Autores convidados, Literatura, Resenhas
Gabrielle Albiero
20 de fevereiro de 2015

Um teto todo seu

Quando eu era pequena, bem antes de saber ler, tinha um fascínio por qualquer livro que me aparecesse na frente. Ficava olhando para ele e imaginando a história que me seria dada se eu soubesse decodificá-lo. Andando por entre as estantes da biblioteca da minha cidade, entre ácaros e páginas velhas, constatei: não deve existir coisa mais bonita que poder ler. Mas quando fui capaz de fazê-lo, mudei de ideia, e passei a acreditar que não existe coisa mais bonita que poder escrever.

Mas o que é preciso para escrever? O que é preciso para uma mulher fazer literatura? Virginia Woolf responde: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. A frase está em Um teto todo seu — o livro é um ensaio baseado em artigos lidos por Virginia em palestras para duas faculdades, em outubro de 1928.

Decerto, a resposta não se reduz a um dinheiro mensal e ao conforto de quatro paredes. A literatura é resultado de “muitos anos de pensamento comum, de pensamento coletivo”, e Virginia faz parte de uma época em que as mulheres casadas tinham acabado de possuir o direito de serem proprietárias do dinheiro que ganhavam e controlarem seus bens. Assim, toda a falta de contato com o mundo imposta à mulher e toda subordinação ao homem para conseguir tal independência financeira estariam presentes em sua literatura.

Analisando obras, Virginia aponta momentos em que uma autora imita a escrita de um homem, deixando de lado a busca por uma narrativa feita por uma mulher, ou em que não descreve um personagem, mas o preenche com as suas próprias frustrações. O momento, por exemplo, em que Jane Eyre sobe ao telhado e fita os campos, pensando nas coisas que ansiava, e quantos a culpariam por isso.

E analisando as vidas das grandes escritoras, ressalta as dificuldades de tal ofício para uma mulher – o fato de que Jane Austen não queria que ninguém fora do seu circular familiar suspeitasse de suas ocupações literárias, por exemplo. “Orgulho e Preconceito teria sido um romance melhor se Jane Austen não achasse necessário esconder seu manuscrito das visitas?”

Afinal, uma escritora deveria enfrentar algo mais forte do que a indiferença com que os escritores homens deveriam lidar, ela deveria lidar com a hostilidade de um mundo que iria contra ela.

O mundo não dizia a ela, como a eles: “Escreva se quiser, não faz diferença pra mim”. O mundo dizia, gargalhando: “Escrever? O que há de bom na sua escrita?”

Um mundo em que a mulher servia de espelho para refletir a imagem de um homem com o dobro do tamanho natural. Em que o homem insistia na inferioridade da mulher como forma de afirmar a sua própria superioridade. Se Shakespeare tivesse uma irmã com o mesmo talento, com certeza ela não teria o mesmo sucesso, e acabaria se suicidando.

(…) é que qualquer mulher que tenha nascido com um grande talento no século XVI certamente teria enlouquecido, atirado em si mesma, ou terminado seus dias em um chalé nos arredores da vila, meio bruxa, meio feiticeira, temida e escarnecida. Não é preciso ter grandes habilidades em psicologia para afirmar que qualquer garota muito talentosa que tenha tentado usar seu dom para poesia teria sido tão impedida e inibida por outras pessoas, tão torturada e feita em pedaços por seus próprios instintos contrários, que deve ter perdido a saúde e a sanidade, com certeza.

De forma genial, todas as reflexões científicas de Virginia Woolf carregam também a sua narração literária. O mais brilhante, para mim, é o momento em que ela narra a visão de uma menina e um rapaz entrando juntos dentro de um táxi, e parece apontar a definição de anima e animus do Carl Jung (com a qual, provavelmente, ela não teve contato). Ela nomeia de “esquema da alma” essa teoria em que, de forma simplista, existe um aspecto feminino na mente de um homem, e um aspecto masculino na mente de uma mulher. E assim, se o aspecto feminino sofria repressões no meio literário, isso seria visível também nas obras escritas por homens, ou seja, em toda a literatura.

Retorno de novo às lembranças na biblioteca da minha cidade. Eu não sabia, quando criança, que não caminhava só por entre histórias, mas por palavras que eram também formas de resistência — uma flor nascida no asfalto. O cenário que eu admirava acabaria também refletindo no cenário pelo qual eu ansiava.

Quando analisa a literatura de Mary Carmichal, Virginia diz que se derem a ela um teto todo seu e quinhentas libras por ano, ela seria uma poetisa de grande talento, dentro de cem anos. Cem anos — somos nós, agora. Eu não sabia, na época da biblioteca, que ao contemplá-la eu também era parte dela. E mais de quinze anos depois, volto a concluir: não existe coisa mais bonita que poder escrever.

Mas acredito que essa poeta que nunca escreveu uma linha e foi enterrada no cruzamento ainda está viva. Ela está viva em você e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça ou colocando os filhos na cama. Mas ela está viva, pois os grandes poetas nunca morrem; são presenças duradouras, precisam apenas de uma oportunidade para andar entre nós em carne e osso. (…) se encararmos o fato, porque é um fato, de que não há em quem se apoiar, e de que seguimos sozinhas, e nossa relação é com o mundo da realidade e não só com o mundo de homens e mulheres, então a oportunidade surgirá, e a poeta morta que era a irmã de Shakespeare encarnará no corpo que tantas vezes ela sacrificou. Extraindo sua vida da vida das desconhecidas que foram suas antepassadas, como seu irmão fez antes dela, ela nascerá. Quanto à sua vinda sem essa preparação, sem esse esforço de nossa parte, sem a certeza de que, quando ela renascer, poderá viver e escrever sua poesia, isso não podemos esperar, porque seria impossível. Mas insisto que ela virá, se trabalharmos por ela, e que esse trabalho, seja na pobreza, seja na obscuridade, vale a pena.

 

* Imagem: Tracey Long.

Gabrielle Albiero coleciona cores, dores e amores na retina da palavra. Se formou em delicadezas na faculdade da vida, e hoje faz mestrado em poesia como forma de resistência. Sonha com um doutorado em desaprender. É criança de nascença. Acompanhe seu blog aqui.