Autores convidados, Textos
Carolina Delgado
13 de maio de 2015

Uma quase carta de amor

(Pra ler ouvindo esta playlist, porque não se escreve uma quase carta sem uma quase trilha sonora.)

Se eu te escrevesse uma carta de amor, contaria que às vezes acontece assim. Sem que ninguém, além do senhor do acaso, saiba o segredo do pote no fim do arco-íris. E olha, meu bem, te digo: nessas horas, se o coração acelerou, a saudade apertou e os sorrisos aumentaram, não faz a curva. Guarda as certezas na gaveta e deixa 1+1 ser igual ao que a gente quiser que seja.

Se eu te escrevesse uma carta de amor, afirmaria: “vem”. Que eu esqueço a comida no forno, chego sempre atrasada, não deixo você ir embora, compro o nescau errado, janto sorvete, mas não solto a mão em qualquer trovoada.

Se eu te escrevesse uma carta de amor, te diria que acho mesmo um desperdício deixar isso pela metade. Porque a gente não esbarra todo dia com a vontade de ficar. Não se brinca com a sorte, baby. Ela pode se zangar e tirar esse brilho no olhar que a gente ganhou quando decidiu pagar o que nem tinha, só pra ver aonde essa estrada ia dar.

Se eu te escrevesse uma carta de amor, gritaria que não quero ir embora e bem que você podia me deixar entrar no teu baile. Porque quando me abraças, eu flutuo. E sabes bem o quanto eu preciso de alguém que me lembre que posso voar. Porque nossos signos são opostos, mas nossas gargalhadas se entendem.

Se eu te escrevesse uma carta de amor, confessaria que esse meu gosto forte de maresia e alecrim ao som do batidão sempre chega na frente, mas trago lavanda e cafuné no bolso para os dias que o tempo fecha. Aí dentro ou lá fora.

Antes de qualquer coisa, se eu te escrevesse uma carta de amor, seria pra te contar que o travesseiro do lado é teu, se quiseres. Mesmo que você só chegue depois que a chuva passar.

Mas eu não te escrevi uma carta de amor. E você não me pediu pra ficar.

 

* Imagem: Marja de Sanctis

Antropóloga de formação, curiosa de natureza. Mãe do Rakim. Garotacariocasuinguesanguebom. No samba me criei e o hip hop sempre salva minha vida. Fotografo pra acertar meu foco. Invento arte pra adoçar a vida. Tudoaomesmotempoagora no Say It Loud e no Coletivo Xícara.