Textos

31 de outubro de 2012

Apenas uma carta de amor

Dizem que geografia é destino. Pois bem.

Por um desses caprichos da vida, eu, bisneta de italianos, neta e filha de paulistas, fui nascer em uma cidadezinha de Minas Gerais — a única mineira da família.

Na pré-adolescência, um livro da pequena biblioteca dos meus pais ganhou a minha atenção: Amar se Aprende Amando é um título que nem precisa pedir para sair da estante, ainda mais quando você está, de fato, aprendendo a amar pela primeira vez.

Perdi a conta de quantas vezes o reli. Talvez tenha sido aí que começou a nossa história. Não a minha história com o garoto com quem trocava cartas e dançava nos bailinhos, mas a minha história com esse autor que é parte essencial da cultura brasileira, como com o seu célebre poema E agora, José? ou o belo A Flor e a Náusea.

Eu, que na época não era exatamente uma pessoa de poesia, me tornei definitivamente uma pessoa de Drummond.

Cresci na minha própria Itabira, onde devagar as janelas olham. Aprendi que o mundo é grande, mas às vezes cabe no breve espaço de beijar. Descobri, quase enquanto o lia, que “namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar”. Não muito depois entendi que “há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la”.

Foi cedo também que percebi que tinha apenas duas mãos e todo sentimento do mundo. E que “Tinha uma pedra no meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra.”.

Mais tarde, Drummond chegou de surpresa no meu vestibular:  seu poema Infância foi tema de uma das redações.

 

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho, menino entre mangueiras

lia história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

 

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu

chamava para o café.

café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom

 

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

— Psiu… não corde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito

E dava um suspiro… que fundo!

 

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

 

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

 

Sorri ao reencontrá-lo e ao reencontrar um pouco de mim. Entrei na faculdade e mudei para São Paulo, deixando para trás a minha própria infância e a nossa Minas Gerais. Mas Drummond me acompanhou. Durante a faculdade, terminando um de escrever um de meus romances (todos de gaveta), foi ele quem me trouxe o epílogo e o afago: “Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.

Foi através dele, aliás, que conheci a lição talvez mais preciosa desse ofício a que, de vez em quando, me atrevo: escrever é cortar palavras.

Drummond contou que, não tendo nenhuma ambição literária, foi mais poeta pela necessidade de exprimir sensações e emoções que lhe perturbavam o espírito e causavam angústia. Pelos mesmos motivos, reconheci: então é por isso que escrevo.

Ele continuou me presenteando com seus bons conselhos, embora não se ache em condições de dar conselhos a ninguém, nem a si mesmo: “Escolhe teu diálogo e tua palavra ou teu melhor silêncio. Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos”.

A vida adulta me transformou numa leitora mais entusiasmada. A essa altura, Drummond já disputava espaço em mim com tantos novos livros e autores. Mas tenho por ele um afeto único e uma lealdade feroz — ai de quem o desdiz perto de mim.

Somos muito mais do quem par de escritor e leitora.

Somos conterrâneos, e não apenas de Minas Gerais.

É ele quem me conforta quando preciso parar o mundo e experimentar por algum tempo a sensação de inexistência: “A vida necessita de pausas”.

É com ele que divido a minha indignação: “Difícil compreender como no vasto mundo falta espaço precisamente para os pequenos.”

É ele quem me compreende: “A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.”

É ele quem me empresta as palavras quando penso nesse meu lugar entre, incapaz de escolher um ou outro: “No elevador penso na roça, / na roça penso no elevador.”

Foi ele quem, durante meus tempos mais obscuros, me trouxe de volta. Eu me lembro como se fosse ontem do efeito que a releitura desse trecho de Os Ombros Suportam o Mundo surtiu em mim:

 

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossege

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

Como se pode perceber, esse texto em homenagem ao seu 110º aniversário é pequeno e íntimo, sem pretensão de ser um apanhado sobre a riqueza de sua obra ou sobre a biografia do autor.

Esta homenagem é, antes, um pouco da minha biografia — e apenas uma carta de amor.

Agradeço a Drummond por se tornar parte de quem sou, e por fazer com que ser quem sou tenha se tornado menos solitário desde que o conheci. Afinal, foi ele quem disse, não foi?

A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, que gosta de música, de ler, nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos.

Você, Drummond, é a minha companhia certeira enquanto eu durar.

 

Eterno

 

E como ficou chato ser moderno.

Agora serei eterno.

 

Eterno! Eterno!

O Padre Eterno,

a vida eterna,

o fogo eterno.

 

(Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.)

 

— O que é eterno, Yayá Lindinha?

— Ingrato! é o amor que te tenho.

 

Eternalidade eternite eternaltivamente

eternuávamos

eternissíssimo

 

A cada instante se criam novas categorias do eterno.

 

Eterna é a flor que se fana

se soube florir

é o menino recém-nascido

antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero

é o gesto de enlaçar e beijar

na visita do amor às almas

eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo

mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma

[força o resgata

é minha mãe em mim que a estou pensando

de tanto que a perdi de não pensá-la

é o que se pensa em nós se estamos loucos

é tudo que passou, porque passou

é tudo que não passa, pois não houve

eternas as palavras, eternos os pensamentos; e

[passageiras as obras.

Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um

[mar profundo.

Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos

[afundamos.

É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.

Eternos! Eternos, miseravelmente.

O relógio no pulso é nosso confidente.

 

Mas eu não quero ser senão eterno.

Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma

[essência ou nem isso.

E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde

[pousou uma sombra

e que não fique o chão nem fique a sombra

mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma

[esponja no caos

e entre oceanos de nada

gere um ritmo.

 

* Imagem: CPDoc JB

Fabiane Secches
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