Entrevistas

19 de março de 2015

Ana Guadalupe

Ana Guadalupe nasceu em 1985 em Londrina, no Paraná. Estudou letras na Universidade Estadual de Maringá e mora em São Paulo há quatro anos. Seus poemas estiveram em publicações no Brasil, Espanha, Chile, México e Estados Unidos e antologias como Otra Línea de Fuego, 101 Poetas Paranaenses, Cityscapes e Amor; Pequenas Estórias. Em 2011, publicou Relógio de Pulso pela editora 7Letras e agora escreveu Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista, em coautoria com a fotógrafa Camila Svenson.

Ana publicou algumas vezes na Confeitaria como autora convidada — desde que conheci seus poemas, nunca deixei de acompanhar seu trabalho (e seus tweets) com entusiasmo. Não é segredo: sou fã convicta.

Hoje, em um momento mais maduro, ela tem conseguido abordar os temas mais improváveis — e também aqueles mais universais — de uma maneira única: há um certo cinismo, embora esta não me pareça uma palavra justa, e a ironia tem o contraponto de uma ternura inesperada. É justamente nesse encontro que sua obra se torna tão significativa para mim. Poucos poemas conseguem de fato me emocionar — com a Ana, isso acontece com uma frequência bem acima da média. Uma quantidade bastante menor consegue me fazer rir — com a Ana, vou da lágrima ao riso sem dificuldades.

Mais de uma vez disse a ela que seus poemas me fazem pensar em Nathalie Quintane, poeta francesa que possivelmente é minha autora contemporânea favorita de poesia. Mas a verdade é que Ana deve despertar sensações parecidas em seus leitores: seus poemas têm uma estranheza particular e ao mesmo tempo trazem algumas das nossas melhores lembranças em relação ao gênero.

Em Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista, pudemos trabalhar de perto. Embora tudo pareça muito simples em sua obra, há uma sofisticação de pensamento e de elaboração que poucas vezes pude presenciar. Que privilégio poder existir no mesmo tempo e espaço que uma autora com seu talento. E que privilégio imenso, imensurável, poder editar seu segundo livro e participar de alguma forma desse processo.

“Mexia em livros de poesia que meus pais tinham em casa quando era criança. Depois, na adolescência, tive uma amiga que escrevia e também me influenciou — mas só percebi essa influência recentemente. Comecei a escrever poemas muito ruins aos 13, 14 anos e fui emprestando livros etc. Durante a faculdade de letras, fiz um estágio de dois anos na Biblioteca Municipal de Maringá e foi nessa época que comecei a ler e escrever mais”, contou ela em outra entrevista recente que fizemos, publicada no Think Olga. “Raramente sinto um ‘chamado da inspiração’ ou uma vontade muito forte de escrever, como se tivesse alguma mensagem pra ‘colocar pra fora’ (invejo), mas às vezes penso numa frase e tento desenvolver a ideia depois. Ou me obrigo a fechar o navegador e escrever alguma coisa. Acho que a internet distrai demais. Em Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista, foi totalmente diferente: tínhamos prazos, a ideia central do diálogo entre fotos e poemas e minha vontade de escrever sobre temas novos. Esse compromisso e as fotos da Camila Svenson, que são muito boas, ajudaram muito.”

Conversei com a Ana sobre poesia, literatura e o livro novo:

CONFEITARIA – A rima faz parte do universo infantil, das histórias, livros, brincadeiras. Você se lembra da primeira poesia que leu? Que memória mais remota você tem desse universo?

ANA GUADALUPE – Acho que era muito nova, mas lembro de ler poemas até nos livros didáticos do primário, daquela coleção ALP. Tinha o Porquinho-da-Índia do Manuel Bandeira, que até hoje adoro, e um que falava que todas as meninas deviam se chamar Maria (?), que não sei mais se era dele também. E minha memória mais remota de poesia é ver uns livros bem curtos, pequenos, mas com conteúdo “misterioso” na estante de casa.

CONFEITARIA – Também gosto muito de Porquinho-da-Índia. Tenho esse poema em uma antologia infantil do Manuel Bandeira, um livrinho de que gosto muito, mas que sempre me faz pensar. Será que poemas como este chegam de fato às crianças? Ou são poemas que só quem já passou pela infância pode entender de verdade. Como criança, Manuel Bandeira já “conversava” com você?

ANA GUADALUPE – Entendo o que você diz. Acho que minha compreensão era infantil e meio superficial, claro, mas lembro de conseguir entender que ele comparava a namorada ao porquinho. E conseguia captar a ternura do poema. Acho que o Manuel Bandeira conseguia conversar comigo, sim.

CONFEITARIA – Adorei também que você disse “conteúdo misterioso”. Na poesia, a conversa acontece em outro lugar e de outra forma. Você acha que as crianças podem lidar melhor com esse lado “misterioso” do que os adultos?

ANA GUADALUPE – Acho que a poesia pode chamar a atenção das crianças por isso. Lembro que eu estava acostumada com narrativas, mas também com aqueles livrinhos infantis que são quase em verso. Quando vi poesia “adulta”, não me pareceu tão assustador ou distante, mas ainda era outra coisa. Acho que aprendi a ler alguns poemas sem tentar entender completamente, meio que só gostando dos sons e trechos do conteúdo, e acho isso bom. Eu também era meio “pretensiosa” quando criança, então pensava ser grande o bastante pra ler e entender tudo, mesmo quando não entendia nada. Com prosa acho que isso não funciona, mas com poesia, sim. Hoje vejo adultos dizendo que não “conseguem entender” poesia, mas acho que não é necessário “entender” sempre.

CONFEITARIA – A poesia tem mesmo essa licença, não é? Quase como uma pintura ou escultura. Algo nos escapa e ainda assim a gente pode comover e admirar. Há que suportar um não-saber. Mas vivemos em um mundo bastante racional e talvez por isso ainda exista esse impasse. Será que precisamos da poesia pelo mesmo motivo que não a acessamos completamente pelas vias de compreensão corriqueiras?

ANA GUADALUPE – Perdi a conta das vezes que vi alguém dizendo que não gostava tanto de poesia porque não conseguia acompanhar o raciocínio. Esperando uma narrativa, mesmo. Parece bobo, mas acontece muito. Já eu gosto por isso mesmo, porque às vezes parece não ter sentido e faz umas voltas que você não esperava. Mas nem eu defendo aqueles poemas herméticos, muito distantes. Não sou tão apaixonada pelo gênero a ponto de gostar de tudo.

CONFEITARIA – Você conseguiria dizer quais são os seus três poemas favoritos — ou três poemas que significam muito pra você?

ANA GUADALUPE – Não saberia citar três poemas preferidos de todos os tempos. Não gosto mais de muita coisa que gostava quando era mais nova, faz alguns anos que estou lendo e relendo. Tenho gostado muito dos poemas de O Poeta de Pondichéry, da Adília Lopes, principalmente aquele que fala das unhas. Na faculdade, li um do Mário Cesariny que me marcou, chamado Salvados do Incêndio do Castelo do Almirante Wolf. E sempre cito Emílio ou da Educação, do Waly Salomão.

CONFEITARIA – Desde sempre a poesia foi o seu caminho na literatura? Ou já ensaiou algo em prosa também? 

ANA GUADALUPE – A prosa veio primeiro! Até os 12, 13, só escrevia uns projetos de contos e “prosa poética”. E na escola somos mais encorajados a escrever prosa, né? “Crie uma história”, redação de “Como foram suas férias”. Depois percebi que me sentia melhor escrevendo poesia. Hoje, tenho vontade de escrever prosa, mas também quero ler mais, estudar mais. Já li mais prosa, hoje em dia leio bem menos do que gostaria. E acho que deveria ler umas cinco vezes mais. Por gostar tanto de poesia, acho que estranho um pouco quando volto pro romance, por exemplo. parece tudo um pouco “correto” ou burocrático demais, nem sei como explicar. O trabalho do autor pra apresentar um personagem, o cenário e os conflitos. Mas claro que existem romances bem caóticos e inventivos que não têm esse jeito.

CONFEITARIA – Existe um imaginário tão forte sobre a relação entre bibliotecas e escritores. Como foi a experiência de trabalhar na Biblioteca de Maringá? 

ANA GUADALUPE – Tive vários cargos na Biblioteca Pública de Maringá. Fiquei um tempão atendendo o público e era muito legal ver (ou achar que) que os adolescentes mais “rebeldes” procuravam minhas dicas de leitura (que também eram de adolescente, já que eu tinha 17, 18 anos) e ajudar as crianças que faziam pesquisa pra escola. Nessa época, li muito de tudo e arrumava as estantes diariamente com um fascínio bem sincero. “Nossa, quanto livro, quanta coisa pra ler.” Depois, numa fase de conflito com a chefe, fui transferida e fiquei um tempo numa mesa em que minha única função era conferir se a carteirinha de cada usuário que passava pela roleta estava corretamente guardada e preenchida dentro do livro emprestado. Por fim, trabalhei num setor interno de catalogação e reforma de livros que chegavam nas doações. Quando o tempo máximo do estágio acabou, pensei em fazer concurso ou estudar biblioteconomia. Guardo ótimas lembranças.

CONFEITARIA –  Sua relação com a internet me parece muito próxima, especialmente com o Twitter — agora até com um projeto relacionando tweets com poemas, criado pelo b_arco, o Poetweet. Sempre foi assim?

ANA GUADALUPE – Não sei se é o momento de “revelar” que fui ter computador em casa muito tarde, só aos 18 anos. No início da adolescência, usava a internet de vez em quando na casa dos amigos, então tive pouco contato com o começo dos blogs, dos webzines, a época do IRC, que pena. Cheguei tarde super empolgada pra fazer tudo e acho que minha “paixão” pelas redes sociais começou desse jeito triste. O Twitter foi bem especial na minha vida nos últimos anos. E achei esse projeto do b_arco bem inteligente, porque o mecanismo encontra rimas e palavras muito engraçadas no meio das coisas que você tuitou.

 

 

CONFEITARIA – “Escrever é cortar palavras” — a frase de Drummond faz sentido pra você como autora de poesia?

ANA GUADALUPE – Acho que sim. É uma espécie de jogo, né? Um puzzle de encaixar as coisas, ver como fica, não gostar, mudar tudo…

CONFEITARIA – Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista é o seu segundo livro publicado. Qual é a sensação de “eternizar” os poemas no papel?

ANA GUADALUPE – O impresso me assusta um pouco com isso de não poder editar, mudar alguma coisa de última hora. A sensação é muito boa de um jeito muito sério. Sempre fico pensando “será que esse poema ficou bom o bastante pra gastar papel?”. Espero que sim.

CONFEITARIA – Você tem uma fotografia preferida no livro? E depois de vê-lo pronto, qual conjunto de fotografia + poema te comoveu mais?

ANA GUADALUPE – Minha foto preferida é a do menino de bermuda e chinelo, na página 18. Já o conjunto, acho que é o do poema O Esquecimento com a foto dos bancos vazios.

 

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Imagem: Pétala Lopes para a Confeitaria

Para saber mais sobre a autora, acompanhe o seu perfil no Twitter.

Página do evento: Noite de Autógrafos + Exposição de Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista — dia 19/03 (quinta-feira), às 19:30h, na Livraria Blooks (Shopping Frei Caneca), em São Paulo.

 

Fabiane Secches
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