Textos

15 de maio de 2012

Camila

Dizem que quando o caçula chega na família, o filho mais velho sempre fica enciumado.

A minha história é diferente.

Eu só tinha um ano e quatro meses quando ela nasceu. Mas, assim que fui à maternidade para conhecê-la, me apaixonei completamente.

Contam que entrei firme, como quem sabe muito bem o que faz, olhei para a mamãe e apenas perguntei: “cadê o nenê?”.

Foi assim, amor à primeira vista, ou antes da primeira vista.

Talvez eu não tivesse idade suficiente para me lembrar, mas eu me lembro dela dentro do bercinho, tão bochechuda que parecia de brinquedo. A pele mais branca, o cabelo mais preto. Que nem Branca-de-Neve. Diferente da irmã loirinha e magrela, Camila nasceu exuberante.

Crescendo juntas, queria cuidar, proteger, fotografar. Queria não desgrudar nunca mais.

Não demorou para que ela ficasse mais alta e mais forte do que eu. Mas nunca deixei de tentar colocá-la embaixo da minha asa — ainda que fosse uma asa de pintinho. Ainda que ela não precisasse da minha proteção: Camila era boa com esportes, batia nos meninos e adorava brincadeira de moleca. Vivia suja de terra e escolhia roupas coloridas.

Ela sempre foi lindíssima, mas nunca teve vergonha disso. Enquanto eu me encolhia numa escoliose, envergonhada por ser bonitinha, ela se empinava toda, sem pedir licença por ser estonteante. Camila vivencia a sua beleza e a sua sensualidade sem culpa. E sem crueldade.

Nós nos tornamos melhores amigas. Inseparáveis e telepáticas. Mas a vida adulta chegou e foi implacável. Toda pureza da nossa infância ficou nas lembranças mais doces, e nos raros encontros que temos hoje.

Não importa: ela continua sendo o meu grande amor.

Como é desde que nos conhecemos, naquele 24 de agosto, na maternidade Santa Catarina, em São Paulo.

Ou mesmo antes, quando ela esteve dentro da barriga da mamãe, e dentro dos meus sonhos também.

Ou mesmo antes, em outras vidas, se por acaso elas existirem.

Este texto não tem nenhum valor além de uma carta de amor ridícula, como são ridículas, afinal, todas as cartas de amor.

 

 

* Texto escrito para o projeto AMIE DE MON AMIE, com aquarela de Natacha Cortêz.

Fabiane Secches
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