Textos

20 de junho de 2013

Sobre amor, tempo e espaço

Não acredito em almas gêmeas, em feitos um para o outro, em metades da laranja. Penso que, nesse mundão de sete bilhões, o par ideal pode ser não uma, mas uma série de pessoas compatíveis com cada um de nós.

É claro que, durante nossa curta existência, não vamos sequer cruzar com todos aqueles que poderiam ser o grande amor de nossas vidas. E são bem práticos muitos dos fatores que reduzem ao extremo nosso leque de potenciais amados-amantes.

A questão geográfico-logística é quiçá a que mais acarreta impossibilidade de encontro de pares românticos. Imagine quantos casais ideais jamais poderão existir pelo simples fato de um e outro terem nascido em extremos diferentes do globo. Incontáveis histórias de amor não chegarão a acontecer e nunca poderão ser contadas.

Ainda quando a distância geográfica não for tão grande, outros problemas, até de cunho político, podem atrapalhar o encontro de dois pombinhos. Acontecerá, por exemplo, se ele nascer na Coréia do Norte e ela, na Coréia do Sul.

Mesmo que globalização e tecnologia deem uma mãozinha, impulsionando circulação e contato de pessoas, imagine quantos romances, unindo viajantes mundo afora, não terminarão por conta dos preços das passagens aéreas, das ligações telefônicas, ou da chatice que é namorar por Skype.

Uma infinidade de elementos jogam contra o encontro e o reconhecimento de um par amoroso: diferença de classe social, diferença cultural, formato desagregador das cidades, imposição de padrões estéticos, e por vai. Tudo isso sem falar no Deus Acaso, que é quem deve permitir a intersecção entre dois caminhos.

Mas, além de compatibilidade e possibilidade de encontro, há um outro ingrediente nessa receita incerta de amor que, para mim, é o mais complexo e improvável de todos. O tal do, quase intraduzível, timing. O tal do, caprichoso, momento certo!

O encontro entre duas pessoas, para frutificar uma relação, precisa se dar no exato momento em que ambas estão prontas e dispostas a mergulhar no abismo uma da outra. Há de existir essa rara sincronia, coincidência entre o tempo certo de um e o tempo certo de outro. Tão rara que chega a parecer mágica. Tão mágica que faz o Deus Acaso perder muitos partidários-devotos para o Deus Destino.

Só no momento certo para cada um e para ambos é que a comunicação entre dois seres se faz efetiva. Só no momento certo pode se produzir um diálogo eficiente em lugar de dois monólogos surdos. Momento certo é aquele em que há chance de que duas pessoas se entendam, porque existe, em primeiro lugar, disposição de cada uma delas de buscar o entendimento.

O momento de entender é também o momento de querer e de poder entender. Tem a ver com aquilo a que chamam maturidade. E maturidade, a propósito, não está necessariamente relacionada à passagem do tempo ou ao acúmulo de experiências. Chega antes para alguns, depois para outros, ou pode até nunca chegar.

Aqui pra mim, maturidade talvez signifique capacidade de escolher. Escolher amar alguém. Escolher deixa-se amar por alguém. Escolher querer que uma relação funcione. Escolher doar-se a uma relação, para que ela funcione.

Escolher amar alguém é escolher dedicar-se a alguém, mesmo que sejam tantos os pares potencialmente compatíveis, mesmo que sejam infinitas as possibilidades que precedem cada uma de nossas escolhas. É aceitar o outro a despeito das suas imperfeições; é olhar com ternura pra tudo aquilo que o outro tem de mais humano.

Sabemos que o momento certo chega pra nós quando nos reconhecemos capazes de amar sem idealizar, sem esperar do outro que responda a todas as nossas carências, que preencha todos os nossos vazios. No momento certo, somos capazes de amar as fraquezas, mais de que as virtudes. Amar o ordinário ou o feio, mais do que o exclusivo ou o belo.

Quando olhamos pra trás, damo-nos conta de que boa parte das nossas histórias de amor fracassadas poderiam ter sido diferentes, se na época estivéssemos prontos. Às vezes, relações não dão certo por falta de capacidade de compreender ao outro e a si próprio. Outras vezes, é um coração machucado ou confuso que faz daquela uma má hora para amar.

Não acredito em almas gêmeas, em amor perfeito, em o-que-tiver-que-ser-será. Mas acredito em momento certo: o momento em que escolhemos e somos escolhidos.

Não escolhemos alguém porque seja o único, mas é verdade que alguém se torna único por ter sido o objeto de nossa escolha. E aí sim, a história de amor que aconteça será única, diferente de qualquer outra que já existiu em qualquer outro tempo e lugar. Será a única história possível entre tantas histórias possíveis.

Daniela Antoniassi
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