Textos

21 de agosto de 2013

Não me julgue

A mão abstêmica o encontra, desejando que esteja meio cheio de adulação. É meu novo vício: celular pela manhã. Antes do café. Antes de saber onde estou. De saber se está frio ou está na hora. Antes mesmo de acordar. Sobre os lençóis torco torcido mais por amor que por amizade. Coordeno os olhos e foco: tem alguém no lado oposto da cama.

A silhueta chavasca não se parece a pessoa da noite anterior. Apenas lembra alguém melhor. É a versão mal feita. A caricatura de feira de artesanato de interior. Derretida. Lamacenta. Irrespirável. Quero correr da minha própria casa; da minha cama própria. Estar ali com você é bestialismo da minha parte.

Quase me sinto mau. Você não tem culpa da sua pouquidão. De desejar sem sal. De sonhar mirrado. Você almeja o clichê. E pra você é muito.

O celular está morto. Fecharei os olhos para fugir do focinho réptil; esse rosto manco refletido na tela sem bateria. O meu.

 

* Imagem: Luigi Serafini, no Codex Sepraphinianus.

Domenico Massareto
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