Textos

01 de março de 2013

Perdido até o fim

Fui eu mesmo quem construiu a jaula. Já sabia que não seria resistente o suficiente e, ainda que fosse, sei que não se pode ser amigo de um grande felino selvagem. Não foi um plano genial, mas a urgência costuma corroer o brilho das pessoas.

Os amigos que conhecem esta história, me perguntam em que página ela está. Ainda que eu soubesse, faz diferença? penso. Só eu acho besta os números nas páginas dos livros? Nunca entendi o propósito. Já meus amigos os cultivam. São velocistas de páginas. Cronometram suas leituras. Postam. Talvez os números dêem à eles algum falso conforto de localização, mas pergunto: livro bom não é aquele que nos faz perceber o quão perdido estamos?

O lapso tem origem: foram vítimas da histeria coletiva. Do cagaço de ficarem para trás. Precisam comparar seus avanços e, nessa, adquiriram mais gosto pelo papel do que pela leitura. Dizem que gostam de cheiro de livro, mas esqueceram que, quando bem escrito, ele nos tira o ar. Numeram as páginas das suas próprias histórias e seus amores são perfeitinhos como os títulos em suas estantes: sem riscos ou rabiscos, sem anotações tolas e emocionadas ou comentários ridículos e corajosos. São relacionamentos para se julgar pela capa. Organizados por tamanhos e cores. Ostentados na cara dos amigos. Fechados. Histórias que não tocam e, há muito, não inspiram.

Certos romances não nasceram para ser livro – e isto é um elogio a estes romances. Afinal, o livro é apenas uma forma inocente de sondar se podemos pegar nas mãos ou levarmos para a cama algo de tamanha insubstancialidade. Como disse Graham Greene, escolhemos arbitrariamente os momentos que queremos recortar e chamar de história. Ou de relacionamento. Ou do caralho que seja.

Te contemplo indistinto de fora da jaula. Embora queira me aproximar e te tocar, aguardo em incerteza. Desconfio que tenha notado a debilidade das barras invisíveis feitas de amizade inventada. Como ainda não me matou nem fugiu – o que seria muito pior – você faz com que seja impossível que eu saiba em que página estamos. Isso é ótimo, afinal, estar perdido é o primeiro passo para a autenticidade. Que assim seja até o fim.

Domenico Massareto
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