Entrevistas

13 de Março de 2015

Adriano Silva

A história de quem conta histórias: Adriano Silva é o criador do Projeto Draft, plataforma que tem como objetivo “cobrir a expansão da inovação no Brasil.” Um projeto de conteúdo, serviços e eventos criado para fazer a crônica da nova economia e dos novos empreendedores brasileiros.

Sobre o tema, Adriano é otimista: “nunca no Brasil houve tanto capital em busca de boas ideias. Nem tantos inovadores com tantas boas ideias prontas para virarem negócios revolucionários, rentáveis, de impacto, sustentáveis — com geração de valor para todos os envolvidos na cadeia de produção e de consumo.”

Por isso, o Draft está interessado em contar histórias de quem se arriscou em novos caminhos. Tanto as histórias bem sucedidas, como aquelas que ainda não deram tão certo assim. “Ambas ensinam muito”, reforça.

Em termos de modelo de negócio, o Draft é um projeto da The Factory, empresa que cria projetos de conteúdo proprietários. Adriano também é sócio da Damworks, focada em conteúdo para marcas.

No Draft, Adriano está em boa companhia: Phydia de Athayde é editora-chefe e Kaluan Bernardo, repórter do projeto (saiba mais sobre a equipe aqui).

Conversamos sobre empreendedorismo no Brasil e um pouco de seu novo livro. Agora é a vez de Adriano dividir um pouco da sua história com a gente:

 

CONFEITARIA – A curiosidade parece ser uma característica que norteia suas escolhas profissionais: a necessidade de investigar, questionar, acompanhar — de ciência a comportamento, como na Superinteressante e na Vida Simples. Qual é o denominador comum entre projetos tão diferentes em que você está ou esteve envolvido?

ADRIANO SILVA – Sou mais preguiçoso do que irrequieto. Não sou um mastigador voraz de informação. E tenho uma curiosidade seletiva. Para ser sincero, sou um late adopter em quase todo campo da minha vida. Música, por exemplo, só escuto de banda velha de uma década. Livros, prefiro os essenciais, o que sobram sobre a peneira. O que considero que são meus pontos fortes? A capacidade de concluir, de achar a síntese, de juntar A com B. A rapidez para decidir e a agilidade na execução. Ter como valor o estabelecimento de relações justas, equilibradas, transparentes e, por tudo isso, sustentáveis. Gosto de criar, de fazer. Tenho um senso de urgência muito grande em relação à obra que eu quero construir. Meu legado. A crônica da minha passagem pelo mundo. E o tempo passa rápido demais. Acho que esses são os denominadores comuns da minha carreira. Em adição a um pragmatismo romântico, a uma filosofia prática, a uma agressividade macia.

 

CONFEITARIA – Você nasceu em Porto Alegre, mas cresceu em Santa Maria, cidade que considera “uma espécie de capital do mundo em versão pocket”. Como foi essa experiência?

ADRIANO SILVA – Nasci em Porto Alegre, mas vivi no interior durante a infância, em especial, em Santa Maria, entre 1976 e 1987 — todo o meu período escolar. Santa Maria, sendo uma cidade universitária, é uma passagem para muita gente. Não é uma cidade, é uma época na vida da gente. Santa Maria é uma experiência — inesquecível, para mim, que vivi lá dos 5 ao 16 anos (agora na Páscoa, minha turma de adolescência vai fazer uma superfesta em Santa Maria — 30 anos de quando tínhamos 15. Festa louca, para dançar Plebe Rude, Depeche Mode, The Cure, essas coisas maravilhosas, até amanhecer. Vale trazer marido ou mulher — mas não vale trazer filho!). Em 1988, passei no vestibular para o faculdade de Comunicação na UFRGS e voltei a Porto Alegre, onde fiquei até 1995, quando viajei ao Japão. Não moro mais no Rio Grande do Sul desde essa época.

 

CONFEITARIA – Você fez MBA na Universidade de Kyoto, no Japão, vivenciando no dia a dia uma cultura tão diferente da nossa. O que foi mais surpreendente nessa experiência?

ADRIANO SILVA – A melhor coisas que alguém com menos de 30 anos, sem filhos, pode fazer por si mesmo se tiver condições é passar um tempo consistente vivendo, estudando ou trabalhando, em um contexto diferente do nosso. Isso nos dá perspectiva, testa nossas verdades e amplia nossa visão e nossas possibilidades. Fui bolsista do Monbusho, o Ministério da Educação japonês, entre 1995 e 1997. A KyoDai, Universidade de Kyoto, rivaliza com a de Tokyo, a ToDai, pelo posto de melhor instituição de ensino japonesa. A cada 10 anos, volto para lá (já está na hora de ir de novo!). Foi por ir ao Japão pensando em virar executivo e nunca mais voltar ao Brasil que acabei virando jornalista e voltando ao país. A vida é imprevisível. Por isso, é tão legal estar vivo. Basta se manter em movimento que as coisas em volta acontecem.

 

CONFEITARIA – E hoje qual é a sua relação com São Paulo, cidade onde vive desde 1998?

ADRIANO SILVA – São Paulo é minha casa. São Paulo me recebeu muito bem. É uma cidade de imigrantes, a única cidade cosmopolita brasileira. Ser paulistano é viver, trabalhar e pagar seus impostos em São Paulo — não é exatamente ter nascido aqui. Poucas cidades no mundo têm essa grandeza. Um dia vou sair daqui, porque viver aqui é muito caro. E eu adoro estar mais perto do mato, de água, do mar, da natureza. Mas, por enquanto estou, desde 1998, portanto há 17 anos, construindo uma relação bacana de give’n’take com São Paulo.

 

CONFEITARIA – Depois de estar à frente de projetos grandes na Globo e na Abril, por que escolher a internet como ponto de partida para o Projeto Draft? Faz sentido que esse seja o ambiente para falar sobre projetos que nasceram essencialmente na internet, ok. Mas de onde veio a ideia de olhar para essas pequenas iniciativas, estando ligado a projetos tão grandes? 

ADRIANO SILVA – Tive uma passagem consistente pela mídia impressa, na Abril. Passei pela Exame, pela Superinteressante, dirigi o Núcleo Jovem. Lancei Mundo Estranho, Vida Simples, Aventuras História, Revista das Religiões. E tive uma passagem rápida pela mídia eletrônica, na TV Globo, em 2007. De volta a São Paulo, em 2008, saí da vida executiva, caí no empreendimento, fundei a Spicy Media e trouxe o Gizmodo ao Brasil – o maior blog do mundo, no auge da blogosfera. Agora, finda cláusula de não-competição do contrato de venda da Spicy Media, volto ao mercado editorial com a The Factory — cujo primeiro produto é o Projeto Draft. O Draft tem uma missão simples: contar a história de quem está fazendo para inspirar e instrumentalizar outras pessoas a fazer também. Queremos dar visibilidade aos aos inovadores e gerar repertório e referência, por meio da crônica de histórias de negócios criativos, para que outras pessoas possam empreender e inovar também. Esse é o nosso papel nesse ecossistema.

 

CONFEITARIA – Em janeiro deste ano, o Draft publicou o artigo “Me deixem ser pai da minha filha”, de Rodrigo Padron. Nele, Rodrigo diz: “os homens, penso que terão de ajustar seus modelos de vida, dedicando mais tempo aos filhos, e incluindo em suas rotinas funções que contribuam para o desenvolvimento deles”. Empreender foi uma decisão que ganhou força com a paternidade e o desejo de estar mais presente na vida de seus filhos? Ou as duas coisas aconteceram de forma independente?

ADRIANO SILVA – Vieram, para mim, de forma independente. Mas suas verdades, muitas vezes conflitantes, em minha vida: a sede de realizar e a vontade de estar mais, com tempo de qualidade, com a família.

 

CONFEITARIA – E como você vê este novo momento de empreendedorismo no Brasil?

ADRIANO SILVA – Estou muito entusiasmado com a nova economia brasileira. O aspecto institucional do país continua muito hostil aos negócios e à inovação. Mas isso não tem força suficiente, embora atrapalhe muito, para brecar a emergência dos empreendedores criativos, dos negócios sociais, do ecossistema das startups, da inovação corporativa. As grandes revoluções são aquelas que fazemos em nosso dia a dia. Portanto estamos, sim, no meio de uma revolução muito positiva no Brasil. Estou muito feliz de fazer parte disso e dando minha contribuição, com o Draft.

 

CONFEITARIA – Você comentou que acabou de lançar um livro novo. Pode contar um pouco para a gente sobre o livro e o seu processo de escrita?

ADRIANO SILVA – Lancei o Executivo Sincero em dezembro, pela Rocco. São “revelações subversivas e inspiradoras sobre a vida nas grandes empresas”. Em 120 e poucos textos, curtos e radicalmente sinceros, conto tudo o que vi e vivi como executivo em grandes corporações. Questiono o quanto estamos dispostos a pagar para manter tudo o que conquistamos etc. Escrever é a minha essência. Se pudesse, faria só isso da vida. Literatura, das 7h às 20h.

 

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Fotografia: Renato Parada.

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Fabiane Secches
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