Textos

10 de agosto de 2012

As línguas do jantar

À mesa do restaurante distribuem-se conversas paralelas, e eu observo, com interesse, o diálogo em língua árabe, entre Bassam e Amina. Não entendo uma palavra de árabe, mas gosto de prestar atenção à cadência das diferentes línguas, suas diferentes sonoridades. São um pouco como música para mim.

Pergunto a Amina, marroquina, se ela entende tudo o que Bassam, libanês, diz. Afinal, não haveria de ser idêntico o árabe falado em dois países relativamente distantes um do outro.

Amina me responde que sim, pode entender tudo o que Bassam diz, porque o árabe falado no Líbano, segundo ela, seria bem próximo do árabe literário, que Amina conhece. O árabe falado no Marrocos, ao contrário, muito influenciado pelo francês e pelas línguas berberes, teria se distanciado bastante do árabe literário. Então a recíproca não seria verdadeira.

– Nós, no Marrocos, falamos, na verdade, um dialeto do árabe – tenta resumir Amina.

A essa altura, todos na mesa estão voltados à nossa conversa, e um dos presentes se apressa em explicar:

– A diferença entre língua e dialeto é que uma língua pode ser escrita, enquanto um dialeto é apenas falado.

Na verdade, em Linguística, a diferença entre língua e dialeto não é bem essa, mas o equívoco conceitual cometido por meu colega é algo bastante comum. Quanto à afirmação de Amina, de ser um dialeto o árabe falado no Marrocos, trata-se de uma meia verdade. O restante da verdade é que o árabe falado no Líbano é também um dialeto, como, aliás, o árabe falado em qualquer outro lugar.

A escrita não é elemento imprescindível para caracterizar uma língua. No mundo, são 6.912 línguas catalogadas, boa parte das quais não possui escrita natural. É o caso das cerca de 180 línguas indígenas brasileiras ainda existentes.

Ao redor do globo, muitas línguas possuem escritas artificiais, isto é, sistemas de escrita que não resultaram de um desenvolvimento natural da escrita, paralelo ao desenvolvimento da língua falada, mas que foram criados por um indivíduo ou um grupo, com base em outros sistemas de escrita preexistentes.

Dialeto, por sua vez, é uma variante geográfica (ou diatópica) da língua. Toda língua pode ser vista como um conjunto de dialetos. Assim, podemos dizer que o português falado no Brasil é um dialeto da Língua Portuguesa, e que o português falado em Portugal é outro dialeto da mesma língua. Em uma escala diferente, o português falado no Rio de Janeiro pode ser considerado um dialeto, assim como o português falado no Recife.

A Linguística ensina que uma língua nunca é una. Ela se transforma com o passar do tempo (variação diacrônica); muda de acordo com a classe social em que é falada (variação diastrática); de acordo com o grau de formalidade do contexto da fala (variação diafásica); de acordo com a região geográfica em que é falada (variação diatópica); e mesmo de acordo com as particularidades da expressão de cada indivíduo.

As variantes de uma língua podem se distinguir pelo aspecto lexical (uso de palavras diferentes); pelo aspecto sintático (construções frasais diferentes); pelo aspecto fonético (entonação ou pronúncia diferentes). As características fonéticas do dialeto falado em determinada região é o que chamamos vulgarmente de sotaque.

Linguística é uma ciência que me fascina, porque o estudo da linguagem nos revela muito sobre as sociedades e sobre a espécie humana.

Mas agora paro de divagar e volto à mesa do jantar, que nossos pratos chegaram. Sigo conversando com Amina, Bassam e os outros, falando nesse meu peculiar francês com sotaque brasileiro.

 

* Tela “Torre de Babel”, de Pieter Brueghel.

Daniela Antoniassi
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