Textos

04 de dezembro de 2013

Pequena reflexão sobre mudança e medo

É curioso isso de transformar nossas vidas e, assim, transformar a nós mesmos. Mesmo que queiramos, e muito, geralmente temos medo.

Então vamos dando passinhos miúdos e cuidadosos, como quem desce uma escada perigosa na escuridão absoluta: vamos agarrados a um corrimão, se houver, ou tateando paredes, ou até mesmo descemos sentados, pra poder sentir melhor os degraus que não vemos ou o abismo que não sabemos o que é.

Inventamos corrimãos, inventamos rotas de regresso, para nos sentirmos seguros, para aliviar-nos o medo do novo com a ficção de que sempre podemos voltar atrás se, por acaso, o abismo não nos agradar.

Mas todos esses artifícios de segurança não passam de mentiras que contamos a nós mesmos. A verdade é que do abismo não se pode voltar. A verdade é quase nunca há regresso. Descer um poço é fácil, remota é a possibilidade de saltar de volta à superfície. A tal da entropia que está em tudo.

Acontece que o abismo pode ser bom, e que o fundo do poço quase nunca é o fim, se nele pudermos encontrar misteriosas passagens para outras superfícies, outros mundos.

Talvez o medo seja mesmo inevitável, e inevitável também seja esse nosso titubear. Mas é interessante percebermos como o medo vai se dissipando a medida que seguimos adiante, a medida que a paisagem muda, e que já não somos mais os mesmos.

Constatar que não há regresso não parecerá terrível quando sentirmos que, ainda que pudéssemos voltar atrás, já não o faríamos.

Seja qual for o abismo descoberto.

 

* Imagem: adaptação de arte de Julianna Swaney.

Daniela Antoniassi
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