Entrevistas

16 de abril de 2014

Alexandra Moraes

Em 2009, a jornalista Alexandra Moraes criou a série de quadrinhos O Pintinho, que traz diálogos divertidos e afiados entre mãe e filho: uma galinha indolente e de um pintinho insolente. A técnica? Ilustração em Paint Brush, um dos programas mais básicos de edição de imagem (lançado em 1985). Mas, se a técnica é limitada, o humor e a inteligência de Alexandra são dos mais brilhantes. O Pintinho consegue, a um só tempo, ter uma linguagem descomplicada e divertida, com timing de internet, sem, no entanto, ser óbvio ou superficial.

O Tumblr do Pintinho, que Alexandra começou um ano depois, tem mais de 30 mil seguidores. Hoje, além de publicar semanalmente na Folha de São Paulo (onde também trabalha como editora adjunta da Ilustrada), as tirinhas estão reunidas em duas coletâneas editadas pela Lote 42 (volume 1 e 2).

Somos fãs da Alexandra e de O Pintinho e é uma alegria trazer esta entrevista aqui na Confeitaria contando um pouco mais sobre a história por trás das divertidas tirinhas, as suas referências e inspirações.

 

CONFEITARIA – O Pintinho surgiu da sua própria experiência como mãe? 

ALEXANDRA MORAES – Um pouco, sim, mas mais pelo fato de a maternidade, como qualquer experiência nova, ter trazido um monte de questões irrespondíveis, que muitas vezes se revelam engraçadas, curiosas, nonsense… mas que, em muitas outras situações, dá é vontade de chorar. Pra mim, teve esse escape pelo riso, através da imaginação de uma outra relação mãe-filho com outras questões e outras neuroses. 

 

Antes você já tinha se arriscado no mundo das tirinhas? Como começou a sua relação com essa linguagem?

Sim, eu fiz as primeiras quando tinha 11 anos. Eu fazia um jornal pro meu cachorro, um poodle muito mal-humorado chamado Billy, infelizmente já falecido, o Billyork Times. Eu fazia os classificados, as notícias e os quadrinhos, umas ilustrações em que ele sobretudo era responsável por vender uns salgadinhos de bacon… eu não lembro direito, mas eu comecei a fazer na mão e no segundo ou terceiro número migrei pro computador, e foi ali que eu comecei meu negócio com o Paint. Muito mais tarde, quando eu tinha blog, fiz uma série de tiras sobre gatos. Era a época de ouro da adoção de animais… bom, sempre tem os bichos envolvidos.

 

E quais são suas tirinhas preferidas hoje, no Brasil e no mundo? Quais você mais gosta de ler?

Eu sou muito fã do Níquel Náusea, do Fernando Gonsales, um mestre absoluto que entrega uma piada boa por dia nas tiras que ele publica na Folha. Eu acho o Gonsales uma referência e o admiro profundamente. Gosto muito de uma série de um cara chamado Neil Swaab, a Mr. Wiggles. Ele parou de fazer no ano passado, mas é muito bom. Gosto muito do xkcd, do Toothpaste for Dinner, e do pessoal mais sério, né, Chris Ware.

 

Como foi pra você ver as suas tirinhas reunidas em um livro (e agora no segundo)? A sensação é muito diferente do Tumblr? E do jornal? A relação das pessoas com O Pintinho é diferente em cada meio?

Cada um, no jornal, no livro, é um novo frio na barriga… eu acho que no Tumblr, no Facebook do Pintinho já são pessoas que conhecem e têm uma certa boa vontade com as tiras e os personagens. Fora desse ambiente tem uma recepção mais crua, mas muito interessante também. Mas quem gosta gosta, a risada é a mesma em qualquer suporte.

 

Além da maternidade, as tirinhas conseguem abordar questões políticas de maneira divertida e fazer críticas consistentes através da dicotomia conservadora-esquerdista que existe na relação entre mãe e filho. A política também é um assunto pelo qual você sempre se interessou ou utilizá-la nas tirinhas é apenas mais uma forma de abordar as diferenças entre os personagens?

Eu gosto de política e eu tendo à chatice, então por isso às vezes os diálogos entre os dois trilham uns caminhos que pelo amor de Deus… mas é claro que tudo isso serve pra sublinhar essas diferenças.

 

Conte um pouquinho pra gente sobre o subtítulo do novo livro, Para Sempre Classe Média?

Eu coloquei esse subtítulo porque resume um pouco a ideia, talvez errada, de que esse problema chamado classe média está muito mais entranhado na gente do que muitas vezes gostaríamos de admitir. Eu particularmente não vejo demérito na “classe média”, mas o pessoal parece não gostar muito… Ao mesmo tempo, é só uma situação de “normalidade”, não há nada de mais em ser “médio”, e o espírito da tira é um pouco esse: estamos aqui levando nossa vida normal e com questões normais sobre ser dolorosamente normal.

 

Como você apresentaria o personagem Zé Sexo? Por que ele entrou nas tirinhas?

O Zé Sexo na verdade é um dos personagens mais antigos do Pintinho, mas não tinha entrado na seleção anterior. Ele é um homem de artes hiperbólico e largamente estatal. Eu queria uma voz que falasse em caixa-alta, e ele é essa voz. O nome tinha sido cunhado pelo Marcelo Ferlin, que é escritor, numa conversa. Dei o rosto a ele. Abracei a causa e o Zé Sexo.

 

Você contou que muitos dos diálogos de O Pintinho foram tentativas de imaginar como seriam seus diálogos com seu filho, e que alguns acabaram se tornando realidade quando ele cresceu. Isso continua acontecendo? 

É frequente. É meio bobo, mas eu estava mesmo imaginando um futuro hipotético. Eu era otimista por considerá-lo só hipotético… Essa percepção aguda das crianças é uma boiada que, uma vez solta, é difícil segurar.

 

Uma das minhas tirinhas preferidas do novo livro é A Sabatina — eu não sou mãe, mas sou filha, e me parece que toda mãe não escapa de uma boa sabatina na vida. Qual a pergunta mais difícil que o seu filho já te fez?

Todo dia tem uma nova. Ontem foi: “Por que a Turma da Mônica fica sozinha? Por que os pais nunca estão com eles? Por que os adultos ficam em casa e eles ficam na rua?”. Eu tentei explicar que se os pais estivessem por perto as histórias basicamente não existiriam, mas me fez perceber que eu fiz uma tira em que a criança está quase sempre sob supervisão estrita de um adulto. Talvez eu seja muito autoritária? Não sei! Ou é uma limitação espacial mesmo… Acho que criei uma tirinha de apartamento.

 

E como é a relação do seu filho com as tirinhas? Ele já acompanha?

Haha, não, graças a Deus. Ele lê algumas coisas, folheia o livro de vez em quando, mas não tem tanto interesse. O que ele me cobra mais é pra dar um exemplar autografado pra ele, coisa que meio desnaturadamente, meio com vergonha, não fiz até hoje. Mas já fico tranquila de saber que pelo menos ele sabe desenhar, não vai cometer os mesmos erros que eu.

 

Você tem uma tirinha preferida de O Pintinho? A minha é a clássica da galinha que é contra o capitalismo porque se esqueceu de pagar a conta e ficou sem luz.

Também gosto dessa! Gosto daquela dos limites do humor que colocamos na contracapa (do volume 2), a da marcha contra o açúcar, em que a Dona Pinta/Galinha pede pro Pintinho trazer sorvete na volta. Gosto de quando o Zé Sexo vai na loja comprar um ventilador, uma das inéditas que estão nesse (segundo) livro…

 

Por fim: tem alguma pergunta sobre você ou sobre O Pintinho que ninguém tenha feito e você gostaria que fizessem? Ou alguma curiosidade sobre a tirinha que você possa dividir com a gente?

Da primeira vez que eu fiz O Pintinho, era um monte de galinhas e um monte de pintinhos, como se fosse uma granja, e chegava uma galinha mais metida… daí isolei os dois, galinha e pintinho, e ficou sendo esse suporte pra diálogos no qual eles se transformaram hoje.

 

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Página do Pintinho no Facebook: facebook.com/opintinho

Para comprar os livros: www.lote42.com.br/pintinho

 

Fabiane Secches
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