Textos

16 de julho de 2013

Feliz

Meu avô não foi um homem de grandes feitos (apesar de ter aguentado o gênio terrível da minha avó por quase 6 décadas). Não teve uma vida das mais glamurosas. Pelo contrário. Não ganhou dinheiro, nunca descobriu seu talento e nunca foi dono de seu próprio negócio – a não ser depois que se aposentou e resolveu ter uma barraca de meias na feira. Era bondoso, honestíssimo e vivia resmungando de tudo, mas de uma maneira engraçada, como se fosse um crítico de todos os assuntos do planeta.

Um dia, assistindo a um sorteio da Mega Sena pela TV, ele soltou tranquilamente “Eu ganhei”. Frio na barriga da família toda. Abraços. Telefonemas. Gritos de alegria. Pela primeira vez, em 59 anos de casamento, minha avó dirigiu palavras doces a ele. E nós começamos até a achar fofo o fato de termos ganhado pares de meias em todos os nossos aniversários, dias das crianças e natais dos últimos 16 anos.

O problema é que ele tinha perdido o bilhete premiado. Filhos, netos, sobrinhos e primos que nunca tiraram o próprio prato da mesa após as refeições, passaram a madrugada revirando a casa para encontrar o papelzinho que mudaria o destino da família. E encontraram.

Meu avô realmente tinha marcado as seis dezenas sorteadas. Só que ele marcou os outros 54 números também. Ao contarmos que não era um bilhete válido por estar inteiro assinalado, a resposta foi “Mas que eu ganhei, eu ganhei.” Foi aí que descobrimos que ele estava com Alzheimer.

Uns ficaram tristes por suas Ferraris, que aceleraram de volta ao mundo dos sonhos em menos de 3 segundos. Outros por ele, claro. Minha avó? “Eu disse que esse inútil nunca fez nada de bom na vida!” E daí para baixo.

E foi esse o fim do meu avô: morreu com a certeza de que era milionário e, de quebra, deixou sua mulher emputecida para o resto da eternidade.

Se isso não é final feliz, então o que é?

 

 

* Texto originalmente escrito em junho de 2009.

Imagem: Luke Stephenson.

Domenico Massareto
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