrida, principalmente decorrente do narcotráfico que toma conta do país.

O resultado desse trabalho foi o livro Prayers for the Stolen publicado em fevereiro de 2014, pela Hogarth. No Brasil, ele chegou com o nome de Reze pelas Mulheres Roubadas, através da Editora Rocco. Apesar de ter sido baseado em fatos reais, na extensa pesquisa de Clement, este é um livro de ficção, uma coleção de histórias que foram ficcionalizadas.

“Meu nome é Ladydi Garcia Martínez e tenho pele morena, olhos castanhos, cabelo castanho e crespo e pareço com todo mundo que conheço. Quando eu era pequena, minha mãe me vestia de menino e me chamava de Menino.” Assim somos apresentados à narradora do livro.

Ladydi é uma jovem moradora do vilarejo de Guerrero, um dos mais perigosos do México. Guerrero é um local pequeno e desolado, habitado praticamente apenas por mulheres. O lugar é escondido em meio à floresta; muitas vezes elas ficam sem aulas, pois não há professor que vá até lá. O chão da maioria das casas é de terra, dominado por formigas, aranhas e escorpiões. O calor é insuportável e as moscas rodeiam suas peles. Em meio a isso, encontramos as mulheres batalhando por sobrevivência, esperando por homens que talvez não voltem, mas com orgulho e amor pelo seu país.

Guerrero é dominado pelo narcotráfico e as meninas sofrem perigo constante de sequestro, então a forma de proteção encontrada pelas mães é enfeiar as filhas. Elas cortam os cabelos de suas meninas, passam graxa em seus dentes e as vestem como se fossem meninos. Outro modo de proteção é cavar buracos para que elas possam se esconder. Há apenas um menino no vilarejo, Mike, que logo se juntará também ao narcotráfico — talvez a única possibilidade de vida para um menino nascido lá.

Nenhum homem permanece em Guerrero, todos procuram emprego em Acapulco ou tentam atravessar a fronteira para os Estados Unidos. Esse é outro problema muito grave que até hoje não encontrou solução. Clement nos conta um pouco da vida desses homens em subempregos e daqueles que morrem tentando chegar ao país, enquanto suas mulheres e filhas permanecem no vilarejo, esperando por notícias.

Apesar de ser uma história difícil, Clement não possui uma escrita pesada. Ela é direta, mas bastante carregada de poesia e de uma leveza por certas vezes cômica. Parte dessa leveza se dá pela escolha da narradora, Ladydi, que vive com sua mãe alcoólatra e viciada em documentários do History Channel. Sua visão de mundo é muito restrita, sua convivência se dá apenas com as mulheres de Guerrero, com suas histórias de homens traidores e instinto de sobrevivência.

O destaque do livro com certeza é a força das personagens femininas. Ladydi nos conta um pouco da vida de cada uma delas, desde Maria que nasceu com lábio leporino, e por isso já era considerada feia, então não corria perigo, passando por Paula, que era “mais bonita que a Jennifer Lopez”, e principalmente sua mãe. Há também Ruth, “um bebê do lixo”, que foi encontrada em meio a restos de comida e trabalha em um salão de beleza. A principal reclamação de Ruth é que as mulheres só vão até lá para ficarem feias, quando seu grande desejo era poder embelezá-las. Em determinado momento, Maria recebe atendimento médico e passará pela cirurgia para reconstrução de seu lábio; enquanto isso, as mulheres esperam no salão de Ruth, pintam as unhas e passam um tempo cuidado delas mesmas, mas ao terem que voltar para suas vidas, é necessário se enfeiarem novamente. Esse foi um momento de utopia em meio à dura realidade.

As coisas mudam drasticamente em Guerrero depois que Paula é sequestrada e algum tempo depois volta para casa, totalmente catatônica e sem falar muito sobre o que ocorreu. Após esse acontecimento (e outros tantos que tomam conta do dia a dia do vilarejo), Ladydi vai trabalhar em Acapulco como babá de uma família bastante rica.

As mulheres de Guerrero nada mais são do que objetos para servir aos homens, serem suas escravas, empregadas e submissas. Paula é a personagem que representa esse descaso e pouca importância com relação à mulher. Aqui também podemos fazer um contraponto à cultura do estupro. No romance, nada é feito para impedir que os homens estuprem e maltratem as mulheres. São elas que precisam se defender. A necessidade do velho clichê se faz real: “Não ensine a mulher a se defender e sim ao homem a não estuprar”.

O livro é bastante cruel, pois não possui final feliz, não dá esperanças ao leitor. Mas até que ponto podemos considerará-lo pessimista quando é tão próximo da realidade das mulheres de Juárez, por exemplo? Esse é um dos pontos mais interessantes da literatura: através de uma obra de ficção podemos repensar situações de nossa realidade, como a violência contra a mulher, um problema que se arrasta há anos.

Há também um contraponto com a realidade atual. Enquanto vemos mulheres buscando padrões irreais de beleza, em Guerrero elas lutam contra isso, pela sua própria sobrevivência. Ladydi nos conta que o único momento em que elas quiseram se arrumar foi quando o Professor José Rosa chegou ao vilarejo. Ademais, isso estava fora de cogitação.

Reze pelas Mulheres Roubadas é um livro sobre mulheres. Ele trata de uma realidade dura, para qual as pessoas costumam fechar os olhos, mas também é sobre cumplicidade, sobre cuidar uma da outra. Em uma entrevista, Jennifer Clement disse que a literatura tinha o poder de mudar o mundo. E sim, ela tem. Ao lermos notícias tristes de outros lugares/situações, podemos até nos comover, mas há um certo distanciamento. Porém, ao lermos uma obra de ficção em que a violência contra a mulher é retratada com a habilidade de Clement na escrita, podemos conhecer outras realidades de maneira mais próxima, repensar o que sabemos e propor discussões.

Clement expõe essa triste realidade de forma poética, mostrando a importância da união entre todas essas mulheres. Mais uma vez, fica clara a importância do feminismo e da luta por direitos iguais. Apesar da aprovação da lei do feminicídio no Brasil, ainda há muito que ser feito. Não podemos fechar os olhos para a violência que acontece em lugares mais pobres e distantes, e não podemos tratar esses crimes de forma generalizada. A mulher ainda está em posição de pouco privilégio e é necessária uma atenção exclusiva para seus problemas.

– Nota da autora: em 2014, a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), que consistia em incentivar a leitura de mais escritoras. O mercado editorial ainda é muito restrito e as mulheres não possuem a mesma visibilidade que os autores homens, por isso a importância desse movimento. Decidimos trazer essa ideia para a livraria Blooks e convidar a todos para nos acompanhar em leituras de obras escritas por mulheres, de clássicas a contemporâneas. Reze pelas Mulheres Roubadas foi o segundo livro escolhido para este clube de leitura e o encontro acontecerá em São Paulo no dia 22 de abril (Shopping Frei Caneca, 3º Piso).

 

* Imagem: trecho da ilustração da capa do livro, edição americana.

Michelle Henriques tem 28 anos e  é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é uma das mediadoras do clube de leitura#leiamulheres e uma das organizadoras do Projeto Bastardas.