Textos

09 de novembro de 2012

Arlette

Quando ficou viúva, ainda nova e com a menina pequena, Arlette teve certeza de que precisava partir de Limousin, embora nunca antes tivesse saído da campagne onde nasceu.

Outrora, já desejara ir-se para Paris, terminar os estudos, quem sabe viajar o mundo. As leituras revelavam-lhe áfricas, arábias e indochinas e enchiam-lhe o peito de amor pelos lugares e pelas gentes que ela não conhecia. Seus sonhos, porém, como a mãe lhe dizia, não eram apropriados a quem viera ao mundo mulher, pobre e camponesa.

Os sonhos se apagaram aos poucos e Arlette tinha para si que eles eram agora velas inteiramente queimadas, pavios consumidos que comporiam para sempre a escuridão noturna daqueles campos que ela provavelmente não deixaria jamais.

Eram campos imensos, que empurravam o horizonte sempre mais além. Arlette admitia para si que eram campos belos, duvidava mesmo ser possível encontrar outros tão lindos alhures. E sabia que, em nenhum outro lugar, poderia sentir-se em casa. Mas aquela imensidão servia-lhe de cárcere e, em sua própria casa, Arlette vivia presa à grilhões.

A perda do esposo causou-lhe dor, mas a dor despertou-lhe de uma espécie de sono. Os sonhos, que cria mortos, brilharam dentro de si. Os sonhos eram, na verdade, lâmpadas que se reacendiam a golpes de eletricidade. Os sonhos eram como as luzes de Paris.

Um mês depois, sem esperar por autorização ou apoio, Arlette tomou o trem para a capital, levando a filha e uma valise pequena. Alugou um quarto na pensão de Madame Lucie, velha bonachona da Normadia, que trasbordava generosidade pelo corpanzil. A pensão ficava no Quartier Latin, rue de la Huchette. Seus hóspedes eram em sua maioria estrangeiros – trabalhadores braçais ou estudantes bolsistas.

A vizinhança era repleta de imigrantes, vindos de todas as partes do mundo, e essa mistura de etnias dava ao local um colorido festivo, apesar do clima de medo daqueles tempos de luta pela independência da Argélia. Atentados, assassinatos, enfrentamentos entre polícia e revolucionários eram eventos frequentes nas ruas do centro de Paris.

Arlette, que por sensatez deveria temer por sua filha e por si própria, mal admitia que a sensação de perigo lhe trazia um prazer estranho. Talvez porque o risco expusesse sua frágil condição de mulher livre, e era a liberdade o que ela escolhera para si, mesmo que a liberdade tivesse seu preço. Quando se percebia em meio à guerra, sentia-se lutando ao lado dos argelinos, pela liberdade.

Com a ajuda de Madame Lucie, Arlette conseguiu emprego em uma brasserie. Serviria as mesas e ajudaria na cozinha e, durante o expediente, deixaria a criança sob os cuidados da dona da pensão.

Madame Lucie era daquelas pessoas que nascem para se doar, sem pedir nada em troca. Desde o primeiro dia, cuidou de Arlette como se tivessem sido sempre amigas. Arlette recebia os cuidados sem pudor e cheia de gratidão. Sabia o quanto precisava de Madame Lucie, e agradecia ao acaso por ter feito alguém de tamanha bondade entrar em sua vida.

Enquanto atendia clientes ou lavava pratos, às vezes Arlette punha-se a pensar em seus desejos de ir mais longe – estudar, aprender sobre o mundo, aventurar-se em estradas. Era um planeta tão grande. Eram tantas as coisas lindas e tantas as dores que ela não conhecia. Mas a realidade impõem os limites da liberdade possível. Sempre haveria mais a querer, e Arlette entendia querer tanto era também uma espécie de prisão.

Num sábado frio, Madame Lucie organizou uma soirée na pensão. Havia vinho, petits-fours e música para, segundo a velha, alimentar a alma. O espanhol do térreo trouxe a gaita de fole e um amigo que tocava acordeom. No meio da festa, um velho violão apareceu não se sabe de onde e revezou-se até madrugada avançada nas mãos dos convidados e dos moradores. Improvisavam-se tercetos, duetos e solos, e as pessoas dançavam, sozinhas ou em pares, melodias que se alternavam entre alegres e tristes.

Arlette, entretanto, sentia-se tomada de alegria e tristeza de uma única vez. Emocionava-se com a música que, dos ouvidos, fazia eco no peito. O peito, onde não cabia o amor que tinha por tudo e por todos, era também um enorme vazio, um vazio infinito. Enquanto a música tocava, cada pequeno gesto, cada pequeno objeto, cada pequeno instante pareciam para Arlette revestidos de uma beleza que cegava, que perfurava, que lhe fazia querer chorar.

Assim inebriada, Arlette demorou para notar o homem que, a poucos metros de si, a observava. Quando enfim seus olhares cruzaram-se, Arlette corou e o homem sorriu. Era negro, forte, belo. Arlette olhou para o chão, desconcertada, e decidiu ir até sua habitação, verificar se a menina dormia bem. Quando, entretanto, voltou ao salão, foi tomada pelo braço por Madame Lucie, que queria apresentar-lhe um amigo, Benue, camaronês que fazia seu doutorado na Sorbonne.

Até este momento, desde a morte do marido, Arlette não se imaginara com um homem ao seu lado. Às vezes sentia solidão, mas quase não se dava conta, envolvida que estava com tudo de novo que lhe acontecia. Quando conheceu Benue, porém, no mesmo instante reconheceu sua própria carência, e não conseguiu escondê-la. Benue tinha segurança em seus gestos e em sua voz, e essa segurança, mais que sua força e beleza, subjugou Arlette. Ele captava tudo o que o corpo dela dizia e, mesmo quando corpo e fala se contradiziam, ele sabia que ela lhe desejava.

Arlette e Benue passaram a noite conversando, alheios à festa, e, já bem tarde, quando poucas pessoas ainda restavam no salão, o violonista da vez dirigiu-lhes um gracejo e dedicou-lhes a última canção, uma de Charles Trenet, que os dois dançaram juntos, felizes, certos de que ali iniciavam uma história de amor.

Viveram uma relação intensa. Antes, Arlette sempre desconfiara do amor romântico. Embora dada a sonhar, nunca idealizara uma pessoa para si. Com o esposo, teve uma história singela, sem arroubos de felicidade ou de sofrimento. Agora, com Benue, não entendia o que se passava consigo.

Benue era o intelectual que Arlette queria ser e não podia, e talvez daí viesse a completude que ela sentia ao seu lado. Mas essa completude também vinha do contato de suas peles: a pele negra e a pele branca. O contraste das cores permitia a Arlette sentir-se múltipla, heterogênea, onipresente. Era como se seus velhos sonhos de estudar e viajar o mundo já não fossem importantes. Ou como se estivessem já realizados. Amar Benue era, para Arlette, uma forma de amar a todos e a tudo.

Passados dois anos daquele encontro, Arlette deu à luz um filho de Benue. Mesmo que sua Paris fosse a Paris dos imigrantes e dos excluídos, Arlette não estava imune ao preconceito contra mulheres que vivem sozinhas e que têm filhos fora do casamento. O preconceito poderia ter-lhe causado muito sofrimento, se Arlette não tivesse Benue. Com ele, ela também era onipotente.

O poder ilimitado de Arlette, porém, não duraria para sempre. Quando o menino completou um ano de idade, Benue anunciou que partiria, só, para os Camarões. Tinha terminado seu doutorado e voltaria a viver em seu país. Sua família, há muito tempo, tinha-lhe escolhido uma noiva e acordado com a família dela seu casamento. Quando viera, sua mãe lhe fizera mesmo jurar que não voltaria para casa com uma europeia.

Arlette admitiu que Benue nunca lhe fizera promessas. Ela própria se enganara. Todo pacto tácito, afinal, pode ser apenas um mal-entendido.

Em meio aos ruídos do restaurante onde trabalhava e ao barulho das duas crianças que cresciam, a vida de Arlette seguiu em silêncio. Os sonhos voltaram a ser luzes apagadas, pavios queimados, estrelas mortas. Na verdade, apagaram-se lentamente, com o passar dos anos, uns após os outros. Arlette não saberia precisar quando foi que pôde ouvir o último crepitar de um sonho.

Madame Lucie prontificou-se a cuidar das crianças mesmo depois que Arlette voltasse do restaurante, enquanto ela se preparava para as provas da Bibliothèque Nationale. Dedicou-se por meses a fio e conseguiu o emprego. Arlette não tinha planejado tornar-se uma fonctionnaire, mas acabou por gostar muito do trabalho entre os livros.

Todos os dias, emprestava exemplares para levar à casa. Amava Geografia, História, Literatura. Leu muito, durante décadas, até sua visão não poder mais. E foi assim que, à sua maneira, um pouco como já fazia em Limousin, ainda menina, Arlette chegou mesmo a viajar o mundo.

No final dos anos 60, conseguiu comprar um pequeno e gracioso apartamento em Bercy, no 12º arrondissement de Paris, para onde mudou-se com as crianças.

Nesse apartamento Arlette passaria mais da metade da sua vida. Foi nele que, certa vez, hospedou durante meses a mãe de Benue, vinda à França para tratamento médico. Da velha senhora ouviu agradecimentos sinceros e o reconhecimento de que nenhuma nora sua teria lhe tratado com o carinho que Arlette lhe dedicou.

E é nesse mesmo apartamento que Arlette vive até hoje, já octogenária, um pouco doente, mas ainda muito bonita. Lá se ocupa de suas muitas plantas e de seus dois gatos mansos. No verão, tem hábito de ir a Limousin, visitar os irmãos e o céu estrelado de sua juventude. A maior parte do ano, ela passa sozinha, esperando a visita dos filhos e dos netos, que quase nunca aparecem, porque, como se sabe, todos têm suas vidas e suas ocupações. Amigos de outros tempos, como a bondosa Madame Lucie, a vida já lhe tirou quase todos.

Nesse apartamento, Arlette me narrou a história de sua vida, pouco a pouco, em nossas muitas e longas conversas. Várias vezes quis me mostrar fotografias dos netos ou do passado. Contou-me que Benue se casou, teve muitos filhos, enviuvou. Vive ainda hoje, nos Camarões, mas com ele Arlette mantém pouco contato.

Arlette nunca voltou a viver um romance. Perguntei por que e ela me respondeu, com ar calmo e levemente resignado: “Não sei. Gostaria de ter conhecido alguém, um amigo, com quem eu pudesse ter compartilhado os dias. Simplesmente não aconteceu. Eu não tive essa sorte. Você sabe, a vida é assim. Às vezes as coisas acontecem, outras vezes simplesmente não acontecem.”

 

* Imagem: still do documentário Chronique d’un éte (Paris, 1960).

Daniela Antoniassi
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