Textos

04 de novembro de 2012

Como me apaixonei por Asghar Farhadi

Ano passado, desprecavida, sem ler resenha nem nome de diretor, fui assistir a A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011) no cinema. Tive feliz surpresa ao levar um soco no estômago.

Com sutileza, mas sem nenhuma misericórdia, o filme me dizia que a única verdade existente é que nenhuma verdade existe, e que qualquer olhar maniqueísta é uma espécie de cegueira. A dureza da mensagem, entretanto, vinha delicadamente embrulhada em poesia. As cenas em que a câmera tomava a perspectiva do olhar da criança, por exemplo, eram de uma beleza comovente.

Este ano, na onda das premiações recebidas por A Separação, resolveram lançar The Beautiful City* (Shahr-e ziba, 2004) aqui na França. Fui ver e, graças a Alá, recebi outro sensível e impiedoso golpe de realidade travestida de ficção.

A essa altura, eu já estava encantada pela forma nua e crua, e talvez por isso tão bela, com que o diretor iraniano pretende nos mostrar as regras hipócritas que regem as sociedades, as contradições que fundamentam as relações humanas, a complexidade mesma de cada indivíduo.

Compulsivamente, tratei de assistir a todos os seus outros filmes: Procurando Elly (Darbareye Elly, 2009), Fireworks Wednesday* (Chaharshanbe-soori, 2006), Dancing in the Dust* (Raghs dar ghobar, 2003). A cada um deles, eu me inebriava com a sensibilidade de Farhadi, ao mesmo tempo em que me atordoava com as questões que seus filmes faziam ecoar em minha cabeça: O que é moral? Qual é a medida da culpa? Existe culpa? O que orienta nossas ações? É o dinheiro, ou a falta dele, que determina nossos destinos? O que o outro significa pra nós? Por que amamos? Amamos realmente? O que é o amor?

Falando a uma amiga sobre o fascínio que o diretor causou em mim, ouvi uma opinião diversa. A ela, A Separação trouxe certo desgosto, por lhe quitar todas as esperanças, deixar-lhe de mãos atadas. Os filmes de Farhadi, de fato, não são exatamente otimistas quanto à natureza humana. A mim, porém, um tanto desesperançosa de antemão, o que Asghar Farhadi quita são todas as certezas.

Assim, sem nenhuma resposta, apenas sentindo que dor e beleza são os dois elementos incontornáveis de que se constitui a vida, termino com a fala exata de um dos personagens de Farhadi:

“O amor é isso: eles estão dançando sobre vidros quebrados”.

 

* Os filmes cujos títulos estão em inglês não tiveram lançamento no Brasil.

Daniela Antoniassi
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