Textos

20 de janeiro de 2014

Betina

Não sou mãe. Escrevo estas palavras sabendo que estou mentindo.

Talvez algumas mães de humanos se sintam ofendidas com a minha constatação. Mas não todas. Há gentes e gentes no mundo.

Pois eu sou mãe de duas gatas (agora, três).

E perdi uma delas no final de 2013: Betina, de seis anos. A mais velha.

Betina chegou em um dos momentos mais difíceis da minha vida. Nela, atraquei meu navio — atracamos, uma na outra.

Éramos, as duas, diferentes. E nos entendíamos também por isso. Podíamos apenas ser, sem regras ou horários. Sem manuais de pessoas ou de gatos.

Houve tanto respeito, tanto companheirismo e tanto, tanto amor.

Houve é um verbo conjugado no passado e tudo que eu mais queria é que ainda fosse presente. Que sua vida preciosa não tivesse sido abreviada. Que eu a encontrasse de novo quando chegasse em casa.

Vou usar o presente, então: há tanto, mas tanto amor. E haverá, para sempre, minha querida Bê.

Dizem que nunca nos esquecemos das principais histórias, que elas ficam com a gente enquanto a memória também ficar. Mas não quero me lembrar apenas dessas. Isso não basta.

Vivemos um amor de seis anos, todos os dias. Cheio de detalhes, dias comuns, apressados e desajeitados. Dias tristes e dias sem graça. E, mesmo neles, encontrávamos momentos de abrigo. Mais eu do que você, que sempre teve tanta sabedoria em sentir o que realmente importa: o carinho no pescoço. O sol na varanda. As brincadeiras com seus peixinhos de tecido. O vento batendo nos seus pelinhos cinzas, quase brancos. As sonecas na companhia da irmã Magali. As lutinhas com ela. O atum que o Thiago dava tarde da noite, ou no começo do dia.

Minha vida era mais complicada antes. Eu era infinitamente mais complicada, mas você me trazia de volta. A gente deitava juntas — na cama, no sofá, no chão da sala ou da varanda — e eu ia para um outro lugar. Era o nosso mundo.

A gente dançava Nouvelle Vague e você relaxava todo seu corpinho, deixava as patinhas bem esticadas, e me olhava com seus lindos olhos verdes como quem enxerga de verdade.

Você bocejava e eu podia ver a pinta escura que você tinha no seu céu da boca clarinho.

Você foi operada e eu acompanhei cada dia de cicatrização da sua pele rosinha e delicada.

Você me deixava ver todos os seus dentes, tão pequenininhos e separados na frente.

Você gostava de água, até de banho, e adorava ficar comigo enquanto eu tomava os meus.

Você era sempre cheirosa, mesmo que eu pedisse que não lhe passassem perfume.

Você não ficava brava se tomava injeção, adorava passear de carro, explorar o corredor e ir ao pet shop no colo. Não tinha medo de nada — de trovão, de estranhos, de novidade. Todo o mundo era diferente, mas também igual, pra você. Todo o mundo era seu.

Você nunca usou o arranhador, mas gostava de afiar a unha no deck da varanda. E no nosso sofá. Agora, ex-sofá. O novo não deu tempo de você desfiar, e eu sempre vou gostar menos dele por isso.

Você sempre se molhava quando tomava água. Uma gatinha alta e magra, esbelta e atrapalhada.

Você nunca teve ciúme da Magali, e parecia entender que ela precisava de mais atenção — sem nunca se ressentir por isso.

Você parecia tão independente, mas era só a gente ir se deitar e escutava um miado alto e choroso vindo da sala.

Você adorava caixas e sacolas — e nisso era parecida com todos os gatos.

Sempre achei que você gostava de música, mesmo que dissessem que você não ouvia. E também da luz do abajur do quarto.

Você dava piscadelas lentas e sonolentas quando se sentia bem — e como fazia isso sempre, fico com palpite e o conforto de que você foi feliz.

Acho que você não gostava de Anaïs Nin, já que sempre implicava com o livro dela que, por acaso e não por amor, ficava na cabeceira. A droga do livro continua lá: a capa e as primeiras páginas amassadas me lembram de você, e talvez eu o mantenha por perto apenas por esse motivo.

Se eu encostava a porta do quarto para me ver no espelho que fica atrás dela, você a abria sozinha. De pé e, com seu pouco peso (que não passava dos 3,5 ou 4 kg), conseguia abrir a fresta suficiente para entrar. Ficava ali, ao meu lado, olhando como se maravilhada. E eu me sentia bonita como poucas vezes.

Você sabia não miar, mas gritar, e muitas vezes a gente temeu os vizinhos. Mas eles que viessem, eles que viessem. Eu perdi muitas noites de sono tranquilas quando as suas eram inquietas e barulhentas. E te digo, sem qualquer sombra de dúvida: perderia todas de novo. Ficaria mais noites no sofá com você, abriria mais portas, faria mais carinho, dançaria mais vezes. Eu me despediria menos de você todas as manhãs, voltando tarde da noite cansada. Eu ficaria. Eu veria mais começos e finais de dia com você na varanda. E faria mais vento, como você tanto gostava.

Muitas pessoas não entendem os gatos, e poucas pessoas entenderam você. Mas, no seu último ano, o Thiago chegou e nos tornamos uma família. Com estranhezas e entranhas, uma família completa.

Um dia, você teve uma convulsão no meu colo. Uma convulsão curta, seguida de ausência, seguida de vida, e foi só um susto. Naquele dia, eu chorei pelos segundos que achei que era definitivo, que você tinha ido embora. Mas depois veio o alívio ao saber que você estava e ficaria bem. Com o diagnóstico, a gente soube que você morreria com isso, mas não disso. Desde então, repeti essa frase dentro de mim quase todos os dias, como um mantra.

Hoje, não tem alívio. Você foi embora e eu nunca mais vou poder limpar seus olhinhos, vendo você olhar de volta com tanto amor. Eu nunca mais vou poder ser surpreendida por você ao subir na cama ou no sofá de repente, vindo dormir pertinho de mim. Se eu tentasse te trazer fora de hora, era fora na certa. Você tinha seu tempo, e muita clareza do que queria, quando queria.

Não se explica quem você foi a quem não te conheceu.

Mas se existissem outras Betinas, o mundo seria um lugar melhor.

Se existisse ao menos essa Betina, o meu mundo, certamente, seria.

 

Fabiane Secches
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