Matérias

08 de março de 2015

A voz é delas

No ano passado, nesta mesma data, perguntamos a algumas mulheres que admiramos o que elas gostariam de ver em pauta no dia 8 de março (releia aqui).

Queríamos resgatar o significado crítico da data, que acabou se perdendo com o passar dos anos. Relembrando o que diz a Wikipedia: “Nos países ocidentais, a data foi esquecida por longo tempo e somente recuperada pelo movimento feminista, já na década de 1960. Na atualidade, a celebração do Dia Internacional da Mulher perdeu parcialmente o seu sentido original, adquirindo um caráter festivo e comercial. Nessa data, os empregadores, sem certamente pretender evocar o espírito das operárias grevistas do 8 de março de 1917, costumam distribuir rosas vermelhas ou pequenos mimos entre suas empregadas.”

Hoje repetimos a mesma pergunta para outras mulheres. Queremos assim reforçar o direito de falarem por si — neste e em todos os outros dias do ano. Não importa o que a mídia, o governo ou as empresas acham que é relevante estar em pauta hoje. Quem deve ser protagonista desta ocasião, assim como de suas vidas, somos nós mulheres. Ninguém mais.

Beatriz, Camila, Djamila, Flávia, Gabrielle, Gica, Juliana, Liliane, Luíse, Luma, Marina, Mila, Paula, Pétala, Stephanie e Thaís contam para a Confeitaria o que queriam ver em pauta no Dia Internacional das Mulheres.

 

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Ao ouvi-las, gostaríamos de expressar nosso desejo de que todas as mulheres sejam ouvidas.

A intenção é voltar a essa reflexão nos próximos anos. Assim, poderemos também acompanhar as respostas ao longo do tempo, torcendo para que o contexto de injustiças no qual ainda estamos inseridas seja transformado. Torcendo para que possamos, em um futuro próximo, pensar em outras pautas. Ou será que teremos de continuar insistindo na luta por igualdade e direitos tão essenciais?

Quem sabe um dia o aborto seja enfim legalizado e deixe de ser uma questão tão urgente? Quem sabe a gente não tenha mais que falar sobre equiparação salarial, representatividade e respeito? Quem sabe o racismo dê lugar à inclusão e à diversidade?

Queremos acreditar que esse dia chegará. O dia em que feminismo se tornará desnecessário, como na maravilhosa tirinha de Liniers que abre essa matéria — Enriqueta diz à Fellini: “Quando crescer, vou ser feminista. Mas espero que não seja necessário”. Por enquanto, infelizmente, a nossa realidade é essa.

Abaixo, seguem os depoimentos:

 

— O que você gostaria de ver em pauta neste Dia das Mulheres?

 

Beatriz Sequeira, antropóloga:

“O tema que gostaria é: a mulher nas animações, tanto em séries quanto em longas. Como ela se insere nesse mercado, se existem mulheres se destacando no roteiro, direção, coloração, desenho e não só na dublagem. Além disso, entender como houve a mudança, com o passar dos anos, da imagem feminina nesse tipo de produção, como no caso dos últimos desenhos da Disney. Uma exemplo que gostaria de destacar é o Hora de Aventura, que além de trazer temas diferentes de qualquer outro, como diversidade, identidade de gênero etc, traz figuras femininas muito fortes, como a Princesa Jujuba, que já deixou claro em muitos episódios que prefere se dedicar ao seu reino e à ciência a encontrar um marido.”

 

Camila Agustini, roteirista:

“Existem duas pautas que tem me provocado bastante sobre a condição da mulher na sociedade brasileira. Uma é a pouca presença feminina em cargos de criação na indústria audiovisual, o que acaba tendo relação direta com como as mulheres são representadas nos filmes, novelas, séries etc. A outra, que pode parecer “menor”, é sobre o reduzido número de banheiros em eventos culturais. Toda mulher quando sai de casa, seja para um show, uma discoteca ou uma festa de rua, tem que enfrentar a fila do banheiro e muitas vezes condições degradantes como falta de limpeza ou até mesmo se expor fazendo xixi na rua por conta da insuficiência deste tipo de infra-estrutura. Frequentemente me sinto desrespeitada nesse tipo de situação e nunca vi nenhum debate público sobre isso. Estas seriam as minhas pautas hoje!”

 

Djamila Ribeiro, pesquisadora-mestranda da FAPESP e uma das autoras do blog Escritório Feminista, na Carta Capital:

“Acredito que é difícil elencar o que seria urgente — quando falamos de direitos negados historicamente, é sempre urgente. O tempo da justiça é sempre agora. Mas, para listar alguns, diria que é preciso a descriminalização do aborto porque o fato do aborto ser crime faz com que milhares de mulheres morram anualmente no Brasil e, a maioria delas, mulheres negras. De forma geral, precisamos de equidade aliado a transformação de mentalidade da sociedade, trabalhar nessas duas frentes, exigir políticas públicas, de inclusão, ao mesmo tempo que lutamos. Por um modelo transformador.”

 

Flávia Durante, jornalista, DJ e criadora do Bazar POP Plus Size:

“Que as mulheres negras, trans e imigrantes também entrem nas pautas, discussões e fóruns. Se nós — brancas, cis e de classe média — hoje em dia batalhamos por salários iguais aos dos homens, elas nem no mercado de trabalho entraram direito ainda.”

 

Gabrielle Albiero, estudante de jornalismo:

“Existem muitas mulheres incríveis fazendo grandes mudanças em lugares pequenos. Eu gostaria que elas pudessem contar a história delas. Quando essas mulheres são notadas pela mídia, são motivo de críticas. Aqui em Campinas, existe a Dona Carmen, da comunidade Menino Chorão. Pra combater os altos índices de violência contra a mulher, ela conscientizou e empoderou as mulheres da comunidade, que fizeram greves de sexo aos maridos agressores. Eu, como estudante de jornalismo, gostaria que a mídia desse voz a essas mulheres que não tem voz. E o mais importante: com respeito.”

 

Gica Trierweiler Yabu, publicitária:

“Sabe quem eu quero ver na pauta do dia da mulher? Você. Que de um jeito ou de outro contribui para que as pessoas tenham liberdade para definir e desempenhar seus papéis independente do que carregam entre as pernas. Seja homem ou mulher, trans ou cis, am ou fm, bolacha ou biscoito. Continue inspirando outras pessoas com suas atitudes na vida e nas páginas dos meus jornais imaginários.”

 

Juliana Wallauer, publicitária:

“Vamos abolir a pergunta: mas ele ajuda com as crianças? Como assim ajuda, cara pálida? Os filhos são dele também, ele cuida, né? Sim, papel de pai não é provedor apenas, nem tampouco ser a última instância na suprema corte familiar. Pai é co-responsável nessa aventura maluca, o que inclui trocar fraldas, fazer mamadeira, levar na escola e no médico, acordar a noite quando a criança chorar, e tudo o mais que o filho precisar. Sim, pais não são bananas, não precisam de supervisão de mãe, não são ajudantes.  Pra mim não dá para lutar por igualdade de condições no mercado de trabalho sem ao mesmo tempo e com o mesmo afinco batalhar por dividir a responsabilidade e a carga em casa. Senão fica inviável, senão é armadilha.”

 

Liliane Prata, escritora:

“Uma coisa que me entristece é essa pegação de pé em coisas femininas, por exemplo: vira e mexe detonam as publicações femininas, mas nunca vejo alguém falar das masculinas. Pelo contrário, percebo que é até meio cool mulher ler a VIP, por exemplo. Na literatura, romance policial é cool, chick lit é bobagem. No meu entendimento, a futilidade (e o simples e descompromissado lazer) pertencem ao mundo dos dois gêneros. Por que o adjetivo ‘frívolo’, por exemplo, se aplica só às mulheres?”

 

Luíse Bello, diretora de comunicação do Think Olga:

“Eu gostaria de ver um debate mais sério sobre a representação da mulher na mídia. A falta de diversidade, a hipersexualização, o descaso com o intelecto, a gordofobia, o racismo e a exclusão das mulheres de determinados espaços são naturalizados nos meios de comunicação e geram graves consequências na vida pessoal, profissional e na autoestima das mulheres. A publicidade atual, por exemplo, não diz nada sobre quem as mulheres realmente são. Reduzidas a objetos e com aspirações superficiais, as personagens da publicidade instituem massivamente nos meios de comunicação um ideal de beleza e comportamento inalcançáveis. Não é à toa que somos a maioria a sofrer com transtornos alimentares, lotamos os consultórios de cirurgiões plásticos e precisamos nos esforçar muito mais para sermos levadas a sério profissionalmente.”

 

Luma Oliveira, estudante de letras, poeta e educadora popular:

“Eu, enquanto mulher negra e periférica, gostaria que no dia 8 de março estivesse em foco a invisibilidade dada a determinados grupos de mulheres. Afinal, quando falamos em mulheres (no plural) será que realmente estamos pensando em todas? A invisibilidade dada às mulheres negras é uma questão desde os próprios movimentos feministas até a mídia em geral. Dia 8 de março é um dia de luta pelos direitos das mulheres, mas, historicamente, sobre que mulheres todos tanto falam? Queria poder fazer parte não apenas do dia 25 de julho (Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha) e do dia 20 de novembro (consciência negra). Até hoje, sentimos que no dia 8 permanecemos invisíveis e retomamos o famoso discurso de Sojourner Truth (Ain’t I A Woman?), proferido em 1851, mas que permanece em nossas gargantas em 2015: ‘E eu não sou uma mulher?’. Essa é a minha pauta de luta e reflexão para um 8 de março.”

 

Marina Colerato, editora do Modefica:

“Eu gostaria de ver soluções que visam quebrar as barreiras de gênero e mulheres criativas que fazem a diferença para outras mulheres. Creio que por ler tanta coisa ruim diariamente sobre como mulheres sofrem os mais variados e impensáveis tipos de agressão e opressão, nesse Dia Internacional da Mulher eu queria realmente ler coisas boas sobre como, através de projetos, marcas, campanhas, iniciativas, mulheres estão mudando a vida de mulheres pelo mundo afora. Não só para ter um respiro de tantas notícias horríveis, mas também para que, através dessas ações noticiadas e destacadas nesse dia, outras mulheres possam ter interesse de entrar nessa luta.”

 

Mila Coutelo, roteirista:

“Todo ano somos inundadas com pautas clichês sobre o dia das mulheres. Viramos bibelôs, seres frágeis, lindos e engraçadinhos que merecem mimos, flores, bombons e, veja bem, até uma ajudinha dos homens em casa para que possamos descansar e aproveitar o dia vendo filmes de mulherzinha. ‘Como assim você não quer flor? Que mal-humorada. Toda mulher gosta de ser mimada’. O que eu quero é que mulheres sejam ouvidas, de verdade. Que possamos falar, abertamente, sobre aborto, assédio, abuso, mercado de trabalho, salários iguais, autonomia sobre nossos corpos, mulheres trans, empatia, sororidade, padrões de beleza, sem os clichês que nos impõem. Dispenso flores e mimos, quero falar e ser ouvida.”

 

Paula Rizzo, publicitária e criadora do e*ideas:

“Eu acho que seria muito interessante neste dia dar foco para as grandes iniciativas feministas contemporâneas que são inspiradoras e que ecoam nas mais diversas partes do mundo: nas universidades, nas empresas, nas artes e em movimentos sociais. Trabalharia também a questão da representação da mulher no poder mostrando não apenas como estamos longe de uma condição de igualdade, mas tornando mais conhecidas iniciativas bacanas como o Lean In Project da Sheryl Sandberg, COO do Facebook. Olharia de frente para como a mídia representa a mulher hoje e traria para a luz a questão do harassment lit (perseguição, ameaças de estupro, mutilação e morte a jornalistas e blogueiras mulheres), um assunto muito sério. E falaria muito, mas muito mesmo, de como anda a situação no Brasil. Acho que trazer estatísticas atualizadas que possam gerar reflexão seria muito importante. Buscaria na publicidade e nos games uma maneira de classificar as aparições femininas para poder mostrar quantitativamente como são representadas. E colocaria um olho importante sobre como a questão do gênero é tratada nas escolas. Se existe no ambiente escolar tratamentos diferentes para meninos e meninas — de coisas banais como a oferta de cursos extra curriculares (o balé e o futebol), a divisão da quadra nos recreios até a condução de casos de assédio em meninas adolescentes.”

 

Pétala Lopes, fotógrafa:

“A tolerância entre nós mesmas. Vejo mulheres se noucateando por conta dos homens, por causa dos padrões de beleza, por estarem perdidas, alimentando discursos machistas sem ao menos se darem conta. Que cada uma de nós, mulheres, magras, gordas, trans, cis, gays, hts, bis, deficientes, loiras, negras, orientais, cacheadas, lisas,  de qualquer religião, filosofia, cultura, possa se enxergar como irmã da sua congênera e não rival. Que cada uma olhe no olho da outra e se admire, se orgulhe. Nossa sociedade precisa da nossa força, da nossa voz, do nosso guerrear em comum para que cada vez mais  consigamos nos erguer sem culpa e sem medo todos os dias.”

 

Stephanie Ribeiro, estudante de arquitetura e criadora do Afronta:

“A legalização do aborto para mim é o tema mais urgente. As mulheres abortam no Brasil — isso é uma realidade. O problema é que muitas morrem por conta das péssimas condições na realização clandestina do ato. Morrem por que não têm recursos, sendo a maioria pobre — e a maioria também é negra. Nós negras estamos morrendo por conta de uma sociedade patriarcal, machista e católica que se nega a respeitar nossas escolhas. O aborto deve ser legal, seguro e acessível a todas. Por isso é necessário falar disso em todos os espaços!”

 

Thais Fabris, publicitária:

“No Dia da Mulher, não quero uma rosa. Nada contra as flores, pode encher minha casa delas em qualquer dia do ano. No 8 de março, me dê outra coisa. Me dê respeito. Me dê um minutinho do seu tempo para eu falar sobre feminismo. Me dê um espaço nos seus pensamentos para você avaliar os seus privilégios. Me dê a certeza de que vou ganhar a mesma coisa que os homens que trabalham tanto quanto eu, mesmo depois de ter filhos. Me dê espaço para ter e criar meus filhos. Me dê o orgulho de te ver tratar a negra, a pobre, a lésbica, a trans tão bem quanto você me trata. Mas não me dê uma rosa. Quer saber? Não me dê nada. Deixa que eu vou lá buscar.”

 

* Imagem: mural com retratos das entrevistadas, em ordem alfabética (mesma ordem das respostas no texto).

Fabiane Secches
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