Entrevistas

29 de janeiro de 2014

Carolina Lancelloti

Para inaugurar a seção de entrevistas da Confeitaria, convidamos a nossa autora Carolina Lancelloti, que também é diretora criativa da emag aLagarta, para uma conversa sobre a revista, o mercado editorial na internet e os novos projetos.

Formada em moda e bailarina clássica, Carol tem apenas 26 anos e uma experiência e tanto como fotógrafa e editora. Falamos com ela sobre o passado, o presente e o futuro d’aLagarta:

CONFEITARIA – Você está à frente de uma das emags mais conceituais no Brasil: aLagarta caminha para o seu quarto ano de vida e tem construído um caminho consistente. Diferente da maioria dos projetos de internet, que têm fôlego curto, seja pelo desinteresse do leitor (sempre buscando novidades), seja pelo desinteresse dos próprios criadores (na busca de outros projetos “quentes”), aLagarta mostra que é possível estabelecer um diálogo duradouro. A que você atribui esta conquista?

CAROLINA LANCELLOTI – Acredito que aLagarta continua viva e vibrante até hoje para o seu público e para a sua equipe porque além de abrir espaço para que artistas, escritores e jornalistas se expressem genuinamente, ela sempre se reinventou. Uma das características da mag é a metamorfose, não só através de temas que instigam as pessoas, mas também da própria identidade visual, que sempre se transforma. Mantemos a nossa essência, mas, ao mesmo tempo, acompanhamos as mudanças. Porque aLagarta é um reflexo das pessoas que fazem a revista acontecer. Como somos seres em eterna transformação, ela acompanha e se transforma também.

É preciso muita persistência e paixão pra abraçar um projeto assim. Não é fácil, principalmente sendo independente. Mas preferimos nos expressar e criar da maneira que nos faz feliz e nos realiza — ainda que vá contra a corrente e ainda que conquistemos um público mais restrito, e pouco a pouco. A troca com esse público é muito gratificante, um encontro precioso.

A novidade pela novidade é vaga, se não transmitir de fato algum valor, alma, paixão. Bem, é o que eu penso. De que adianta uma novidade, se ela é oca, ou se não tocou você, especificamente?

CONFEITARIA – Apesar de ter como DNA o conteúdo autoral, em edições trimestrais, aLagarta também consegue transitar com relevância nas redes sociais, e expandir a experiência de suas edições. Como essa presença multi plataforma é pensada?
CAROLINA LANCELLOTI – Expandir a experiência é fundamental. Desde que começamos, víamos aLagarta também como um estilo de vida, que inspira os seus leitores. As diferentes plataformas podem coexistir. Uma não anula a outra; complementa.
CONFEITARIA – E como a ideia d’aLagarta surgiu? Desde os primeiros rabiscos até a primeira edição, conte um pouco para a gente.
CAROLINA LANCELLOTI – Ela nasceu quando eu estava na faculdade e sua ideia inicial era a de ser um blog colaborativo. A ideia ficou amadurecendo por um tempo e o nome veio do clássico “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll. Aí, um dia, eu vi as meninas do blog Girls With Style produzindo editoriais, peguei minha revista gringa favorita e pensei “eu posso fazer isso. Eu posso fazer uma revista”. Fiquei inspirada. A internet estava ali pra possibilitar projetos assim! Eu já fotografava e a ideia de produzir editoriais livremente, do zero, me animou muito! Convidei alguns amigos e começamos a empreitada. Muitos deles estão na equipe até hoje: a Tati Pomar fez a beleza e o styling dos primeiros editoriais. O Rafael Torres fez a marca. Na época, tinha um namorado que me ajudou a colocar no ar e assim nasceu a revista. A primeira edição foi toda “diagramada” por mim no Photoshop mesmo. Na segunda, chegou o Leo Pope, que se empolgou com o projeto e veio cuidar da direção de arte. E assim, nasceu aLagartinha.
CONFEITARIA – Hoje você e o Leo Pope dividem a direção criativa. De fora, a gente também percebe que há mudanças editoriais significativas — talvez consequência natural da evolução e maturidade da revista, talvez também dessa parceria no comando d’aLagarta . O que você sente que mudou com esse cenário?

CAROLINA LANCELLOTI – O aspecto visual ficou ainda melhor. Conseguimos dividir melhor as tarefas e papéis que cada um tem, o que enriqueceu em todos os aspectos. Mas, na verdade, eu sempre pedi muito a opinião do Leo, porque o papel de um designer e diretor de arte numa revista como aLagarta é fundamental. Ele sempre abraçou o projeto de corpo e alma. Fiquei muito feliz quando propus que dirigisse comigo, assumindo de fato o que ele já acabava fazendo, e ele aceitou de cara. Ninguém conhece aLagarta tão bem como o Leo. A revista realmente se transformou, porque senti que ele ficou livre pra se entregar mais e tomar o projeto como dele também. E pelo fato de serem duas mentes dividindo a criação. É importante a troca, as diferenças, as experiências. Sem falar a trabalheira toda que dá — ter alguém pra dividir é muito bom! 

 

CONFEITARIA – O conteúdo d’aLagarta é focado no público feminino. Como foi essa escolha?

CAROLINA LANCELLOTI – Sim. O nosso público sempre foi mais feminino, assim como a equipe. Hoje, temos homens também, que dão uma equilibrada interessante para a mag, mas que ainda se adaptam, de certa forma, à nossa linguagem.

Isso começou naturalmente. Eu, inicialmente, era a única fotógrafa. Como gosto de me comunicar com o público feminino, acabamos seguindo esse caminho, que virou uma identidade.

Porque, de novo, é um reflexo de quem faz a revista e, desde o inicio, aLagarta foi feita, em sua maioria, por mulheres.

O Leo e o Suzuki, por exemplo, passeam pelo universo feminino muito bem. Então, foi meio que natural e tranquilo manter a identidade da primeira publicação.

 

CONFEITARIA – Sei que a revista inglesa Lula foi uma inspiração no começo. Quais outras referências inspiram vocês?

CAROLINA LANCELLOTI – Sim, a Lula foi a principal inspiração pro start, mas, ao longo do caminho, outras referências vieram. Desde a caligrafia usada no The Selby, como o Leo sugeriu, até outras publicações que optam pelo conceitual ao invés de se render ao comercial, como a Dansk e a The Mark (ainda que não nos inspirem esteticamente).
CONFEITARIA – Você tem na vida de Paul e Linda McCartney (Linda foi a primeira mulher de Paul, mãe de suas filhas Stella e Mary) uma outra referência forte. Uma vida que combinou, a um só tempo, o lado cosmopolita de Londres — e o sucesso dos Beatles mundo afora — com a vida no campo, em uma fazenda, voltada para o convívio em família e com a natureza. É raro transitar entre universos tão diferentes sem perder a identidade. Essa é uma característica sua que está presente na linha editoral d’a Lagarta também?
CAROLINA LANCELLOTI – É um ideal de vida que está muito presente sim. A gente sempre busca o contato com a natureza, com a essência. A gente deseja inspirar através de valores e não de uma linguagem comercial. Somos preocupados em pensar como indivíduos que fazem parte de algo maior, mesmo. Ignorar isso é viver numa bolha, anestesiado. E aLagarta sente. E se conecta. Ela ama moda, arte, beleza, mas também ama a natureza e respeita a vida. Usamos muitas peças de acervo e não colocamos preço, apenas créditos. Porque vender por vender nunca foi o intuito da revista. Queremos inspirar. E fazer um mundo melhor, por mais clichê que isso soe.
CONFEITARIA – As edições temáticas são característas de algumas publicações no mercado editorial. Reunir diferentes olhares sobre um tema pode proporcionar uma experiência muito rica para os leitores — e para os editores. A escolha dos assuntos, depois de três anos e meio de revista, é um dos momentos mais difíceis para vocês?
CAROLINA LANCELLOTI – Depois de 15 temas, é um pouco. Não só pela quantidade já feita, mas pelo desafio de não escolher nada que seja óbvio. Porque a gente gosta de questionar. E eu, tendo trabalhado com moda e pesquisa há muito tempo, amo estudar tendências, tentar “prever” e explorá-las enquanto ainda estão embrionárias. É bacana fazer parte do começo de um movimento e falo, com orgulho, que aLagarta tem feito isso bem.
CONFEITARIA – Nos editorais, vocês usam tanto modelos como “pessoas reais”, como na edição sobre amor de verão, quando trouxeram casais de verdade. A ideia é que isso aconteça com mais frequência?
CAROLINA LANCELLOTI – Sim, sempre fizemos dessa forma. E gostamos de unir essas duas vertentes. Trazer um lado pessoal também. Até eu já modelei. A Tamires Ribeiro, do editorial oRelicário, nossa modelo número 1 (começou com aLagarta) é modelo e também namorada. A Bruna Magalhães, do editorial Flying Swing, é professora de pole dance e modelo. Tomamos muito cuidado na hora do casting. Procuramos por pessoas que tenham uma história relacionada ao tema.
CONFEITARIA – E para terminar: tem alguma pergunta sobre aLagarta que você gostaria que fizessem e nenhuma entrevista fez antes?
CAROLINA LANCELLOTI – Deixa eu pensar… acho que sobre os novos planos. Estamos desenvolvendo um app, que vai tornar o acesso às edições bem mais prático em celulares e tablets. Estamos bem animados! E também temos planos no mundo impresso. Sempre tivemos ideias, mas, nesse ano, elas estão de fato se encaminhando e, em breve, teremos mais novidades. Sem falar do coletivo absolem, que acabou de nascer, de dentro da própria revista.
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Fabiane Secches
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