Textos

17 de dezembro de 2012

Chá e Açúcar

Na noite do dia em que assinou o divórcio, olhos inchados de um choro difícil a secar, ela se viu sozinha, só ela e uma grande caneca de chá.

Chico Buarque perguntou antes, mas agora era nela que a dúvida fazia eco: Para onde vai o amor quando o amor acaba? (acaba? acaba? acaba?)

Ela olhou os cubinhos de açúcar que se dissolviam na infusão e descobriu ali mesmo a resposta.

Seu amor eram cubinhos de açúcar, desfeitos nos líquidos eróticos do corpo, nas chuvas salgadas de lágrimas, no mar (a mar, a mar, a mar) profundo que era ela, que era ele, que era essa doideira de vida.

O amor continuava existindo, então. O amor se desfez em partículas invisíveis que continuavam ali.

Então ela reparou que, excessiva, uma parte do açúcar voltava a se acumular, no fundo da caneca.

Pensou em recuperá-lo com uma pequena colher.

Seria vão. A verdade é que o melado não voltaria nunca ao formato de cubinhos de açúcar.

Num impulso, ela tomou a colherinha na mão mexeu o chá com muita força.

A vida seguiria, e o amor estaria para sempre misturado a ela.

Daniela Antoniassi
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