Textos

07 de setembro de 2012

Mãe

Debruçada sobre a máquina de costura, Ana dava duro para terminar as peças que deveria entregar na manhã do dia seguinte. Já passava das dez horas e, do cômodo pequeno onde trabalhava, podia ver as duas meninas adormecidas na sala adjacente, e ouvir a televisão que ficara ligada no canal da novela.

As irmãs, mais enroscadas do que abraçadas, davam a impressão de estarem desconfortáveis, com os pequenos corpos contorcidos no sofá de dois lugares. Quatro perninhas, quatro bracinhos e duas cabeleiras cacheadas se misturavam inertes durante o sono, e revelavam a intimidade e a afeição que havia entre aquelas pessoinhas.

Na pequena cidade onde Ana cresceu, as moças da sua idade não costumavam ter outros sonhos que não o de se casarem e terem filhos. Na verdade, Ana nunca parou para pensar se tinha sonhos. A vida dela simplesmente acontecia e, sem se fazer muitas perguntas, Ana vivia, e era feliz.

Conheceu Francisco no colégio, logo se gostaram, e antes de completar vinte anos Ana estava casada com ele. Poucos meses depois do casamento, um tio conseguiu emprego para Francisco em Belo Horizonte, e o jovem casal deixou, pela primeira vez, a cidadezinha, rumo ao futuro na cidade grande.

Carla nasceu um ano depois da mudança. A gravidez não fora planejada, tampouco fora não-planejada. Mais uma vez, era a vida de Ana que simplesmente acontecia, sem planos, sem sonhos, sem muitos pensares. E tudo parecia ir bem.

Quando mãe e filha chegaram do hospital, entretanto, Ana sentia-se muito mal. Não era o corte, que cicatrizava rápido. Não eram seios, apesar de doloridos e endurecidos pelo leite. Não era o ventre ainda inchado. Não era nada disso e era tudo isso ao mesmo tempo. Mas era também uma dor que não se manifestava no corpo, uma dor sem lugar, um vazio e um aperto que faziam Ana só poder sentir raiva a cada vez que olhasse para a criança.

Aquele bebê era um estranho que saiu de seu corpo e agora estava em sua casa. Ela odiava ouvi-lo chorar, mas também se odiava por esse ódio, e também chorava. Ela não suportava alimentá-lo, não suportava lavá-lo, não suportava toda aquela fragilidade e necessidade cuidados. Ana sentia-se frágil também, e queria ser cuidada.

Francisco tentava compreender. Dona Carmem, a mãe de Ana, que viera por algumas semanas para ajudar com a recém-nascida, explicava com sabedoria de mulher velha da roça que às vezes acontecia mesmo de mãe rejeitar a cria. Era assim também com os animais. Já tinha visto vaca e cabra que se recusaram a amamentar e até cadela que comeu o próprio filhote. Coisas essas da natureza.

Que Francisco não se preocupasse, porque havia de passar o mau momento de Ana. A velha rezava muito e já tinha feito promessa para a santa, que jamais deixara de lhe atender. A piedosa olharia pela filha e pela neta. O médico concordava com Dona Carmem: o malquerer de Ana pela pequena era coisa passageira e se chamava depressão pós-parto. A jovem mãe deveria ser medicada e a família deveria ser paciente.

Mas o tempo passava e nem os remédios nem as rezas conseguiam livrar o coração de Ana da aversão que tinha pela menina. Carla crescia bonita, com carinhos redobrados do pai, que tentava compensar a criança pelo desprezo da mãe. Francisco falava pouco com a mulher sobre a filha. O comportamento de Ana era coisa velada, assunto proibido que, se remexido, faria desmoronar o casamento e a família.

Às vezes o coração de Ana era tomado por culpa e vergonha. Nessas horas, ela procurava Carla e simulava afeto. A vida de Ana, porém, simplesmente acontecia, e ela não podia mudar-lhe o curso. Ana não era capaz de amar aquela menina.

A segunda gravidez aconteceu, embora, desta vez, realmente não fosse desejada. Ana tinha medo da chegada do bebê, ou tinha medo de si própria. Francisco nada dizia, mas sofria também. E Carla parecia compreender muito mais daquilo tudo que seus dois anos recém completados fariam crer.

Júlia nasceu e, desde a primeira vez em que a teve nos braços, Ana sentiu um amor absurdo. Era um amor animal, sim. Impulso de proteger, de cuidar, de dar a vida por aquele pequeno ser que era uma extensão dela própria. Em relação à Carla, seus sentimentos não tinham mudado.

Embora calada, Carla não era uma criança triste. De alguma forma inexplicável, entendia a mãe que lhe rejeitava. Mesmo a amando, guardava-lhe certa distância e não reivindicava o lugar que deveria lhe pertencer no coração de Ana.

Carla amava Júlia mais do que tudo. Júlia era sua melhor amiga e a quem precisava proteger, era sua companheira de brincadeiras e, um dia, seria sua confidente.

Francisco, no início, teve dificuldade em demonstrar seu amor por Júlia. Achava, inconscientemente, que o carinho dedicado à caçula seria forma de traição à primogênita. Não demorou muito, porém, para que se desenganasse. E era logo a pequena Carla quem lhe ensinava a amar sem medir, sem subtrair, sem dividir.

Meia-noite e meia, Ana arrematou a última camisa. Buscou um copo d’água, verificou se a porta estava trancada, desligou a televisão da sala. Francisco já havia colocado as crianças na cama. Ana tinha sono. Precisava dormir, porque acordaria cedo.

Depois de cada noite, havia um dia; depois de cada dia, uma noite. Ana não tinha nenhum controle sobre os dias e as noites que se sucediam. Era sua vida que acontecia, simplesmente acontecia.

Daniela Antoniassi
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