Literatura, Resenhas

25 de agosto de 2015

A Amiga Genial

No filme italiano Anos Felizes, o protagonista é um artista plástico que passa todo o tempo perseguindo um feito notável, mas é acusado pela crítica de ser artificial — faltaria verdade em sua obra. Apenas ao final, depois de viver uma dolorosa separação, ele consegue o reconhecimento pretendido ao criar uma escultura enorme, um corpo feminino de formas infladas que ocupa todo o espaço de seu ateliê, invadindo os ambientes. Quando sua ex-mulher, que antes era constantemente privada desse mesmo espaço, colocada de lado pelo próprio artista, vem enfim visitá-lo, ela lhe pergunta, olhando para o rosto da escultura: “quem é ela?”, ao que ele responde: “sua ausência”.

Assisti ao filme pouco antes de ler o também italiano A Amiga Genial, de Elena Ferrante, e agora me recordo dessa cena menos pela sua nacionalidade do que pela seguinte analogia: assim como a escultura, a ausência de Ferrante é uma forma de presença inegável, muito mais afirmativa do que se encontrássemos seu retrato na orelha do livro ou notícias sobre a sua vida em uma busca pela internet. Elena Ferrante, para quem ainda não sabe, seria o pseudônimo de uma autora italiana que publica desde 1992. Sua identidade permanece misteriosa ainda hoje.

É difícil escrever um texto sobre uma obra específica de Ferrante sem passar pela sua própria história, ou não-história; pela sua escolha do anonimato. Em uma carta datada de 1991, ela explica aos editores por que gostaria de se manter anônima: “eu acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não tenham qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, vão encontrar cedo ou tarde seus leitores”. A ficção acaba competindo com os rumores que passam ao seu lado, e que de certa forma a atravessam. Mas a qualidade literária de seu texto é tão impressionante que me parece injusto não me deter a ele.

De todo modo, seu texto é tudo o que temos. O restante, além das poucas entrevistas (sempre concedidas por intermédio de seus editores italianos, Sandro e Sandra Ferri), é apenas especulação. “O caminho das minhas obras é o meu caminho”, afirmou em uma entrevista recente. “O meu trabalho pretende chamar a atenção para a unidade original entre autor e texto e para a autossuficiência do leitor, que pode deduzir dessa unidade tudo aquilo que for necessário.”

A Amiga Genial é o primeiro livro da chamada Tetralogia Napolitana, publicado na Itália em 2011. Chegou ao Brasil apenas neste ano pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros. Entre 2012 e 2014, Ferrante lançou as sequências: Storia del Nuovo Cognome (que deve sair em português ainda este ano), Storia di Chi Fugge e di Chi Resta e Storia della Bambina Perduta

Ao longo dos quatro volumes, acompanhamos a história da amizade entre duas mulheres, Elena Greco (Lenù) e Rafaella Cerullo (Lila), desde a infância até os dias atuais. Ao final do primeiro livro nos sentimos tão próximas de ambas que ainda não estamos prontos para nos despedir. Que bom que a história continua.

Em uma entrevista, Ferrante comentou que, de todos os seus livros, este é o que considera como o mais trabalhoso, com o processo de escrita mais árduo, mas também o mais bem finalizado. Lembrando que por A Amiga Genial, a autora se refere aos quatro volumes, que considera como um único romance. Admitiu que Elena e Lila são também partes de si. “São elas que melhor me capturam”, considerando sobre seu elenco de personagens.

A premissa da tetralogia é brilhante e também passa pela questão que nos assombra sobre a autora: a ausência. A Amiga Genial tem início com um prólogo no qual Elena, a narradora da história, recebe um telefonema sobre o desaparecimento de Lila, sua amiga há quase sessenta anos. Quem está do outro lado é Rino, filho de Lila. Por orientação de Elena, ele procura por qualquer vestígio que a mãe possa ter deixado, sem sucesso. Nenhuma roupa, nenhum documento. Até as fotos em que apareciam juntos, quando menino, foram recortadas. Lila havia desaparecido por completo.

Elena nos conta que há cerca de trinta anos, a amiga lhe fala sobre o desejo de desaparecer. Não se tratava de fugir, nem de recomeçar em um lugar distante com nova identidade, tampouco considerava a ideia de cometer suicídio. Lila “queria volatizar-se, queria dissipar-se em cada célula, e que ninguém encontrasse o menor vestígio seu”. A narradora recebe a notícia de maneira surpreendente:

Como sempre Lila exagerou, pensei.

Estava extrapolando o conceito de vestígio. Queria não só desaparecer, mas também apagar toda a vida que deixara para trás.

Fiquei muito irritada.

Vamos ver quem ganha desta vez, disse a mim mesma. Liguei o computador e comecei a escrever cada detalhe de nossa história, tudo o que me ficou na memória.”

É este, então, o texto que verdadeiramente nos aguarda: não a história sobre o desaparecimento de Lila, mas a tentativa de Elena em recuperá-la, em não deixá-la desaparecer, ao escrever cada pequena recordação sobre a amizade das duas. Conhecemos Lila através de seus olhos, portanto temos dela uma imagem limitada tanto pela perspectiva da narradora como pelos caminhos obscuros da memória, mas essa é a única versão da história que poderemos conhecer.

Elena e Lila nasceram em Nápoles, assim como Ferrante, e cresceram em um contexto violento: uma periferia pós-guerra em uma cidade que convive com a máfia (a Camorra), em um país essencialmente machista. Mas não se trata apenas de um romance histórico ou político, embora seja realista e não ignore o seu entorno. O que o define A Amiga Genial, certamente, é a habilidade em construir personagens complexos e verossímeis. Ao contrário da figura misteriosa de sua autora, Elena e Lila são tão tangíveis que é difícil acreditar que não sejam reais. Se para alguns isso resulta na suspeita de uma autobiografia, para outros, como eu, prova apenas o talento de Ferrante ao manusear a palavra escrita.

James Wood, um dos críticos literários mais respeitados do cenário atual, escreveu sobre Ferrante na revista New Yorker e se desdobrou em elogios: “ela é autora de romances memoráveis, lúcidos, ferozmente honestos” (vale ler o texto completo aqui). Se Wood se rendeu aos encantos de Ferrante, assim como a crítica internacional, sinto-me menos culpada por escrever esse texto diante de minha pequena e deslumbrada perspectiva: se fosse possível escolher uma escritora de quem poderia roubar o estilo, escolheria o dela. A sinceridade que Ferrante atinge através de uma prosa muito clara e direta é impressionante. Falar sobre seu texto é reduzi-lo. Nenhuma tentativa faz justiça. Para entender, é preciso lê-la.

A Amiga Genial tem dois encantos especialmente preciosos para mim. O primeiro é o mais óbvio: as protagonistas são mulheres e a amizade entre elas, tão afetuosa e conflituosa, é comovente. Antes do prólogo, o livro começa com uma citação de Fausto, consagrada poema trágico de Goethe, no qual o Senhor (Deus) fala: “O agir humano esmorece muito facilmente, em pouco tempo aspira ao repouso absoluto. Por isso lhe dou de boa vontade um colega que sempre o espicace e desempenhe o papel do diabo”. É precisamente sobre isso do que tratam as 331 páginas deste primeiro livro: quem seria Elena sem a Lila que a desafiasse? E quem seria Lila, do mesmo modo, sem Elena escrevendo essa história? Se uma instiga a outra, “acende” a outra, também o afeto que as une é uma faísca que nos ilumina por toda leitura. A relação de vulnerabilidade, admiração, provocação e companheirismo é também um exílio onde se refugiavam de uma realidade opressora; o bairro X a imaginação, a violência X a literatura.

Não me lembro de ter lido uma história tão complicada e bonita sobre a amizade entre duas mulheres, não com todas as nuances e complexidades que encontrei aqui. Fez com que pensasse em algumas das melhores referências que tenho eu mesma, nas Lilas de minha história.

Nunca me convenci da ideia de sororidade como nos é apresentada em sua forma mais radical — sempre me pareceu utópica demais, artificial em sua perfeição. Para mim, é difícil negar a existência de competição entre mulheres (entre quaisquer pessoas em uma relação); mas essa competição não é necessariamente negativa, ao contrário, é algo que pode nos colocar em perspectiva — e em movimento, como na citação de Fausto.

O afeto que Elena sente por Lila é tão verdadeiro que quase conseguimos tocá-lo, como um terceiro protagonista do livro. As duas personagens alternam sentimentos e papéis de modo que muitas vezes fica difícil separar uma da outra.

Ferrante escreve com domínio completo de sua história, nada parece lhe escapar. Mesmo os assuntos mais espinhosos são conduzidos com honestidade. Gosto especialmente de como Elena e Lila lidam com o invisível, com o intangível, como nessas duas belas passagens, separadas por cerca de quarenta páginas:

“(…) parecia não se importar tanto com o que tinha acontecido antes de nós — eventos em geral obscuros, sobre os quais os adultos se calavam ou se pronunciavam com muita reticência –, e sim com o fato de ter havido um antes. Era isso que na época a deixava perplexa e às vezes até nervosa. Quando ficamos amigas, me falou tanto daquela coisa absurda — antes de nós — que terminou passando o nervosismo para mim. Era o tempo longo, longuíssimo, em que não existíamos.”

Habituadas pelos livros da escola a falar com competência do que nunca tínhamos visto, era o invisível que nos excitava.”

A Amiga Genial é o volume inicial, que trata da infância (História de Dom Achille) e da adolescência (História dos Sapatos) das personagens: duas meninas se descobrindo e descobrindo o mundo à sua volta; o eu e o outro; o sujeito e o objeto. Quais limites definem quem somos; onde fica o que não somos; e, o mais intrigante para elas, quais limites separam uma da outra. Elena percebe quem é ao tomar conhecimento do que não é, do que Lila traz para a sua vida e não existiria sem a presença da amiga. De outro lado, mesmo em sua ausência, existe uma Lila internalizada que a acompanha sempre e surge como referência em cada conflito, como a única figura feminina que lhe permite a possibilidade de escapar de seu destino, de não se tornar sua própria mãe.

Algo me convenceu, então, de que se eu caminhasse sempre atrás dela, seguindo sua marcha, o passo de minha mãe, que entrara em minha mente e não saíra mais, por fim deixaria de me ameaçar. Decidi que deveria regular-me de acordo com aquela menina e nunca perdê-la de vista, ainda que ela me aborrecesse e me escorraçasse.”

Lila era “levada sempre, pior que os meninos” e brilhante desde criança. Foi a primeira da classe a aprender a ler e escrever, e fez isso sozinha. Mesmo separada da escola, continua sendo o baluarte acadêmico de Elena. É capaz de aprender latim e grego por sua própria conta, antes que a amiga a alcance: “Ela sempre fazia as coisas que eu precisava fazer, e antes, e melhor? Escapava quando eu a perseguia e enquanto isso me encalçava para superar-me?. Elena também nos conta que Lila escrevia com tal habilidade que “não deixava nenhum vestígio de inaturalidade, não se sentia o artifício da palavra escrita” (como eu descreveria o texto da própria Ferrante). Lila “sabia ser autônoma, ao passo que eu dependia dela, porque tinha coisas dentro de si às quais eu não podia ter acesso”, conta Elena.

Por isso, cheguei às últimas páginas enxergando Lila como a amiga genial do título. Mas, no final, no dia de seu casamento, descobrimos que a expressão faz referência objetiva ao modo como Lila vê Elena: “você é minha amiga genial”, lhe diz. Essa é a beleza da história: o título faz referência a ambas; são cada uma a amiga genial da outra, como o diabo de Fausto.

Além da honestidade com que a amizade entre as personagens é retratada, impressiona-me a relação de Elena e Lila com a literatura e a capacidade da autora em passar por questões psicanalíticas tão profundas. Muito tem sido dito sobre o conhecimento que Ferrante demonstra ter da cultura clássica e das muitas referências literárias, mas me espanta também o seu olhar freudiano, como no episódio da panela de cobre relatado por Lila em carta à Elena.

Em uma entrevista excepcional publicada na revista The Paris Review, a única que teria sido conduzida pessoalmente no formato de diálogo (as demais se deram por escrito), Ferrante teria dito aos seus editores italianos que tem o hábito de escrever seus próprios sonhos: “Eu tenho feito isso desde que era uma garota. É um exercício que eu recomendo a todos. Submeter a experiência de um sonho à lógica da consciência é um teste extremo de escrever. Você nunca será capaz de reproduzir um sonho com precisão. É uma batalha perdida. Mas colocar em palavras a verdade de um gesto, de um sentimento, um fluxo de eventos, sem domesticá-los, é também uma experiência que não é tão simples quanto você pode pensar que seja”.

Em outras passagens dessa mesma entrevista, demonstra interesse e conhecimento de temas notoriamente psicanalíticos e usa expressões como “fragmentos de memória”, que sua mãe, em italiano, chamava de frantumaglia (Ferrante chegou a escrever um livro de ensaios com esse título).

A entrevista publicada é longa e reveladora em muitos sentidos, uma preciosidade que merece ser lida na íntegra. Recomendo também a leitura da entrevista publicada no New York Times, na qual Ferrante respondeu a perguntas de leitores enviadas por email). Em outra oportunidade, quando questionada novamente sobre o motivo do anonimato, Ferrante respondeu: “Talvez por qualquer desejo neurótico de intangibilidade”.

O poeta italiano Attillio Bertolucci escreveu que não existe presença mais aguda do que a ausência. Elena Ferrante parece concordar: “Estou presente, tanto nos meus romances como nas respostas às suas perguntas. O único espaço onde o leitor deveria procurar e encontrar o autor é o da sua escrita”.

Com um texto como a dela, fica difícil acreditar que não seja o bastante.

 

Nota:  nesta terça-feira, 25 de agosto, A Amiga Genial será discutido no clube de leitura #leiamulheres, que acontece a partir das 19h em São Paulo, na livraria Blooks.

*Imagem: psychic friends, ilustração de whooli chen

Fabiane Secches
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