Textos

22 de junho de 2012

Primeira vez

Foi uma lisonja e um susto o convite para escrever aqui na Confeitaria. Então essa vida não é mesmo uma caixinha de surpresas? Há pouco meses, quando decidi criar o Janelas Abertas Número Dois, sequer a amigos eu ousaria mostrar algum texto meu. E olha eu aqui, de repente, feliz da vida – ainda que um tanto insegura – em aceitar esse desafio de escrever semanalmente pra vocês.

Minha mãe conta – e eu mesma recordo um pouco – que banquei a poetisa aos três anos, bem antes de aprender a escrever. Eu ditava os versinhos pra ela, que registrava tudo em um caderno grosso de capa marrom, com aquele orgulho bobo que só mãe tem. Na época, imagine, eu não tinha vergonha de nada e, se me pedissem versos personalizados, em homenagem a Fulano ou a Siclano, ótimo: nunca me faltava inspiração para um poema dedicado à vizinha, ao primo do interior, ou à depiladora da minha tia.

Cresci amando as palavras e devo muito disso à minha mãe, que não só cuidava de registrar meus poeminhas no tal caderno marrom, enquanto eu mesma não sabia escrever, como também lia muito para mim, enquanto eu não sabia ler. E ainda depois, quando aprendi as letras, era minha mãe quem me oferecia os livros – aqueles todos de que ela mais gostava. Assim, comecei novinha com Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Machado de Assis e trupe.

Eu, em pequena, fui escrevinhadora prolífera: minhas brincadeiras preferidas eram as de inventar poemas, livrinhos, músicas, pecinhas de teatro que a gente encenava depois. O público dessas criações era cativo – adultos capturados, mais do que seduzidos. Naqueles tempos em que o superego ainda não fazia vigília, eu não queria e nem tinha por que esconder minha “arte”, para azar, talvez, de pais, tios e avós cansados ou indispostos.

Foi na adolescência que passei a sentir pejo por meus escritos. A razão disso é que eu perdia a transparência sincera que só as crianças têm e me vestia do pudor excessivo daqueles que ainda são jovens demais pra se conhecer e se gostar. Estávamos começando a estudar Literatura no colégio e, se eu me pusesse a comparar o incomparável, ou seja, tentasse avaliar aquilo que eu escrevia tendo por referência obras dos grande escritores que eu admirava, é claro que minha vergonha se tornaria intransponível. E assim parei de escrever.

Talvez eu seja a única responsável por essa história toda, mas ainda acho triste um mundo em que as pessoas, por pudor, reprimem o que são. Porque, em nossa sociedade, não nos é dado o direito de sermos menos do que perfeitos. Se não sou a Clarice Lispector, é melhor que eu nem escreva! Devemos ser ótimos sempre, bem sucedidos em todos os aspectos, irretocáveis – e até beleza e juventude parece que viraram obrigação. É proibido envelhecer, veja só! Nós, tão vulneravelmente humanos, estamos condenados a sermos super-homens e mulheres-maravilhas.

Por isso vejo como sinal de amadurecimento minha ousadia tímida de escancarar janelas. De dar a cara à tapa. Porque, definitivamente, não sou Clarice, não sou Rosa, não sou Machado. Mas isso não significa que eu não tenha coisas a dizer e que não deva dizê-las, por vaidade ou medo de rejeição.

Cada vez mais, aprendo o quanto é importante que tenhamos nossas janelas abertas para a vida, porque ela nos presenteia, sim, se estivermos atentos e formos flexíveis o bastante para deixá-la entrar pelos batentes. Na minha história, nada do que planejei deu tão certo quanto as coisas imprevistas que a vida me trouxe e eu soube receber de coração.

E é assim, com o coração aberto, que me atrevo a dar-lhes as melhores palavras que eu tiver. Que milagroso será se elas puderem ser recebidas por outros corações abertos.

Então convido vocês a fazerem também aquilo que de gostam porém se envergonham, por talvez não serem suficientemente bons. Escrevam, dancem ou cantem, se desejarem isso. Porque aceitar-se imperfeito e ser capaz de admitir os próprios desejos é aquilo que, em primeiro lugar, nos torna seres livres.

Daniela Antoniassi
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