Textos

03 de janeiro de 2014

Luizinho

Luiz era realmente baixo, mas fazíamos de conta que não. Ele foi o professor mais impetuoso que tive. Dos que davam medo de ter dúvida. Diziam que ele trocou socos com um ex-aluno e que quando o diretor foi separar a briga, ele nocauteou o diretor também – achávamos que nem tinha sido acidente.

Já no último bimestre de história da oitava série, um ex-aluno mais velho entrou sem bater no meio da sua aula. O ar raspava: a sala fantasiava revanche.

O professor perguntou o que o aluno fazia ali. O aluno disse que estava deixando o país para trabalhar num escritório importante de arquitetura em Londres. E chamou o professor de Luizinho. Lento, o professor rasgou a sala. O pé ganhava tempo, o olhar gastava. O som daquele tabefe ecoaria por décadas:

“Se um dia se tornarem professores, toda vez que um aluno conquistar algo grandioso, vocês irão se perguntar se tiveram alguma participação nessa conquista. Provável que não saberão a resposta, mas irão se lembrar do dia em que decidiram dar aula.”

Os dois se abraçaram.

Recebi esses dias uma mensagem com a história de um menino que queria ser empresário e que, duas décadas e uma fortuna depois, construiu um projeto de inclusão social pelo esporte. O texto terminava com “Obrigado, professor.”

Hoje não tenho mais medo dele, então posso falar: Luizinho era realmente baixinho.

Mas como batia forte.

 

 

* Ilustração: Gabriel Chaves.

Domenico Massareto
Leia mais textos de Domênico aqui.