Textos

08 de setembro de 2014

As coisas estão no mundo

Eu sabia pouco sobre Marilá Dardot, premiada artista mineira, até o último sábado, quando fui visitar a Galeria Vermelho. Entrei para ver a exposição individual de Rosângela Rennó, mas me surpreendi com as peças de Dardot.

As coisas estão no mundo é um conjunto de obras sensível e bem humoradaUma tonelada e meia de papel utilizada em testes de impressão offset foi distribuída em 20 pilhas e recortada formando letras-esculturas que formam o título da mostra. A artista usa o material descartado “para reafirmar que, como tudo mais que nos cerca, a arte está no mundo e existe como objeto de percepção humana”.

O objeto de Marilá Dardot costuma ser a linguagem: é dela A origem da obra de arte (Inhotim), na qual as pessoas interagem com vasos em forma de letras, cada um criando suas palavras/frases. Virou febre no Instagram, mas me parece justo dizer que sua obra é acessível de maneira positiva.

Minha biblioteca (foto) é uma coleção de capas de livros dispostas de forma geométrica. Foi sua maneira de pensar esses livros publicados em idiomas que não lia. Tornaram-se, portanto, objetos de conteúdo misterioso, onde formas e cores poderiam lhe comunicar mais do que as palavras. Em Cores, Nomes, temos um conjunto de pequenos poemas sobre as cores, apresentados em quadros pintados com guoache do mesmo tom. Meu preferido: “A dark grey. A very dark grey. A quite dark grey is monstrous ordinary” (algo como: “Um cinza escuro. Um cinza muito escuro. Um cinza realmente escuro é monstruosamente ordinário”). Há também Silêncio, coletânea de quadros com palavras gravadas em relevo no papel — uma marcação tão leve e camuflada que mal pode ser lida.

Comecei dizendo que conhecia muito pouco sobre Marilá Dardot antes do último sábado. É um conforto perceber que há muito mais a conhecer. Mas que bom descobrir uma artista contemporânea que tem voz e também algo a dizer.

 

* Observação: A exposição começou no dia 22 de agosto e fica na Galeria Vermelho até dia 13 de setembro. Fica na rua Minas Gerais, 350, em Higienópolis. Dá para esticar na banca Tijuana Vermelho, que tem publicações independentes muito legais.

Fabiane Secches
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