Textos

11 de junho de 2015

Identidade e finitude

Hoje reli O Imortal, do Jorge Luis Borges, que já quase se apagava da minha lembrança. Dessa vez, Borges me disse algo muito interessante sobre a relação entre nossa identidade e a fugacidade da vida.

Trocando em miúdos, disse Borges que temos uma identidade porque somos mortais e, nesse tempo finito de vida que nos toca, somos obrigados a ser algo — um só algo, e não uma infinidade. Escolhendo ou sem poder escolher, traçaremos um caminho, único, irremediável. E justamente é essa inevitabilidade da vida única, do ser único, que nos brinda uma individualidade, uma identidade.

Se imortal fôssemos, se tivéssemos a eternidade, poderíamos então ser múltiplos. Ser tudo o que quiséssemos. Poderíamos escolher infinitos caminhos. Mas, nesse caso, não teríamos identidade. Seríamos tudo mas seríamos ninguém.

O conto do Borges me fez lembrar de um texto que eu mesma escrevi há anos, num blog que eu tinha, morando em Pedralva, no interior de Minas Gerais. Fui procurar e encontrei o texto, em que eu assim dizia:

“Na juventude, os sonhos podem ser infinitos. Quando jovens, até sabemos que um dia vamos morrer, mas esse dia parece tão distante que é como se não fosse chegar nunca. A passagem do tempo nos ensina a abrir mão dos desejos infinitos e a trocá-los por uma única realidade, muitas vezes diferente de tudo o que pudemos imaginar e quase sempre menos glamourosa. Eu queria ser tantas mas só posso ser uma. E quiçá esse meu desejo de ser universal não seja de certo modo o medo de ser. Pois a única forma possível de ser concreto é ser um só — ou, pelo menos, um só por vez.”

E o Borges me fez lembrar ainda de um trechinho do Mia Couto, lindo como ele só:

“A verdade é que nós somos sempre não uma, mas várias pessoas e deveria ser norma que a nossa assinatura acabasse sempre por não conferir. Todos nós convivemos com diversos eus, diversas pessoas reclamando a nossa personalidade. O segredo é permitir que as escolhas que a vida nos impõe não nos obriguem a matar a nossa diversidade interior. O melhor nesta vida é poder escolher, o mais triste é ter mesmo que escolher.”

Enfim. Hoje reli O Imortal do Borges, e me tocou tanto, e me veio tudo isso, e me deu vontade de dividir. Porque essa história das escolhas, da identidade e da finitude lateja sempre.

 

* Imagem: Marcel Dzama

Daniela Antoniassi
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