Entrevistas

17 de março de 2015

Camila Svenson

Conheci Camila Svenson em 2012, quando ela estava começando a experimentar a fotografia como profissão. No entanto, não havia nela qualquer coisa de iniciante: como anunciou a amiga que primeiro nos apresentou, Camila tinha um talento raro. Mais do que um senso estético apurado e ainda mais do que um olhar atento e sensível por trás das câmeras. Não foi difícil notar a sua inquietação, nem perceber as suas tentativas em encontrar um caminho com significado pessoal e profissional verdadeiro. De lá para cá, trabalhamos juntas algumas vezes: foi ela quem fez os primeiros retratos dos entrevistados desta seção na Confeitaria. Na contramão da estética publicitária, Camila faz retratos estranhamente belos, com proporções que desafiam a matemática simplista, a simetria muitas vezes asséptica. Existe uma singeleza em seu trabalho que sempre me chamou atenção: falta produção, falta afetação, falta que Camila force sua presença por trás das lentes, imprimindo autoria mais do que enxergando o outro. São essas faltas que me fizeram admirá-la e querer acompanhar suas ideias de perto.

Quando pensamos no conceito de Não conheço ninguém que não seja artista, o segundo livro da Confeitaria, o nome da Camila e o da Ana Guadalupe, coautora do livro, foram os únicos em que pensamos. Não havia outras opções, nenhum plano B. Era com elas — e apenas com elas — que gostaríamos de realizar essa experiência. As duas não se conheciam, mas existia algo que me fez acreditar na beleza do que elas construiriam juntas: uma conversa que extrapolasse palavras e imagens. Queríamos fazer um livro sobre a limitação da linguagem e, ao mesmo tempo, sobre a possibilidade de acessar outras formas de comunicação, de diálogo, que só os caminhos mais lúdicos — como o poema e a fotografia — fossem capazes de proporcionar. A química funcionou perfeitamente: Ana e Camila se entenderam sem que eu precisasse me esforçar como editora. Bastou não atrapalhá-las.

A proposta era simples, mas talvez um pouco pretensiosa: primeiro, Camila criaria dez fotografias e Ana, dez poemas inéditos — com tema e formato livres. Depois a gente faria a troca e aí sim elas teriam um ponto de partida: Ana escreveria mais dez poemas, dessa vez inspirados nas primeiras fotografias de Camila. E Camila agora faria outras dez fotografias, inspiradas nos primeiros poemas de Ana. Ao todo, a gente teria uma coletânea em que vinte poemas e fotografias funcionariam como um conjunto, conversando entre si.

A distância física não foi impedimento — tampouco os prazos relativamente apertados. A sintonia entre as autoras existiu de uma maneira muito natural e produtiva. E acompanhar esse processo, como editora, foi um privilégio. A surpresa, a estranheza, a comoção. Ao final, fico com a certeza: escolhemos as parceiras perfeitas para essa aventura.

Camila vive em Nova York, onde cursa o programa de Fotojornalismo & Fotografia Documental do International Center of Photography. Conversamos aqui sobre sua história com a fotografia, suas referências, a experiência em Nova York, o processo criativo caótico desse seu primeiro livro — e também um pouco sobre seus novos projetos.

 

CONFEITARIA – Você sempre se identificou com a linguagem fotográfica? Quando pensou em fazer disso a sua profissão?

CAMILA SVENSON – É engraçado, mas eu não tenho uma memória específica de infância que diga respeito à fotografia. Lembro que nunca tive câmera quando era criança, e o ato de fotografar na minha família era sempre relacionado a algum evento especial; natal, aniversário, uma apresentação de escola — nunca como uma atividade que estivesse presente na minha rotina. Eu comecei a gostar de fotografia quando mudei do interior para São Paulo, em 2004, e ganhei uma câmera digital horrorosa de 3 megapixels. E então passei por todos os clichês fotográficos possíveis até entender que fotografia era algo com que eu realmente me importava e que queria aprender como fazer direito. Pensei em fotografia como profissão quando comecei a faculdade de Audiovisual, em 2009.

CONFEITARIA – Quais são suas maiores referências na história da fotografia? E na fotografia atual? 

CAMILA SVENSON – As minhas referências estão mudando muito. Cada hora fico obcecada por um trabalho novo. Acho que de cada fotógrafo vem um aspecto e um reconhecimento diferente. Bresson, Diane Arbus e Kertész foram os primeiros fotógrafos que eu tive contato quando comecei a gostar de fotografia. Hoje em dia, gosto muito do trabalho do Luiz Braga — principalmente depois que comecei a pensar no conceito da identidade coletiva e de pertencimento. Sou apaixonada pelo trabalho da Alessandra Sanguinetti, Francesca Woodman, Elinor Carucci — que não conhecia até pouco tempo. Donna Ferrato, Pedro Martinelli, Barbara Wagner, Larry Sultan. Eu poderia continuar essa lista pra sempre.

CONFEITARIA – Seu caminho atual é a fotografia documental, certo? Como aconteceu essa escolha?

CAMILA SVENSON – Sim. A maioria dos meu projetos gira em torno da fotografia documental. Foi um processo gradativo que se tornou mais forte no ano passado. Eu nunca tive paciência para trabalhar em estúdio, montar um cenário, construir uma situação e então fotografá-la. E também sempre me interessei muito pelos conceitos de memória, intimidade, espaços pessoais. Em certo momento, percebi que “o outro” me atrai muito na imagem. A vida do outro, a história do outro — dos milhares de outros que estão por aí. Conquistar a intimidade de um desconhecido, ganhar acesso — construir uma relação. Esse é o meu maior foco agora — essa conquista. Eu já vinha fotografando na rua há algum tempo. Retratos de estranhos, conversas muito breves, e já partia para o próximo. Mas isso não era mais suficiente. O imediatismo acaba deixando tudo raso e me frustrava muito — eu entendi que eu precisava mesmo era entrar na vida das pessoas, que é isso o que me importa e o que me emociona quando observo fotografias de que gosto. Pra mim, tem que existir uma relação. E isso leva tempo — a fotografia documental requer tempo, paciência. É um processo que dói. Essa pra mim é a coisa mais bonita — o fato de que a gente se reconhece no outro — e o outro vira um espelho, tanto para quem fotografa como também para aquele que observa a imagem.

CONFEITARIA – Quando você diz que a fotografia documental é um processo que dói, e que há um reconhecimento no outro – o outro como um espelho, essa reflexão se aplicaria também ao autorretrato? Aliás, a gente pode chamar um autorretrato de documental? É um processo ainda mais doloroso, quando o outro é você também, quando você é o seu próprio espelho?

CAMILA SVENSON – Muito provavelmente a fotografia documental pra mim seja uma fuga para evitar olhar e entender a minha própria imagem. Quando você se reconhece no outro e fotografa esse processo, também está expondo as suas próprias questões e conflitos. Todo retrato também é um autorretrato. E talvez seja mais confortável falar sobre os nossos conflitos pessoais usando  uma imagem intermediária. Eu quase nunca tiro autorretratos. Acho extremamente difícil e complexo. Com certeza é um processo muito mais doloroso e vulnerável. Acho que eu ainda não tenho maturidade para entender o que fazer com a minha própria imagem.

CONFEITARIA – Quando você disse “O imediatismo acaba deixando tudo raso e me frustrava muito — eu entendi que eu precisava mesmo era entrar na vida das pessoas” eu me lembrei de uma crítica que você fez ao Humans of New York e que me chamou atenção na época (ainda sou entusiasta do projeto, mas achei um contraponto interessante)Que críticas você faria a movimentos como esse de maneira geral?

CAMILA SVENSON – Seria irônico criticar  o Humans of New York, já que eu fazia algo parecido, né? Com o Achados Humanos. No começo, me pareceu uma ideia muito boa. Gostava muito de fotografar essas pessoas randômicas na rua — mas, depois de um tempo, percebi que o Achados nunca teria força pra ser um projeto decente — não existe nada lá. Eu comecei simplesmente porque gostava de fotografar desconhecidos — mas acho que acabei perdendo o entusiasmo depois de um tempo. E então virou algo mais voltado à quantidade do que qualidade — “preciso fotografar x pessoas por dia para postar na página do Facebook”. Qual o propósito disso? Virou um projeto mecânico. Isso não me interessa mais. Pra mim, o problema de Humans Of New York é o fato de que não se trata mais de indivíduos, mas da representação de personagens: “O homem que se curou de câncer”, “O veterano da guerra”, “O mendigo”, “A mulher de Wall Street” . Muitas das histórias têm um positivismo motivacional de fácil absorção. É um projeto bem sucedido porque a mídia e as pessoas precisam disso.

CONFEITARIA – E quais são os seus próximos planos/projetos em fotografia?

CAMILA SVENSON – No momento estou trabalhando em dois projetos diferentes em Nova York. O primeiro deles é sobre uma rua no bairro do Queens chamada Utopia Parkway — uma região primordialmente de imigrantes que vivem uma vida completamente americana, inseridos na classe média alta. O segundo projeto é sobre histórias relacionadas a amor, perda, rompimento, relações que deixamos para trás. Estou procurando mulheres pelo aplicativo Tinder e pedindo para que elas me escrevam uma carta – que se relacione com o tema e indo em suas casas para fotografá-las. Ambos estão super rasos ainda. É só um começo — com certeza as premissas vão mudar.

CONFEITARIA – O seu projeto sobre o Tinder e as cartas de amor também poderia estar relacionado ao seu desejo de construir relações mais genuínas? Parece que há um paradoxo que você percebeu em seu trabalho, e que experimentamos na vida: queremos tanto nos aproximar uns dos outros, mas nos falta habilidade em construir elos mais verdadeiros.

CAMILA SVENSON – Sim. Com certeza. Os laços humanos estão muito mais frágeis — gostaria de dizer: mais frágeis do que antes, mas acho que eu nunca experimentei esse “antes” completamente. A minha geração cresceu junto com a internet. Talvez eu não saiba ver o mundo de outra maneira. Acho que o que eu quero com o projeto do Tinder é olhar para as histórias de amor — com todos os clichês e complexidades que parecem acompanhar essas narrativas. Está sendo um processo muito maluco pedir para mulheres me escreverem cartas. As histórias têm uma universalidade gigante. Às vezes sinto que a carta é pra mim, ou que eu poderia ter escrito exatamente as mesmas palavras.

CONFEITARIA – Qual foi o maior aprendizado que o curso e a vida em Nova York trouxe para você até agora?

CAMILA SVENSON – Ironicamente, o curso me fez entender que o ato de fotografar em si não é o mais difícil. O difícil é todo o resto. Difícil é fazer alguém abrir a porta da casa pra você, é se inserir em um contexto que não tem absolutamente nada a ver com a sua vida. É o clichê de sair da zona de conforto. Difícil é pensar a imagem antes, entender o que nos emociona na fotografia — e o porquê emociona. Difícil é tudo o que vem antes de se apertar um botão. O curso me deixou mais paciente também — me tirou essa ansiedade de fotografar algo e já compartilhar. Tem que existir um tempo para absorver o que você esta fazendo, se não, não tem o mesmo valor. A vida em Nova York é em muitos aspectos interessante. Eu gosto da sensação de que ninguém realmente é daqui ou pertence — de que esta é uma grande cidade do não pertencimento. Gosto de que todas as pessoas parecem estar tentando construir algo novo o tempo inteiro, tentando recomeçar. Mas acho que o mais essencial foi perceber que faço parte de uma identidade cultural — de um país com hábitos, tradições, trejeitos e palavras que nunca vão ser traduzidas em totalidade por mais que a gente tente. Esse afastamento do Brasil me fez entender um pouco mais dessa identidade — tanto coletiva quanto também individual. E essa situação de imigrante, de deslocamento, também é muito interessante para a minha produção.

CONFEITARIA – E no caso do livro? Como foi o processo criativo de Não conheço ninguém que não seja artista pra você? Que tal a experiência de fazer um livro em equipe — e à distância?

CAMILA SVENSON – Foi um processo muito interessante em ambas as etapas. Primeiro, a produção inicial das dez fotos. Tentei pensar em fotografias que funcionassem bem sem necessariamente estarem inseridas em uma sequência, imagens com narrativas singulares para que a Ana Guadalupe pudesse criar os poemas sem estar presa a elementos muito fixos ou específicos. As primeiras dez fotos foram feitas no Brasil — a maioria em espaços que se relacionam ao meu passado e à minha infância. Tentei prestar atenção a esses espaços, objetos e pessoas. Tentei fotografar elementos e situações que para mim transmitissem a sensação de algo que sempre esteve lá, mas que está mudando — desaparecendo. O mundo como a gente conhece está sempre desaparecendo e eu preciso fotografar antes que de fato aconteça. Essa foi a minha premissa inicial. Depois, quando recebi os primeiros dez poemas da Ana, achei muito maluco porque ela foi por uma linha totalmente diferente — lidando com o mundo  do jeito que está agora, a internet, a ironia, questões contemporâneas. Mas quando conversamos sobre as impressões que tivemos nessa primeira troca, ela me disse que rolou um alívio de poder respirar um pouco e voltar atrás para escrever os outros dez poemas. Eu, por outro lado, achei ótimo o fato de que também teria que lidar com o contexto do presente — as dez fotos seguintes foram feitas em Nova York. Tentei misturar as situações e lugares, mas sem nunca apontar onde estava fotografando. Essas fotos poderiam ter sido feitas em qualquer cidade, ou em qualquer país. Gosto muito do processo de fazer um projeto colaborativo, acompanhá-lo até que vire livro — pensar junto tem mais peso, mais reflexão.

CONFEITARIA – Qual é o seu poema favorito do livro? E sobre a combinação entre poema e imagem, qual delas mais emocionou você no final?

CAMILA SVENSON – Meu poema favorito é o Saudade mínima. Ele veio a calhar com muitos aspectos da minha vida no momento. E também é a combinação de que eu mais gosto entre foto e poema. Acho que os elementos de ambos se fundiram e funcionam muito bem juntos. Essa foto é sobre uma falta, sempre foi — mas precisei que ela viesse acompanhada de um poema para entender isso.

 

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Imagem: Camila Svenson (autorretrato).

Site oficial.

Página do evento: Noite de Autógrafos + Exposição: dia 19/03 (quinta-feira), às 19:30h, na Livraria Blooks (Shopping Frei Caneca), em São Paulo.

Fabiane Secches
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