Entrevistas

05 de março de 2015

Bia Bittencourt

Bia Bittencourt já passou pela MTV Brasil e trabalha na TV Folha, mas é por seu trabalho à frente da Feira Plana que Bia é reconhecida. Também pudera: a Plana se tornou o maior e mais importante feira de publicações independentes do Brasil e acontece anualmente no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. A terceira edição será no próximo fim de semana, nos dias 7 e 8 de março, das 12 às 20h.

Entre erros e acertos, o evento tem feito história e desempenhado um papel fundamental no cenário das publicações independentes nacionais. Bia é organizadora do evento e divide a curadoria com o artista Carlos Issa (conheça a lista completa com os expositores de 2015 aqui).

“A organização e o perfil dos editores sempre girou na produção punk de guerrilha, auto publicações e livros com refino gráfico, artístico feito por artistas e designers”, conta.

Estivemos lá desde a primeira edição e a euforia coletiva toma conta do lugar: artistas de diferentes formações, complexidades e estilos levam seus trabalhos e muita gente (muita gente mesmo!) preenche o jardim e os corredores do MIS. O interesse genuíno de Bia por zines e produção cultural/artística independente faz diferença — e é essencialmente sobre isso que conversamos com ela aqui.

Nesta edição, a Confeitaria participa em dose dupla: nosso novo livro, Não Conheço Ninguém que Não Seja Artista (fotografias de Camila Svenson e poemas de Ana Guadalupe), será lançado na Feira na mesa da editora Lote 42. E o primeiro, Amor; Pequenas Estórias, estará à venda nas mesas do Murilo Martins e também da Lote.

Como nos anos anteriores, vamos fazer uma cobertura no nosso perfil do Instagram, mostrando o que a gente viu de mais legal por lá. Algumas dicas de antemão: não deixem também de visitar as mesas da Maria NanquimA Bolha, Bebel Books, Companhia Rapadura, Pingado-Prés, Meli-MeloRepública Books, TijuanaVibrantContra e Renata Miwa.

 

CONFEITARIA – Você se lembra do seu primeiro zine? Quando começou seu interesse — e sua paixão — por eles?

BIA BITTENCOURT – Nossa, boa pergunta, não tenho a menor ideia de como foi o meu primeiro zine quiçá ele chamava zine mesmo. Tenho ainda guardadas comigo algumas artes postais que troquei entre 99 e 2002 num grupo de pessoas do mundo inteiro, tenho certeza que fiz uns zines e enviei pra essas pessoas mas nunca fui de guardar as próprias coisas que fazia. Lembro que eu tentava fazer umas coisas bem artisticas, mas acho que era tudo bem feio. Ainda bem que não guardei.

A produção já existia, mas a paixão começou depois da primeira Feira Plana que mudou uma chavinha na minha cabeça. Cheguei de balão numa montanha mágica onde todas as pessoas são legais, produzem coisas incríveis, a comida é boa e no fim do dia sempre faz arco-íris e nunca mais saí de lá.

 

E quando você começou a ser uma leitora/colecionadora entusiasmada? Falando nisso, como anda a sua coleção?

Quando comecei a viajar sozinha, acho que tinha uns 20. Fui pra Portugal e França e visitei algumas livrarias que tinham auto publicações, uns livros de arte, umas coisas em risograph naquela época já. Fui comprando e guardando. Hoje tenho mais de mil, sei lá, acho que nunca contei!

 

A Feira Plana foi inspirada na New York Art Book Fair e você participou novamente com a Kaput no ano passado. Hoje, caminhando para a terceira edição da Plana, no que você diria que as feiras mais se parecem e no que mais se diferenciam?

Pude participar duas vezes da New York Art Book Fair. Participei também da Libros Mutantes em Madrid, várias Tijuanas, uma Pão de Forma. Elas são todas muito diferentes, isso que é legal e por isso dá vontade de conhecer todas as feiras que existem. Em NY é uma coisa gigante, não tem só independente, tem um monte de editores de livro de arte, revistas, zines, auto-publicações do mundo inteiro no prédio do MoMA PS1. É insano, são 35 mil pessoas visitando, você sua, fica eufórico, tem show no meio das tendas super alto você nem ouve o seu amigo falando, cheio de comida boa no ar, gasta todo o dinheiro dos livros que vendeu em outros livros, fala mil línguas, é uma confusão! A Libros Mutantes é super bonita, organizada, cada ano eles fazem um mobiliário diferente pra ocupar o prédio da Casa Encendida. Os editores são mais locais e dos países ao redor, nesse ano foi legal que estávamos a Kaput, a Tijuana e a Meli-Melo, todos do Brasil. A Tijuana eu participo com amigos desde quando ela ainda acontecia na Galeria Vermelho, sede da própria editora Tijuana. Hoje ela é grande e acontece na Casa do Povo uma vez por ano e tem edições anexas em Buenos Aires e possivelmente em outros países da América Latina. A Pão de forma organizada pela Editora Bolha e a Comuna acontece no Rio de Janeiro com uma periodicidade maluca, em casarões com piscina e cada uma é diferente da outra, acho que por essa mudança constante da arquitetura. Aliás, eu sempre vejo a arquitetura do lugar onde a feira acontece como o fator mais predominante da personalidade de cada uma!

 

Pensando na arquitetura do lugar como fator predominante, o que fez você escolher o MIS para a Feira Plana?

Quando decidi que queria a feira num local público, como um museu, fui apresentando o projeto pra várias pessoas de várias instituições, ninguém estava nem aí, nem respondiam meu email. A Bebel, uma amiga minha, durante um almoço me falou sobre um projeto que ela fez no MIS e me passou o contato de um produtor muito legal, O Marcelo. Foi ele que gamou na Feira Plana e fez de tudo para que ela acontecesse lá. Eu fiquei muito feliz, a arquitetura do MIS é linda por fora, por dentro é uma confusão, mas gosto disso também, o auditório, os laboratórios, o jardim do MuBE, as curvas, os coqueiros, rampinhas, plataformas.

 

O tema desta edição é a fotografia. Você está publicando dois zines também, não é? Conte um pouco para a gente.

Estou! São dois zines, mas só um deles é de fotografia, o Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso. A Isadora da Editora Vibrant trabalha comigo e desde quando eu comprei minha camerazinha e passei a andar com ela no bolso todos os dias, ela acompanha minhas fotos. É mais ou menos o recorte de um ano de fotografias que fui tirando e guardando num álbum imaginário. A Isa e a irmã Martina reuniram num livro dos sonhos várias dessas fotografias e eu vou lançar lá na mesa delas, domingo, às 17h. O outro que vou lançar é o Firma, pela Editora Contra. Um livro que o Guilherme Falcão editou com os print-screens dos emails que recebo no trabalho e colecionei durante um tempão.

 

Qual é o maior desafio como organizadora de um evento da proporção da Feira Plana? Com o sucesso das edições anteriores, imagino que algumas portas tenham se aberto. Mas, de outro lado, a responsabilidade aumenta com tanta visibilidade. Como tem sido essa experiência pra você?

Sim, é uma baita responsabilidade. Por isso esse ano me dediquei tanto para costurar uma programação madura e cuidar de todos os detalhes possíveis da Plana para que ela corra bem para todos. Ainda é um desafio a captação de recursos, a dificuldade que é levantar um evento desse porte sem lei de incentivo nem edital. Ao mesmo tempo, a busca constante de parceiros e patrocinadores trás pra minha vida pessoas incríveis e novos amigos, são pessoas que ficam perto e acompanham todo o amadurecimento do projeto, se engajam junto, trabalham por amor e assumem a causa. Isso é quiçá muito mais legal que ir lá num guichê de uma repartição pública pegar uma fortuna da mão de um espectro sem nome. Mas são fases e descobertas.

 

A intenção é manter a Feira como um evento anual em São Paulo ou você planeja levá-la para outras cidades também?

Sim, eternamente anual. Se ela for passear por aí, vai ser em forma de exposição, conversa, oficina ou a convite de passeio no iate.

 

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Fotografia: Camila Svenson para Confeitaria

Veja a programação e os lançamentos da Feira Plana 3

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Fabiane Secches
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