Textos

22 de agosto de 2012

Os amores de Amarildo

Foi na adolescência que Amarildo se apaixonou pela primeira vez. Rita era linda, charmosa, transbordava sensualidade. Só que nunca deu a menor bola pra ele. Quanto mais ele tentava uma aproximação, mais ela o desprezava, sem dó nem piedade.

Dona Helena, a mãe do Amarildo, ficava desolada ao ver o rapaz daquele jeito: magro, abatido, chorando pelos cantos.

– Meu filho, pare de sofrer por aquela moça! Você ainda não sabe o que é o amor! A vida vai te ensinar, Amarildo…

Amarildo não esqueceu Rita, mas o tempo passou e ele parou de chorar. Já não era mais um menino. Formou-se contabilista e, um dia, no emprego novo, Amarildo conheceu Joana.

Joana era dona de uma beleza discreta, dessas que a gente não vê no primeiro momento, mas que, uma vez percebida, enfeitiça. Como se isso não bastasse, Joana era simpática e divertida. Dessa vez, nosso herói foi correspondido e, assim, Amarildo e Joana começaram o que se transformou em um longo namoro.

O problema é que Amarildo se revelou um homem muito ciumento. Não suportava a ideia de que Joana pudesse ter amigos. Temia que outros também fossem enfeitiçados por sua beleza sutil e que pudessem roubar-lhe o coração.

O ciúme, então, acabou por tornar a vida do casal insustentável. Joana, que gostava tanto de rir, agora só andava triste. Antes de ir embora pra não voltar, ela disse:

– Já não posso mais, Amarildo. Você não sabe o que é o amor! Desejo que consiga aprender, ou nunca poderá ser feliz.

Quando o namoro com Joana terminou, Amarildo achou que não fosse resistir. A dor era imensa, tudo parecia ter perdido o sentido. Mas o tempo passou e a vida de Amarildo seguiu.

Depois de uma fase em que não queria encontrar ninguém, e depois de outra fase em que não conseguia encontrar ninguém, Amarildo conheceu Elisa, amiga dos seus amigos. Era a mais doce, a mais delicada, a mais sensível de todas as mulheres que Amarildo já vira.

Apaixonaram-se e, poucos meses depois, marcaram o casamento. Não havia por que esperar: eram adultos e sabiam muito bem o que queriam. Amarildo estava decidido a não cometer com Elisa os mesmos erros que lhe tinham feito perder Joana.

Casaram-se e tiveram uma filhinha, a pequena Maria. No início foram muito felizes. Elisa era uma mulher maravilhosa e Maria tinha dado um novo significado à vida de Amarildo. Ele sentia-se pleno.

Em momento algum voltou a experimentar do ciúme que outrora o devassara. Bem ao contrário, Amarildo não chegava a prestar muita atenção à Elisa. Afinal, ele tinha certeza de que ela o amava mais do que tudo. Amarildo estava tranquilo.

Não foi capaz de perceber a dor silenciosa de Elisa. Ela dedicava sua vida a ele, ao casamento, àquela família, mas via Amarildo sempre distante, distraído. Elisa sabia que o marido era um bom homem e que gostava muito dela, mas faltava exatamente o detalhe. Ela esperava em vão por uma palavra de carinho, por um elogio, por uma pequena surpresa. Elisa precisava sentir-se querida.

– Mesmo casada, há muito tempo estou sozinha. Você não sabe o que é o amor, Amarildo. Não sei se vai aprender algum dia…

O divórcio foi terrível para Amarildo. Ele nunca se perdoaria por ter perdido Elisa. Já nem queria conhecer outra pessoa. Só encontrou forças porque tinha a pequena Maria. Decidiu que viveria por ela e para ela.

Mesmo que a menina morasse com a mãe, pai e filha eram muito apegados. Primeiro, era Amarildo quem fazia tudo por Maria. Depois, quando Maria cresceu, era ela quem fazia tudo pelo velho Amarildo.

Um dia Maria foi apresentada a Ivo. Não demorou para que os dois soubessem que ficariam juntos. Apaixonados, fizeram planos de se casarem e irem tentar a vida no Japão, terra natal dos avós de Ivo.

Foi Amarildo quem não gostou nada da história. Enfezou-se, brigou com Ivo, gritou com Maria. Que Maria não esperasse por ele no dia do casamento! Como tinha coragem de ir embora e deixar o pai, que a amava tanto e que só tinha a ela?

– Como o senhor pode não desejar que eu busque ser feliz, papai? O senhor não sabe o que é o amor!

Quando Maria fechou a porta, Amarildo sentiu-se um miserável. Tinha tentado a vida toda. Tinha sofrido, feito sofrer e, mesmo assim, não aprendeu jamais.

Amarildo realmente nunca soube, não sabia, e morreria sem saber o que era o amor.

E, apesar disso, sempre amou. Era a sua sina.

No dia do casamento de Maria e Ivo, Amarildo estava presente. Desculpou-se, abraçou os noivos e, com todo seu coração, desejou que a pequena Maria fosse muito, muito feliz.

 

Daniela Antoniassi
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