No mínimo

No mínimo

Em “Anjos do Sol“, filme de Rudi Lagemann, há uma cena muito forte, dessas em que nos deparamos com o ser humano no que ele pode ser de pior: o rufião amarra uma das meninas prostituídas na caminhonete e arrasta seu corpo pela estrada até que ela esteja morta. É horrível de ver, mas nosso consolo é pensar que se trata de uma ficção.

No filme, podemos fechar os olhos e esperar a próxima cena. Acontecimentos como o do último sábado, quando policiais militares do Rio arrastaram Claudia Silva Ferreira amarrada ao para-choque de uma viatura (saiba mais aqui), porém, não nos permitem qualquer remissão. Nesses momentos, encaramos a torpeza humana sem cortes, sem dublês e sem montagens, porque a cena é real. E não se passou do outro lado do mundo, mas aqui, ao nosso lado. Podemos fechar os olhos? Acho que temos a obrigação de mantê-los bem abertos.

A polícia é despreparada, sim, mas acho que a questão vai muito além. A barbárie não se explica só pela corrosão institucional. Então volto a me perguntar o que será dos homens, se um outro mundo é mesmo possível. Não tenho resposta. A vida me endureceu, mas quero pensar que talvez exista saída. E, se existir, a única saída factível, pra mim, é a transformação do ser humano por meio da educação e da sensibilização, é a mudança que parte do individual para o coletivo, é a mudança que começa em cada um.

Há muitas causas pelas quais vale a pena lutar, mas a vida não chega para tanto e, por isso, quase sempre temos de escolher uma ou poucas causas para as quais nos dedicaremos. Seja qual for nossa luta, não é possível que uma mulher seja arrastada no asfalto até a morte e isso não nos afete. Não é possível que nossas vidas continuem iguais, sem que isso signifique nada.

No mínimo, acontecimentos assim devem nos indignar e nos transformar. Temos que nos tornar pessoas diferentes.

 

* Imagem: still do filme “Anjos do Sol”.

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